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| Um dia branco |
Dai-me um dia branco, um mar de beladonaUm dia em que se possa não saber. |
"...És homem, não te esqueças! Só é tua a loucura onde, com lucidez, te reconheças." Miguel Torga
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| Um dia branco |
Dai-me um dia branco, um mar de beladonaUm dia em que se possa não saber. |
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(...) VII
Margarida e a bolsa atiram-se para cima da cama. Que dia! Para a frente e para trás. Aquele corre- corre que a deixa exaurida. Bolas, ainda não comeu nada hoje. É isso tem fome. Mas ir para a cozinha? Não lhe apetece. O frigorífico deve estar vazio. É habitual. Mentalmente pensa em ir às compras. Tem mesmo que ir, não é este fim-de-semana que a filha vem? É isso. A Inês já é quase adulta não a preocupa. Ela mesmo irá às compras, aliás tem jeito para isso. Tem tanto que fazer, tem uma vida tão ocupada. Gosta muito das filhas, no entanto reconhece que não tem tempo nem predisposição. Não é má mãe, não é nada disso, é apenas diferente. Gosta de estar com elas, de as levar aqui e ali, de conversar, mas daquele papel predefinido de mater familias, não lhe assenta nadinha, e detesta-o absolutamente. Aliás, a sua índole é por natureza belígera com as normas. Depois, ama por demais as suas outras filhas, as suas telas, que vai parindo no rebentar das cores sob o traço do desejo conquistado em arte.
Vai telefonar e mandar vir uma pizza. Bolas, sempre pizza ou comida chinesa. Já está a ficar farta. A cozinha é sítio que não a inspira aliás antes a irrita. Tempo perdido. Comida não é coisa que a seduza. Come para estar de pé. O alimento do seu corpo acha-se espírito e esse nutre-se de coisas bem mais importantes. Mas hoje tem fome, também só bebeu dois galões e meia torrada todo o dia. E ontem? Não se lembra, porém não deveria ter sido muito mais. E se tomasse um bom duche, se arranjasse, fosse buscar a filha e rumasse a casa dos pais? Era uma hipótese. Inês ficaria deliciada e ela de certa maneira, também. Mas só o esforço de ter que cumprir as regras, já lhe apertava ainda mais o estômago já de si vazio. Da última vez que lá fora saíra azeda com o pai. Era tão monolítico. Era suposto pai e filha darem-se bem mas nunca o conseguira. Não sabia a quem saía assim tão contestatária. Simplesmente havia coisas que a faziam passar-se. Depois, nunca conseguira apreciar nem ter aquele tipo de vida arrumadinha dos pais , dos irmãos mais velhos. Aquilo fazia-lhe uma certa brotoeja. Gostava de viver de acordo com o momento. Ria quando lhe apetecia, gritava ou resmungava quando lhe dava na gana. Comia se lhe apetecia. Dormia de dia ou trabalhava de noite se lhe dava na gana. Não se enquadrava nos padrões. Amava quando sentia vontade e descansava quando o corpo lhe pedia também. António fora o seu primeiro amor. Tão primeiro, que Inês nascera tinha ela dezassete anos. Uma tragédia na família! Lá se tinham casado porque o pai quase a excomungara. O certo é, que quando se casou já não lhe apetecia viver, com o então marido. Já estava farta. Aguentou durante cinco anos. Depois, um dia pegou na mala e desapareceu. Deixou a filha com o pai. Separaram-se, divorciaram-se. Uma paz. Inês ficou com o pai, a ex-sogra criou-a, e diga-se, fez um bom trabalho. Tinha vinte e cinco anos quando acabou o curso e foi estagiar para Itália.
Claro que se apaixonou. Foi assim un coup de foudre. Assim um sentir inexplicável que a fazia tremer e lhe confundia os dias. A ânsia de estar com Gianni era tão sublime que só passados dois meses é que começou a conhecer a rua de onde vivia e um pouco da cidade que a albergava. Aquele devorar de tempo e carnes que a deixava fisicamente exaurida mas plena de tudo, continuou infindável. O calor daquele labareda despida de som era tão forte, que lhe consumiu o ser sem disso se apercebesse. Foi inexplicável Explicar o sublime é criar arte. Não encontrava palavras para trasladar os seus sentidos. As mãos, por então perderam-se um pouco vazias de traços, a vista deixou de albergar o desejo de criação, porém procriou no ventre incandescência desse sentir. E Pia nasceu. Amou-a de tal forma que até doeu. E pensou em Inês e sentiu-se apócrifa. Logo, porém, justificou que Pia era filha do amor desejado e Inês acontecera. Era diferente. Depois Pia era uns dez réis de gente que a envolvia em sedutores sorrisos. Era linda a sua pequenina. Gianni e Margarida viveram, amaram-se devoraram-se e esgotaram-se. Tanto que se detestaram. Em permeio Pia crescia. Decidiram em separar-se simplesmente. Gianni foi irredutível,” La bambina resta Qui.”. E assim fora. Duas vezes por ano, vinha Pia a Portugal, e ela uma vez a Itália. Pia ía nos doze e Inês nos dezassete. Davam-se bem as duas. Havia em Inês um sentido maternal para com a irmã que a deixava perplexa. Eram muito diferentes. Inês era sóbria, muito arguta, inteligente mesmo, trabalhadora, ordenada e humana. Fisicamente era esguia, talvez em excesso, loira, pele clara e possuía uns olhos muito expressivos. Pia era uma sedutora nata. Quase de certeza que seria uma beleza, a malandra sabia-o, e já jogava com isso. Era uma jovenzinha muito envolvente.
Duas maternidades, um casamento e uma paixão tinham-lhe dado uma força criadora inesgotável. Bebia, ainda, os sentires passados que tornava presentes. Depois o mundo em redor continuava vivo, em cada virar de esquina, e ela sorvia-o ansiosamente. Um olhar, um gesto, um esgar, um grito, uma vida, um quebranto tornavam-se retratos vivos e pungentes sob os pincéis de Margarida. Era bem recebida a sua arte. Tinha já nome. Vivia dela.
Hoje mantinha relações esporádicas de acordo com as suas necessidades ou simples vontade. Não se envolvia para além do momento. Gostava da sua solidão, dava-lhe a independência de pensamentos e movimentos. Preferia assim a vida. A raiz do seu ser era profunda, aprumada bebia o húmus da terra negra e húmida. Os dias nem sempre eram doces ou dourados, havia-os muitos negros, cinzentos, ou simplesmente doridos. Nada era como devia ser. O hoje é um crepúsculo varrido de intenções, o amanhã será a neblina do ontem.
Levanta-se, descalça vai até ao espelho que veste a parede em frente. Requebra o corpo, lança um olhar enviesado avaliando o que vê. Não está nada mal, pelo contrário, está até muito bem. Um toque nas sobrancelhas, o cabelo lavado, vestir-se sobriamente, e ficará irrepreensível. Gira sobre si. Vai até ao armário. Escolhe umas calças, não desta vez não serão jeans, apetece-lhe mudar, uma camisa. Depois as sandálias. Dirige-se para a casa de banho. Despe-se e entra no poliban. A água quente cai-lhe nos ombros e resvala pelo corpo. Solta-se. Ensaboa-se lenta e meticulosamente num acto coquette ainda não esquecido. Depois sai e enrola-se no toalhão felpudo e vermelho. A cor transmite-lhe energia. Hidrata corpo e o rosto, só então se veste. Cada movimento é calmo e preciso.
Maquilha-se ligeiramente. Pega na bolsa. Mentalmente recorda-se que tem que ir ao multibanco próximo. Sai, desce o elevador e entra no carro que está estacionado na garagem. Arranca. Pouco depois entra no cabeleireiro.
Quando sai, o dia arruma-se na linha do horizonte. Sempre vai buscar Inês, de seguida para casa dos pais. Vai ser um fim-de-semana diferente. Costumeiro, diz-se, mas para ela, invulgar.
-Olá Mãe! Chegaste a horas!
Entra no carro e dá-lhe um beijo.
-Uauu! Vais a algum sítio? Tens alguma reunião?
-Olá Inês? Tudo bem? Vamos para os avós este fim-de-semana.
-Boa! Tenho tantas saudinhas do Vô e da Vó. Olha, ontem tive na Net a conversar com a Pia. Ela e o Gianni vêm cá, porquê não sei. Mas na próxima semana tens cá tua filha. Já sabias?
-Não. Minha filha e tua irmã… E tu ,como estás, a escola como vai? E o teu pai e a Ivone e o teu irmão?
-Tudo bem. Tenho exames daqui a duas semanas, bem tenho que lhe dar. O pai está bem e a Ivone também, já sabes. O Gonçalo é que também anda às voltas com os testes. Final do ano. Já sabes como é, ou não sabes?
-Mais ou menos. Parece-me uma eternidade, o tempo passado.
-Pois. É assim. Olha, telefonaste à Vó Luísa a dizer que íamos? É que da última vez o Vô Alberto estava danado, já sabes como é. Telefonaste?
-Claro Inês.
-Tá bem, ainda bem. Mas não disseste ainda onde foste toda assim, “toda triques à beirinha”…
-Não fui a lado nenhum, aliás vou. Vou a casa dos teus avós, meus pais por sinal.
-Tá, mãe não te chateies. Não é habito vestires-te assim, por isso perguntei. Tudo bem.
- A tua avó pareceu-me em baixo. Oxalá não esteja doente.
- Vais ver que não. É da idade. A avó Susana também tem dias assim e no entanto continua rija.
- Espero bem que sim. Mudando de assunto como vão as aulas de música? Não te tenho ouvido dizer nada.
-Vão indo. Já te disse que nunca vou ver uma virtuosa. Gosto de música mas não é a minha vida e já o sabes. Isso é para a Pia.
- Está bem Inês. Vocês são muito diferentes. Lá isso são.
-Pudera os pais também são bem diferentes, não é por nada, mas eu prefiro mesmo o meu.
-É natural, não é?
-Será, mãe?
-Deve ser. O teu pai é um ser humano excepcional. Reconheço-o. Não funcionou para mim porque é metódico, analítico e quase despido de frémito. Excessivamente lógico e estruturado. Sabes, Inês, vivo na dimensão do instinto, sou repentista, ajo sob paixão. Penso com o órgão, faço asneira, caio, levanto-me. Mas trinco cada momento quase até ao caroço, por vezes mesmo o caroço, que me sai bichado. Coisas da vida. Tu tiveste a sorte de ter um pai excelente e uma mãe avoada. Um dia vais perceber que afinal és mais rica que os outros… mas só um dia.
-Hoje, tás esquisita. Apaixonaste-te outra vez? Hum… deve ser isso. Palpita-me.
-Ah, ah, ah! Nada disso, minha querida. Nada disso. Vejo que ainda não é tempo. Mais tarde talvez. Olha, estamos quase a chegar.
O jardim do Príncipe Real senta-se ali mesmo no girar do redondo. As velhas árvores adejam as folhas no soprar da brisa do fim de tarde. Nos bancos sentam-se velhos, cujo olhar se perde por entre quadrados de tempo vítreo, tal como as pupilas que o recolhem. Nas mãos trémulas, descarnadas e venosas escorre-se-lhes o resto de vida. Vêm ali consolar o olhar já que o corpo teima em pesar. Sentam-se, olham, conversam, murmuram ou sibilam. Pegam na bengala, ou trôpegos mais desafiantes, voltam a recuar no caminho. São assim os dias. Crianças, não há. A cidade fecha-se cada vez mais na idade do tempo gasto, e despreza os dias de amanhã. A velha rua de janelas altas e varandas floridas surge ao olhar de ambas. Ora aqui está. Buzina e o portão abre-se. Entra.
-Olha olha, o teu tio Pedro está cá….
-Boa. Há tanto tempo que não o vejo
-Cheira-me a coisa, Inês. Vamos ver…
Luísa na escada sorri-lhes. Abre os braços como se o sentir lhe saísse do coração direitinho par a filha e neta e diz:
-Até que enfim, minhas queridas!

Porque estamos no Santo António, e porque amanhã faz cento e vinte anos que nasceu Fernando Pessoa,![[316657_8-1.jpg]](https://blogger.googleusercontent.com/img/b/R29vZ2xl/AVvXsEhf-DQ2g9-lsbE6VSxj6KGCnvb1bDyFVwh-P81tafLvyzTqGiUsge2ucLaMj2T3i8lJ7dQDt8L4sDuxKbp_2eJrGWNccrK4msm7afGaR790gj6hWUQMxpvWKzYqYeI5eqW2P7FXu-e8yoU/s1600/316657_8-1.jpg)

(…)
O Tejo espreguiça-se morno lá em baixo. As águas semi-onduladas lavam o resto da manhã. O sol borda o céu de luz, e há aquele espelho luminoso que reflecte o mar, mais o outro azul, na parede do dia. Mais lá no alto, os telhados captam a quentura da cidade. Descem pelas ruas passos miúdos de gentes apressadas e chia no empedrado o rolar dos velhos eléctricos. Floreiras aqui e além por entre velhas casas de varandas torneadas que o tempo tornou cinzentas dão o toque único à sua cidade. Pedro respira aquele ar marítimo pontilhado de luz com vómitos cinzentos de fumo. É Lisboa, a sua terra. Captar a sua essência é quase como agarrar o significado da vida. Sabe que existe, que se espalha em cada momento tal como a cidade se desdobra em cada esquina. Linhas paralelas de ser e estar. Olha, uma vez mais, o rio, buscando na sua languidez a calma interior que tanto necessita. Abarca com o olhar a paisagem, depois deixa o estirador, veste o casaco, pega nas chaves e sai. Cá fora suspira e inspira. Entra no carro e toma a direcção do Príncipe Real. É ali quer os pais vivem na velha Rua do Jasmim na velha casa de varandas estreitas e janelas longas, onde o sol depois de ter rebolado pelos telhados vermelhos se vem anichar na janela defronte. Os gerânios sempre vermelhos, memória indissolúvel da sua infância, adornavam o reflexo que o acordava todas as manhãs, ora vestidos de brisa ora despidos e molhados. Os tectos altos, as tábuas estreitas e corridas lembravam-lhe o cheiro da cera mais dos bibes. Nas traseiras fica o quintal, hoje prosaicamente chamado de jardim. Na altura, ele e o irmão tinham-no transformado na mais fantástica selva. A imaginação vestia-os de personagens de Salgari, de piratas, de exploradores, de tarzans e tantos outros. Era, apenas e somente, o rio líquido do faz-de-conta. Uma infância feliz, não fora o pai sempre austero e quase amargo. Nunca fora pródigo em afectos nem sorrisos. Exigente todavia indiferente, colérico mas glacial. Um a figura de contradições igual a si mesmo. Do sorriso à sanha era obra de um trejeito. Ainda recorda o medo que se apossava dele quando o pai o chamava. Hoje, pese o tempo estiolado consegue compreendê-lo e amá-lo melhor, mas o corredor que ambos percorrem tem tempos muito diferentes. Seu pai precipita-se inexoravelmente para o fim e ele está no meio de um percurso num sentido diverso.
…………………….
Debruçado sobre a secretária de madeira já bichada de velha, assente sobre um chão de tábuas desbotadas e cinzentas de pó varrido, Lacerda escreve aplicadamente o Deve e Haver da Companhia de Algodão. Os óculos descansam-lhe na ponta do nariz afilado, o rosto está vazio como se a monotonia do serviço lhe roubasse qualquer expressão A cor é pardacenta, amarela e desviada, igual à sala onde se senta. Tudo é mofado, velho e decrépito. A fronte generosa encolhe-se perante o ritmo rabiscado do aparo arranhando o papel grosso em tinta violeta. É um homem ainda jovem. Cabeça farta de cabelos claros puxados atrás no óleo da brilhantina. A camisa branca descansa sob uns suspensórios perdidos no excesso de pano. Entre os cotovelos e os pulsos, vestem-no os manguitos já rasos do coçar da mesa. O olhar, quando erguido é opaco de monótono como se algures o tempo tivesse parado, surge entre círculos azulados de sono e de sonhos desfeitos. Os ombros estão descaídos num abater de comiseração. Nota-se a magreza do corpo longo. Flagela-se no dever da escrita dos números, na dança a dois tempos do comprou e vendeu. Filas alinhadas de desatino. Lacerda herói de noitadas perdidas e de mulheres já gastas. Sente-se feliz no cesto das artes cénicas, na discussão prosódica da palavra e entre os amigos que como ele comungam das mesmas Graças. Católico convicto mais de dogmas do que de actos, recatado nos gestos, solitário de ternuras, misantropo de sorrisos, orador solto entre amigos, senhor de nariz altivo perante os ignorantes, sorridente entre os ilustrados, cáustico no retorquir, sibilino no argumentar mas jovial no derriço são as características do óleo que lhe fazem o retrato.
É terça-feira, de um mês qualquer, num ano já ido. O nosso herói olha para o relógio redondo e amarelado e reflecte nas horas marcadas. Já falta pouco para acabar. Lentamente poisa a caneta de aparo estridente, confere a escrita, passa-lhe o mata-borrão cor-de-rosa já vomitado de azul, fecha o livro comprido de capa negra, tira os manguitos que cuidadosamente coloca na gaveta meio aberta, bate os pés calçados em botina pretas já gastas mas muito bem polidas, a enganar os tempos, arrasta a cadeira no soalho despido, levanta-se, sacode poeiras perdidas nas calças vincadas. Vai ao bengaleiro e retira o casaco que veste, ajeita o nó da gravata, alisa o cabelo num gesto perdido e murmura um até amanhã. Cá fora, o dia já vestiu o capote, e pôs o chapéu preparando-se para a noite que lhe dá o braço. Alberto Lacerda respira fundo. O ar húmido do mês das castanhas dá-lhe as boas noites, pingado de gotículas escondidas sopradas na onda de vento cantado. Curva-se, enfrenta-o, e dirige-se para o café da praça. Lá estão os amigos. Uma conversa, saber das últimas da cidade e da política, um desentorpecer mental, de ideias libertas em palavras, é isto que lhe faz suportar o cinzento dos dias, do amarelado do escritório e da pobreza envergonhada da vida. Alberto filho de gentes educadas mas de bolsos vazios, desde pequeno que soubera sempre o que era tapar, esconder e sorrir ao pouco, poucochinho, ao quase nada. Na escola primária, a bata sempre tapara os calções puídos, a camisa já passajada, a camisola de cores diferentes, acrescentos que os ossos iam pedindo, e que as agulhas iam tecendo esquecidas da cor primeira. Depois fora crescendo, muito em altura e quase nada em largura. A mesa também não o permitiu. Tudo muito frugal tocando quase sempre a raia da fome. Não o era, porque havia pão e sopa. Mas pouco mais. Também não se falava nisso porque a vergonha estava sempre lá. Sabia-se que era pobreza mas não se ousava dizê-lo porque afinal tinham casa, alguma roupa, uns ordenadinhos e eram educados. A dita cuja, era só para quem pedia, era rude de espírito e roto de bolso. Os outros eram remediados, como se o saber enchesse as barrigas, cobrisse os corpos e alimentasse os seres. E foi neste credo perdido de sabores de substância que ele se foi tornando um quase “vermelho” como chamavam ao grupo de” rapazes “ a que pertencia. Tinha orgulho em sê-lo, a sua razão animal dizia-lhe que a vida que sempre tivera era medíocre, o seu intelecto segredava-lhe ideias de partilha e melhores dias para todos os homens. Cinco rostos ébrios de ideais tingem-se de cor, e de suor, á medida que se empolgam na discussão da “situação”. As vozes de início sussurradas elevam-se desprotegidas de si, e espalham-se por entre as paredes tal como os rolos de fumo que se alteiam, esbatendo-se finalmente no vazio do tecto. As mãos gesticulam breves, desenhando arabescos no espaço como se tentassem exprimir para além das palavras, os sons da luta em ímpetos de movimento. Sobre a mesa pouco mais de que duas chávenas vazias de café, copos de água e um cinzeiro atulhado de beatas. A cinza cujo cheiro se avilta nas narinas parece ser o pó das quimeras esmagadas entre a realidade do hoje e o hipotético do amanhã. Alberto, de soslaio, olha o relógio e maquinalmente ergue a gola, afasta a cadeira e levanta-se. Despede-se com um até logo e sai para o velho jardim. Cruza-o com os passos largos e elásticos. Sente pequenas gotas de água no rosto que lhe lavam os pensamentos ainda incandescentes, as brasas ainda crepitam enchendo-lhe os sentidos de seiva quente. Chega a casa dá um beijo solto na mulher que lhe diz:
- Vens tarde, a sopa já está fria.
- Entretive-me na conversa no café. Vá lá, anda, aquece-a outra vez.
-Sempre a mesma coisa. Os amigos, as conversas. Já deitei o garoto. Estava à tua espera.
-Lá estás tu outra vez, Luísa. Sempre a mesma conversa.
Sentam-se à mesa e em silêncio sorvem a sopa. Os monossílabos arrastam-se na proporção exacta da vontade de comer. Depois vem o peixe frito e o arrozinho de tomate. A fruta termina a refeição. Maria Luísa levanta-se, vai até à cozinha fazer o café. Depois de coado e servido nas chávenas, pega no tabuleiro. Espalha-se o aroma forte e saboroso. Este é momento do dia, quando os dois se sentam e conversam. Aquela beatitude que precede o deitar. A casa descansa e a noite veste-a. Depois há a música. Alberto escuta-a sempre embevecido como se as notas lhe embalassem o desassossego interior. Os pensamentos afluem-lhe em catadupa. A infância,
Tal como o empedrado se amacia com o tempo também Alberto lenificou o carácter. A vida, as mudanças, o rol de alegrias e desgostos, tudo em suma o tornaram no homem mais complacente de hoje. Embora os picos de revolta pontilhem aqui e ali que mais não seja pela insatisfação do país, Alberto é um homem tranquilo.
Junto a Maria Luísa, ambos de avental preparam o almoço para os três. Pedro virá almoçar. Diz-lhes a experiência que sempre que o filho mais velho telefona para vir almoçar há novidade no ar. E desta vez não vai ser diferente. O bacalhau já está no forno. A mesa cá fora no jardim, está posta. Deve estar a rebentar. A campainha soa. Ei-lo.
Estugando o passo à medida da chiadeira dos ossos, lá vai ele de sorriso franco abrir a porta.
-Bom dia Pai.
-Bom dia filho.