Novembro de neblina pingada em manhãs nascidas de azul entristecido. Capa orvalhada cobrindo o sorriso do sol, que em Novembro tremeluz entre os vermelhos esvoaçantes, os verdes secos e as pétalas murchas de seiva. Novembro, frio soprado dos montes despidos em coro silvado de vento.Novembro acenado em pétalas de um crisântemo dourado. Novembro doce de odores liquefeitos em cobres refulgentes. Em Novembro adormeço no berço do tempo frio. Lenta e soluçante a natureza despe-me.No movimento de cada ramo ,as lágrimas -folha caem-me na terra húmida. A vida recolhe-me, hiberno, escondo-me, remanso.
Em Novembro respiro as brumas das manhãs ,e ,suspiro nas tardes mornas, depois sento-me no frio das noites ainda estreladas. Em Novembro amasso a despedidada estação em simples pão de cada dia, branco, leve e macio,que logo parto em metades ainda túberes de calor.Metáforaredondadosaciar da vida.
Em Novembrodispo-me ,porémprenhe de amor ,visto-me de Mãe.
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07 novembro, 2008
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.Recebi de Árvore das Palavras neste Novembro... Uma distinção que muito agradeço ,sensibilizada.Um beijo em Novembro.
O tango que danço no palco da sala de aula faz-me bailarina desajeitada. O meu par, desprovido de carnes e olhar, é apenas sensação consciente, que me impele no requebro do vai e vem. O esforço repetido na perfeição da dança torna-me marioneta do gesto e da palavra que, talvez por deficiente condição acústica da sala, se perde nos galanteios ruidosos que não prazenteiros dos clientes-alunos. A minha sala de baile é real. Sentados nas cadeiras de pau, os alunos, perdão antes clientes, olham-me críticos porque detêm o poder, não da sabedoria, mas antes da força. E sob a harmoniaintrínseca do contexto, lá vou eu esvoaçando no meu tango. Roda que roda, rodopia, flecte, cruza, baixa, levanta, o compasso estimula-me. Deito a cabeça para trás, deixo que o corpo se plasme à sabedoria, sorrio, agito-me no voltear. Eis que os acordes finais estão prestes. Afogueada, depois de tamanho esforço, de olhos brilhantes encaro a minha plateia esperando que da sintoniade encanto, um breve galanteio, sorriso ou assentimento se esboçasse. Pobre dançarina. Triste professora! Somente a escuridãode olhares me acolhe. Perpasso de novo a coreografia, mental e rapidamente. Não encontro falhas. Talvez, quem sabe, apenas um momento falazquando me deixei envolver. Talvez o meu erro. Os rostos hirtos, ocos de sentimento olham de soslaio para a bailarina-professora. Uma chata quase pré-histórica. Devia estar em queda. Ridícula com tanto baile. Professores bailarinos só de hip-hop A música é outra. Sem compromissos. O ano está quase passado. E apenas começou. Eles sabem tudo. Conhecem a mentira vestida de andrajos de liberdade
A música arranha o ar. O ruído tomou o corpo do palco. Pego nos meus sapatos de tango, rodeio a saia vermelha, ajeito o cabelo desfeito mais o trabalho inglório, e, olhando a luz que se vai filtrando na janela despida, sinto a revolta dos anos, a revolta do achincalhar, a revolta que preside à capitulação de todos os dias!
Colectivo a apresentar: "22 Olhares Sobre 12 Palavras" (PVP: 13,00€) - nascido na blogosfera por pessoas que têm em comum o amor à palavra e à escrita.
Apresentações: _ Porto, Palacete dos Viscondes de Balsemão; à Praça Carlos Alberto, 22 Novembro, 2008, 16H - apresentação a cargo de Jorge Castro do Blog http://sete-mares.blogspot.com/ com prefácio de José António Brreiros _ ver blogues em http://joseantoniobarreiros.blogspot.com/ _ Lisboa: Livraria Barata, 05 de Dezembro 2008, 19H30
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26 outubro, 2008
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Palhaço
Eu sou Palhaço. Palhaço-bailarino. Rio dos outros, rio do mundo e rio de mim. Ah!Como rio de mim. Ah! Como choro de mim. Ah, como rio e choro, choro e rio! Sou palhaço. Sou uma simples sintoniade vida. Corro, estatelo-me. Levanto-me. Dobro-me. Sou elástico. Sou elástico na luze na escuridãoda pista Cresço nas palmas e nos risos das crianças. Sou palhaço. Sou um pedaço de tecido colorido. Sou um nariz vermelho, uma cabeleira de palha, um laço azul. Sou o meu próprio motejo! Ninguém me percebe. Ninguém escuta a raiva de um palhaço. Oh não, um tal sentimentoassim? Não! O palhaço é feliz. O palhaço ri. O palhaço rebola. O palhaço é alegria. É assim. Na harmonia das cores, no brilho dos risos, no calor falaz das palmas, a vida é um momento de liberdade. Sou palhaço homem que rebola, rebola na graça de uma pista Sou palhaço de sapatos grandes e pés dançantes. Sou Bailarino de risos e graças esvoaçantes. Esfusiante, rebolo que rebolo na gargalhada dobrada de um gestode pilhéria. Zombo de mim porque rio dos outros. Choro de mim porque rio do mundo. Sou assim galante-palhaço em esforço. Esforço-me nos saltos, nos esgares, nas caretas, nos textos que decoro, nas falas que titubeio. Uma moedeira Sou palhaço e faço da momice galanteioque distribuo à gente. Gente triste. Gente que ri ao bilhete. Gente que ri de mim, o palhaço. Gente que chora da vida, como eu, o palhaço. Rolo e rebolo na pista. Tropeço nos pés. Caio, estatelo-me, e ,elástico levanto-me. Os meninos riem. Eu rio, choro e aceno. É a minha capitulaçãoà verdade.
No coalhar do humor fez-se dura. No cortar, aprendeu o vazio do gesto. No servir, a elasticidade do sorriso. Maria personagem acesa de um mundo vivo. Vai nos trinta anos. Nas mãos agarra o mundo que pretende, que a cobiça dos olhos lhe mostra. Não é singela, porque o atavio a veste do despudor da mente. Corre frenética pela estrada do hoje, porque o ontem morreu na esquina da inveja. Nos lábios trinca o sorriso macio do bem gerir. Gere as emoções na tábua lisa dos interesses. Há que chegar, há que subir a montanha. Pelo caminho escorrega nas escarpas. Os golpes não a incomodam. O cansaço não é nada. Depois, quando lá chegar, poderá descansar. Antevê a glória do domínio. A vitória lateja-lhe no espírito. Maria…
Dança-lhe o desejo no olhar. Nas mãos, articuladas de gestos, brincam-lhe os dedos. Nos braços, compridos, fremem-lhe as veias, no pescoço correm-lhe os anseios e no colo moreno suspiram-lhe os frémitos. Maria …
Percepciona o mundo à dimensão do seu ego. Forja as vidas. Usa as pessoas. Serve-se delas. No cinismo pessoal jaz a sua glória manipuladora. No permeio fica um sorriso meio doce que forra uma voz macia. Maria sabe o que quer. Sempre soube. É uma sobrevivente.
Maria tem uma história. Banal. Maria ri da sua vida. Ri da vida, que não de si. Maria é firme. Afila a vontade e varre a emoção. Chorar? Gritar? Já o fez. Hoje bebe a vida em golfadas, e, cospe-a em desprezo. Está saciada. A predadora e a sua presa. Quem diria? Maria…
Maria é mulher. Foi amante. Maria é mãe. Foi filha. Maria amou. Não foi amada. Maria joga. Foi jogada. Na raiva do ontem estende-se o delírio do hoje. Engendra, desfaz, corta, compõe e sorri. A fila de anões jaz a seus pés. Anões babados de olhares turvos e génios perdidos. Peões varridos. Maria acaricia as suas criações. E ri, ri diabólica. Maria…
Maria é fêmea. Ondulante lança-se no jogo do homem. Ganha. É forte. Vangloria-se. De face escondida. A outra, a que revela é contida., diria serena. Saber urdir é arte. Maria é artista, não de palavras ou paletas mas de emoções. Maria faz e desfaz vidas. Maria ri, ri, em esgar de vitória
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Maria chega ao topo. Olha , o mundo a seus pés. Ergue o braço e grita. Venci!
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18 outubro, 2008
.Uma sopinha
A neblina húmida da manhã varria o passeio emprestando-lhe o molhado que torna as solas dos sapatos mais escuras. Era uma manhã de Outubro. Daquelas em que o ar fresco espreita nos olhos do dia. Uma correntezinha com uns piquitos de frio percorreu as costas de mulher que ataviada de mala, computador e mais carteira, não deixava muito por adivinhar qual seria a profissão. Era professora. Vestia o cansaço dos dias nas olheiras bem aconchegadas, no macilento do rosto e ainda num cabelo pseudo-penteado. Percorria o passeio junto ao mar, talvez para beber a calma do rio. Do outro lado, o Porto remexia-se na paisagem. Mais meia hora, e, aquela calma feita de nevoeiro e abraçada no cheiro de maresia lá ficaria para trás. Inspira e fustiga o passo. Ainda bem que trouxe estes sapatos, estão um bocadito cambados mas as calças disfarçam. E trincando uma barra de chocolate, um devaneio, senta-se no banco de pedra da marginal. Quer arrecadar o princípio do dia na alma. Inspira.
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Na casita areada de amarelo sujo, pespontada de janelas pequenas e porta velha, Mário pega na mochila saindo pela porta da cozinha que fecha devagar. Cá fora traga o ar molhado que lhe enche os pulmões e preenche o estômago vazio. Dói. A fome dói. Que bom era agora uma molete quentinha mais uma caneca de leite. Engole mais um pedaço de saliva para forrar a fome. Atravessa a rua. Não resiste. Tem que ir até à beira-rio. Ainda tem um tempinho. Enquanto caminha dez réis de gente, corpo miúdo, olhar nervoso e cabelo negro escorrido em guedelhas sem pesponto, Mário pensa como a vida está brava. A mãe, esfalfa-se a trabalhar. Dá horas em casa de duas patroas. Mas, a coisa está má. Não lhe pagam. Não é justo. As Madamas todas de nariz empinado e voz aflautada, sempre ao volante dos seus BMWs ou Audis, todas aperaltadas sem partirem uma unha que seja. A mãe, coitada sempre dobrada ora na limpeza ora na lavagem, ao ferro, e, sabe-se lá que mais. Depois nem um cêntimo. Lá lhe vão dando umas migalhas. Os restos da pouca comida que faziam. Esta gente come pouco É chic. Só os pobres têm fome. Rico não tem. Coisas da vida. Até na barriga há diferença. Injustiça, isso sim. O pai está no desemprego, sempre o conheceu nesta profissão. Foi sempre a mãe. Um dia quando for rico vai dar-lhe tudo. É tão boa a sua mãe. Sorri e a fome parece que se esconde um bocadinho.
Do outro lado o Douro acorda molengão e cinzento. Hoje também não está feliz. Olha-o. Encosta-se ao banco mesmo em frente. Na outra ponta senta-se uma senhora de ar cansado. Ah, já a viu. É isso, é professora lá na escola. Um cheiro doce agride-lhe as narinas. Instintivamente dilata -as. ui! que picada no estômago, foi mesmo do cheiro do bendito chocolate. Olha, lambendo os lábios. Ah, que bem lhe sabia uma dentadinha… devagar, devagarinho entreabre a boca. Os olhos fixam-se quase hipnotizados no pedaço de chocolate. A professora olha-o. Pára de mastigar e pergunta-lhe:
-Já tomaste o pequeno-almoço
-O que é isso?
-Já comeste, bebeste leite ou comeste pão?
-Não. Ontem à noite comi a sopa.
Olha-o. A neblina desceu -lhe aos olhos. Levanta-se, chegando-se a ele, poisa-lhe a mão no braço e diz-lhe:
-Anda daí vamos tomar o pequeno-almoço…
Mário arregala os olhos escuros. Pega na mochila e coloca-se ao seu lado. Conhece-a. Tem cara de boa. Isto tem que se sentir, ter um certo cuidado. É isso, vai com ela. Está seguro.
-Como te chamas?
-Mário, Mário Silva
-Olha Mário vamos aqui já a este cafezito e tu vais beber uma meia de leite e comer pão, está bem?
-Oh, obrigado, mas …. Eu não quero dar trabalho.
-Qual trabalho, qual carapuça. Vais comer e pronto.
Fernanda senta-se na cadeira em frente do pequeno. Mário, com uma mão na chávena e outra no pão despacha, voraz, ambos. Uns bigodes cor de avelã sombreiam-lhe os lábios, A língua espreita aproveitando os restos que se colam. O olhar pisca-lhe entre os goles. Come e bebe de um fôlego, como se o leite ou o pãozinho pudessem ter pernas e fugir. Tem nos olhos o calor do corpo já aconchegado. Nas comissuras dos lábios reina um trejeito alegre. Fernanda sente um arrepio. Estremece. Cruza a perna, alisa maquinalmente os caracóis revoltos e tocando-lhe no braço pergunta-lhe:
-Ouve Mário vives com os teus pais?
-Sim, com eles, com a Ritinha e com a Xanata
-Tens irmãs é isso?
-Sim, a Ritinha e a gata.
-…. ?
-A minha mãe trabalha o dia todo, em casa de duas senhoras. O meu pai está aleijado, muito. Teve um acidente. É ele que vai fazendo alguma coisa lá por casa. E trabalha na madeira. É muito bom. Mas não tem encomendas. Eu logo que saio da escola, vou a correr buscar a Ritinha. Devia vê-la, é tão bonita a minha irmã. E Boazinha. Tem cinco anos.
-E tu? Quantos anos tens?
-Onze! Ando já no sexto ano. E até não sou mau aluno. Há algumas disciplinas que não gosto muito, mas lá tem que ser.
- Olha Mário estão aqui duas sanduíches para comeres ao almoço, mais um pacote de sumo. Agora vamos, que está quase na hora.
-Obrigada, a professora é professora, não é? É muito boa. Sabe ,dantes lá em casa ,não era assim. Havia comida, mas agora o dinheiro que vem, vai para os remédios do pai, para a Ritinha que ainda é pequena. Depois temos que pagar a renda senão põem-nos na rua. É difícil ,e, as Madamas não pagam à minha mãe ,que se mata a trabalhar. Está difícil. Mas não somos os mais pobres. A minha mãe faz a sopa e comemos à noite, e temos casa, e temos água e luz e ainda alguma roupa e sapatos. Não somos os mais pobres. Não somos, não.
-Olhe professora eu posso dar uma sandes ao João, posso?
-Quem é o João, Mário? O teu pai?
- Não professora. É o meu amigo. Ele é pobre. Nem sopa tem. Posso dar-lhe uma sandes não posso?
Um nó, daqueles que cortam o sentir do mundo atravessa-lhe a garganta estendendo-se ao peito que dói de vergonha. A crise de solidão, a aspereza das relações, o egoísmo do mundo abate-se na sua mente. Uma criança, aquela, que ali sentada lhe sorri por entre os bigodes cor de avelã, e lhe diz numa voz doce, sorrindo, que até não é o mais pobre, que tem sopa…e ela sempre tão infeliz…
-Pega lá. Estão aqui mais duas sandes, Mário.
Saem os dois. Lado a lado. Fernanda pestaneja. Não sabe se da neblina da manhã se das gotas da alma. Mário, na sua verdade de criança, mostrou-lhe a chaga do mundo.
Baseado no comentário que a "Menina Marota" gentilmente fez sobre o Sol da Índia.