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Alguém que ama a vida e odeia as injustiças

07 junho, 2015

Amar



AMAR

Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

de, pergunto, o ser amoroso,
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,

Que pode o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta, distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade

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17 maio, 2015


A Tirania do Medo

O nosso mundo vive demasiado sob a tirania do medo e insistir em mostrar-lhe os perigos que o ameaçam só pode conduzi-lo à apatia da desesperança. O contrário é que é preciso: criar motivos racionais de esperança, razões positivas de viver. Precisamos mais de sentimentos afirmativos do que de negativos. Se os afirmativos tomarem toda a amplitude que justifique um exame estritamente objectivo da nossa situação, os negativos desagregar-se-ão, perdendo a sua razão de ser. Mas se insistirmos em demasia nos negativos, nunca sairemos do desespero.

Bertrand Russell, in 'A Última Oportunidade do Homem'

15 maio, 2015

Não sei...



Não sei…
Não sei…
Se é a vida, se é o tempo, que me traz assim…
Inquieta no desassossego das horas,
Asfixiada na brevidade dos passos,
Perdida nos sentidos do corpo,
Não sei…
Se é a vida, se o tempo que me dói assim…
Se é a borrasca dos desenganos, se dos prantos possuídos
Se das mágoas acantonadas, se dos sulcos cravados
Na estatuária ainda quente de um corpo nu de utopias,
Não sei…
Se é o vento enrolado que me varre assim,
Que me crispa a alma, que me vidra os olhos, que me saliva o hálito
Escarrando-se em ululos de riso,

Perverso andante!
Não sei…
Se é o que de mim vem, vai ou foi,
Se sou apenas eu, somente eu, que não sei
Respirar, tragar, mastigar e amassar
O espírito levedado dos anos,

Não sei…
Se vivo na esquina das horas,
Essas que são sombreadas de dias quentes
Ou se respiro nas outras
Nas sombrias de minutos ocultos.
Não sei…Sei sim que vivo aqui, deste lado
Onde a imaginação voa e a verdade vai nascer… um dia!
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11 maio, 2015

O Homem Cruel


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O Homem Cruel
Quando o rico ti­ra um pertence ao pobre (por exemplo, um príncipe que tira a amante ao plebeu), então gera-se um erro no pobre; este acha que aquele tem de ser absoluta­mente infame, para lhe tirar o pouco que ele tem. Mas aquele não sente de modo algum tão profunda­mente o valor de um único pertence, porque está ha­bituado a ter muitos: portanto, não se pode trans­por para o espírito do pobre e não comete tal uma injustiça tão grande como este julga. Ambos têm um do outro uma concepção errada. A injustiça do poderoso, a que mais indigna na História, não é as­sim tão grande como parece. O mero sentimento hereditário de ser um ser superior, com direitos su­periores, torna uma pessoa bastante fria e deixa-lhe a consciência tranquila: até todos nós, se a distância entre nós e um outro ente for muito grande, já não sentimos absolutamente nada de injusto e matamos um mosquito, por exemplo, sem qualquer remorso.
Assim, não é sinal de maldade em Xerxes (a quem mesmo todos os Gregos descrevem como eminente­mente nobre) quando ele tira a um pai o seu filho e o manda esquartejar, porque este havia manifestado uma inquieta e ominosa desconfiança em relação a toda a expedição militar: neste caso, o indivíduo é eliminado como um insecto desagradável, ele está demasiado baixo para poder provocar por mais tempo sentimentos importunos num soberano uni­vsal. Sim, nenhum homem cruel é cruel na medi­da em que o maltratado julga; a sua noção da dor não é a mesma que o sofrimento deste. Passa-se o mesmo com o juiz injusto, com o jornalista que, com pequenas desonestidades, desorienta a opinião pública. Causa e efeito estão, em todos estes casos, rodeados por grupos de sentimentos e de pensamen­tos diferentes; enquanto que, involuntariamente, se pressupõe que réu e queixoso pensam e sentem da mesma maneira e, em conformidade com esse pres­suposto, se mede a culpa de um pelo sofrimento do outro.

Friedrich Nietzsche, in 'Humano, Demasiado Humano'

03 maio, 2015

 

 Poema à Mãe

No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe

Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos.

Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais.

Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.

Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura.

Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos.

Mas tu esqueceste muita coisa;
esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!

Olha — queres ouvir-me? —
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;

ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;

ainda oiço a tua voz:
          Era uma vez uma princesa
          no meio de um laranjal...

Mas — tu sabes — a noite é enorme,
e todo o meu corpo cresceu.
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber,

Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas.

Boa noite. Eu vou com as aves.

Eugénio de Andrade,. .

26 abril, 2015




O Poema

O poema não é o canto
que do grilo para a rosa cresce.
O poema é o grilo
é a rosa
e é aquilo que cresce. 

É o pensamento que exclui
uma determinação
na fonte donde ele flui
e naquilo que descreve.
O poema é o que no homem
para lá do homem se atreve. 

Os acontecimentos são pedras
e a poesia transcendê-las
na já longínqua noção
de descrevê-las.

E essa própria noção é só
uma saudade que se desvanece
na poesia. Pura intenção
de cantar o que não conhece. 

 
em "Poemas (1955)" Natália Correia
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07 abril, 2015

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Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...

O Mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

Eu não tenho filosofia; tenho sentidos...
Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,
Mas porque a amo, e amo-a por isso
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar...


Fernando Pessoa
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28 novembro, 2014


. .As Uvas
 
Que me não fujam as rosas
murchando co'a Primavera:
gosto das uvas em cachos
maduros ao sol da encosta —
glória deste meu val',
pendendo em brilho de pérolas,
prazer do Outono dourado:
oblongas e transparentes
como dedos de donzela.


Pushkin

A Rosa de Hiroxima

Pensem nas crianças
Mudas telepáticas
Pensem nas meninas
Cegas inexatas
Pensem nas mulheres
Rotas alteradas
Pensem nas feridas
Como rosas cálidas
Mas oh não se esqueçam
Da rosa da rosa
Da rosa de Hiroxima
A rosa hereditária
A rosa radioativa
Estúpida e inválida.
A rosa com cirrose
A antirrosa atômica
Sem cor sem perfume
Sem rosa sem nada.
. Vinicius de Morais

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14 novembro, 2014



Uma névoa de Outono o ar raro vela, (5-11-1932)

Uma névoa de Outono o ar raro vela,
Cores de meia-cor pairam no céu.
O que indistintamente se revela,
Árvores, casas, montes, nada é meu.

Sim, vejo-o, e pela vista sou seu dono.
Sim, sinto-o eu pelo coração, o como.
Mas entre mim e ver há um grande sono.
De sentir é só a janela a que eu assomo.

Amanhã, se estiver um dia igual,
Mas se for outro, porque é amanhã,
Terei outra verdade, universal,
E será como esta [...]

Fernando Pessoa
. .Gerês (Terras de Bouro) Nov.2014

11 novembro, 2014

 
"Os governos são para fazer bem com o pão próprio, e não para acrescentar os bens com o pão alheio."  Vieira , António

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25 setembro, 2014

Outono-Estados de Alma




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Outono-Estados de Alma

Em Setembro, setembro-me. Em cada outono quando a brisa suspira de norte, quando os primeiros pingos redondos lacrimejam a terra, setembro-me. Há no ar, um não sei quê, um encanto seja de tons, seja de aragens que tornam a alma mais fluída de quereres. Então Setembro-me.
Há no outono as lágrimas primaveris, os doirados das espigas, os orvalhos húmidos de inverno, os vermelhos rosados das folhas, a nudez envergonhada do estio, do sol, da luz, do dia.A alma e o outono andam de mãos dadas, crianças em rodas dançadas, risos em cristais fragmentados, cores quentes de pinceladas cheias, águas em ,adágios sustenidos, flores em despedidas, suspiros vividos de amor e dor.
Em Setembro, setembro-me. Nos tons ocres e quentes do passado, nos amarelos do presente, e talvez nos dourados do futuro breve. Setembro-me nas recordações, na vida que vivi e ainda na que deixei deslizar aqui e ali, setembro-me nos desejos corpóreos do ser e do estar, setembro-me nas minhas ilusões quentes, mornas ou quiçá frias, setembro-me no gesto vivo ou exangue, setembro-me nas entranhas da terra, do mar e do ar, setembro-me na minha alma vivida. Setembro-me engolindo e rebolando a iris quente, profana, gulosa do mundo, setembro-me porque ainda vivo Setembro não é melodia interrompida, nem tão pouco prelúdio de estação. Setembro é concha rosada de sons puros, da natureza em reflexo, do Ser em paz.
Setembro é terra em remanso, é ar translúcido, é luz doce, é fruto maduro, é bago doce, é seiva, fruto e colheita.
Sonata de outono quente em tocata de alma.

14 setembro, 2014

And the waltz goes on - Andre Rieu/ Anthony Hopkins



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A música começa onde acaba a fala." Hoffmann , Ernst


22 agosto, 2014


. ."A natureza está constantemente a misturar-se com a arte."

13 agosto, 2014

Maresia

Atlântico
       Mar
Metade da minha alma é feita de maresia

(Sophia de Mello Breyner Andresen)








11 julho, 2014

"Sogno" Andrea Bocelli



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"Há quem diga que são os sonhos dos homens que sustentam o mundo na sua órbita." Carl Gustave Yung