Quem sou eu

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Alguém que ama a vida e odeia as injustiças

04 julho, 2010

Alice



Alice

Alice crua de sonhos vagueia na rua dos sentidos. Percorre-a sem olhar. Sente. Sente apenas. Sente o enrolar das tripas. Sente o fardo das pernas. Sente o suor gotejante. Sente o bafo quente da tarde a enrolar-lhe os sentidos. E o suor que a empapa e, o trago amargo da fome a vomitar-lhe a boca. E a tarde a secar.

A rua, a casa. Traves e tijolos, pó e calçada. Tudo gira. Uma neblina tolda-lhe os olhos. Esfrega-os. O suor teima em cair. As costas das mãos estão molhadas. Passa-as pelos lábios. Sabem a sal. Tem sede.

A língua, a ponta humedece os lábios secos tal como a boca. Só o corpo está húmido. Húmido e melado. Respira com força. Mais um passo aqui, ali, em frente, em frente. O caminho de sempre.

O ar escoa-se por entre as varandas vestidas de roupa. Há sons que se diluem no vento morno. São vagos. Cheiram a dor. Sabem a amargo. Os sons desnudaram-se. A tristeza vestiu-se.

O tempo parou na calçada crua. Alice caminha. Detém-se na porta semi-aberta. Empurra-a. A escuridão de bafo quente envolve-a. Uma voz perdida pergunta:

-Quem é?

-Sou eu, a Alice.

-Estava à tua espera.

-Eu sei, eu vim. Sem nada, mas vim.

-Ah! Para quê, então?

-Trouxe-lhe uma côdea do ontem.

-Ah!


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25 junho, 2010


Somos mais pais do nosso futuro do que filhos do nosso passado.

(Miguel de Unamuno)

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24 maio, 2010

Maio

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Maio

Senta-se diante da tília que se agita suavemente na noite doce de Maio. No ar vibra aquele odor suave das rosas a desenrolarem-se em saias novas. Maio. Um suspiro.

João velho respira o Maio novo. Tremor e brisa. João e Maio. Gente e Tempo. João respira devagar deglutindo o ar doce que a Tília lhe oferece. Sorri fechando os olhos já cansados. O tempo desprende-se. A Tília envolve-o no seu odor. João deixa-se embalar. Suave, suavemente. Chamam-no. É o tempo. O seu que terminou. O de Maio que vibra. João entreabre os lábios e engole o perfume. Olha em frente, para além da Tília, na curva do tempo onde o mundo nasce de um lado, e morre do outro. É ali que tudo acaba. Sem alarde, embrulhado na doçura de Maio, João parte. Assim serenamente.

Alguém que passou reparou numa tília que chorava ao lado de um velho que olhava sem ver.

Achou estranho mas não parou.

Amanhã era Junho.


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23 maio, 2010



As palavras

São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.

Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.

Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.

Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?


Eugénio de Andrade

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16 maio, 2010

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Ma bohème

Je m'en allais, les poings dans mes poches crevées ;
Mon paletot aussi devenait idéal ;
J'allais sous le ciel, Muse ! et j'étais ton féal ;
Oh ! là ! là ! que d'amours splendides j'ai rêvées !

Mon unique culotte avait un large trou.
- Petit-Poucet rêveur, j'égrenais dans ma course
Des rimes. Mon auberge était à la Grande-Ourse.
- Mes étoiles au ciel avaient un doux frou-frou

Et je les écoutais, assis au bord des routes,
Ces bons soirs de septembre où je sentais des gouttes
De rosée à mon front, comme un vin de vigueur ;

Où, rimant au milieu des ombres fantastiques,
Comme des lyres, je tirais les élastiques
De mes souliers blessés, un pied près de mon coeur !

Arthur RIMBAUD (1854-1891)


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06 maio, 2010

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O Crepúsculo dos Deuses

Fulge em nuvens, no poente, o Olimpo. O céu delira.
Os deuses rugem. Entre incêndios de ouro e gemas,
Há torrentes de sangue, hecatombes supremas,
Heróis rojando ao chão, troféus ardendo em pira,

Ilíadas, bulcões de gládios e díademas,

Ossa e Pélio tombando, e Zeus em raios de ira,
E Acrópoles em fogo, e Homero erguendo a lira
Em reverberações de batalhas e poemas...

Mas o vento, embocando as bramidoras trompas,

Clangora. Rolam no ar, de roldão, num tumulto,
Os numes e os titãs, varridos à rajada:

E ódio, furor, tropel, fastígio, glória, pompas,

Chamas, o Olimpo, - tudo esbate-se, sepulto
Em cinza, em crepe, em fumo, em sonho, em noite, em nada.
Olavo Bilac

24 abril, 2010



T o u r a d a

...Não importa sol ou sombra
camarotes ou barreiras
toureamos ombro a ombro
as feras.
Ninguém nos leva ao engano
toureamos mano a mano
só nos podem causar dano
espera.

Entram guizos chocas e capotes

e mantilhas pretas
entram espadas chifres e derrotes
e alguns poetas
entram bravos cravos e dichotes
porque tudo o mais
são tretas.

Entram vacas depois dos forcados

que não pegam nada.
Soam brados e olés dos nabos
que não pagam nada
e só ficam os peões de brega
cuja profissão
não pega.

Com bandarilhas de esperança

afugentamos a fera
estamos na praça
da Primavera.

Nós vamos pegar o mundo

pelos cornos da desgraça
e fazermos da tristeza
graça.

Entram velhas doidas e turistas

entram excursões
entram benefícios e cronistas
entram aldrabões
entram marialvas e coristas
entram galifões
de crista.

Entram cavaleiros à garupa

do seu heroísmo
entra aquela música maluca
do passodoblismo
entra a aficionada e a caduca
mais o snobismo
e cismo...

Entram empresários moralistas

entram frustrações
entram antiquários e fadistas
e contradições
e entra muito dólar muita gente
que dá lucro as milhões.

E diz o inteligente

que acabaram asa canções.

ARY DOS SANTOS

Soneto- Ary dos Santos









Soneto
Fecham-se os dedos donde corre a esperança,
Toldam-se os olhos donde corre a vida.
Porquê esperar, porquê, se não se alcança
Mais do que a angústia que nos é devida?

Antes aproveitar a nossa herança
De intenções e palavras proibidas.
Antes rirmos do anjo, cuja lança
Nos expulsa da terra prometida.

Antes sofrer a raiva e o sarcasmo,
Antes o olhar que peca, a mão que rouba,
O gesto que estrangula, a voz que grita.

Antes viver do que morrer no pasmo
Do nada que nos surge e nos devora,
Do monstro que inventámos e nos fita.
João Carlos Ary dos Santos

17 abril, 2010

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"Quando trabalhamos só com mira nos bens materiais, construímos nós próprios a nossa prisão. Encarceramo-nos, sozinhos com as nossas moedas de cinza, que não compram nada que valha a pena viver."
(Saint-Exupéry, Terra dos Homens)
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03 abril, 2010





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Poema da flor proibida

Por detrás de cada flor
há um homem de chapéu de coco e sobrolho carregado.

Podia estar à frente ou estar ao lado,
mas não, está colocado
exactamente por detrás da flor.
Também não está escondido nem dissimulado,
está dignamente especado
por detrás da flor.

Abro as narinas para respirar
o perfume da flor,
não de repente
(é claro) mas devagar,
a pouco e pouco,
com os olhos postos no chapéu de coco.

Ele ama-me. Defende-me com os seus carinhos,
protege-me com o seu amor.
Ele sabe que a flor pode ter espinhos,
ou tem mesmo,
ou já teve,
ou pode vir a ter,
e fica triste se me vê sofrer.

Transmito um pensamento à flor
sem mover a cabeça e sem a olhar.
De repente,
como um cão cínico arreganho o dente
e engulo-a sem mastigar.

António Gedeão


Desejo a todos uma Feliz Páscoa

15 março, 2010

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Se houvesse degraus na terra...

Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.

Herberto Helder

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09 março, 2010

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Albert Camus.

""

"Tout refus de communiquer est une tentative de communication ; tout geste d'indifférence ou d'hostilité est appel "


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21 fevereiro, 2010




Três coisas devem ser feitas por um juiz: ouvir atentamente, considerar sobriamente e decidir imparcialmente.
(Sokrates)

12 fevereiro, 2010

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Elegia a uma pequena borboleta


Como chegavas do casulo,
— inacabada seda viva —
tuas antenas — fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia,

como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas,

minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
e é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, sua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
expiras sem noção nenhuma.

Ó bordado do véu do dia,
transparente anémona aérea!
não leves meu rosto contigo:
leva o pranto que te celebra,
no olho precário em que te acabas,
meu remorso ajoelhado leva!

Choro a tua forma violada,
miraculosa, alva, divina,
criatura de pólen, de aragem,
diáfana pétala da vida!
Choro ter pesado em teu corpo
que no estame não pesaria.

Choro esta humana insuficiência:
— a confusão dos nossos olhos
— o selvagem peso do gesto,
— cegueira — ignorância — remotos
instintos súbitos — violências
que o sonho e a graça prostram mortos

Pudesse a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente
ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava!

E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
— os espelhos que reflectissem
— vôo e silêncio — os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!

Cecília Meireles

31 janeiro, 2010

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Sal da Língua


Escuta, escuta: tenho ainda

Não é importante, eu sei, não vai

salvar o mundo, não mudará

a vida de ninguém - mas quem

é hoje capaz de salvar o mundo

ou apenas mudar o sentido

da vida de alguém?

Escuta-me, não te demoro.

É coisa pouca, como a chuvinha

que vem vindo devagar.

São três, quatro palavras, pouco

mais. Palavras que te quero confiar,

para que não se extinga o seu lume,

o seu lume breve.

Palavras que muito amei,

que talvez ame ainda.

Elas são a casa, o sal da língua.

Eugénio de Andrade
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27 janeiro, 2010

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O mar é longe,mas somos nós o vento;

O mar é longe,mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira,até ser ele,
é doutro e mesmo,é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás,que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos,dedos ,sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes,fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

Pedro Tamen

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17 janeiro, 2010

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"Ter firmeza de carácter, é havermos sofrido o efeito dos outros sobre nós próprios."

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12 janeiro, 2010

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Fico-me a ouvir....serena e sentidamente.

07 janeiro, 2010

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Fábula da fábula

Era uma vez
Uma fábula famosa,
Alimentícia
E moralizadora,
Que, em verso e prosa,
Toda gente
Inteligente,
Prudente
E sabedora
Repetia
Aos filhos,
Aos netos
E aos bisnetos.
À base duns insectos,
De que não vale a pena fixar o nome,
A fábula garantia
Que quem cantava
Morria
De fome.

E realmente...
Simplesmente,
Enquanto a fábula contava,
Um demónio secreto segredava
Ao ouvido secreto
De cada criatura
Que quem não cantava
Morria de fartura.

Miguel Torga
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03 janeiro, 2010

"A pintura nunca é prosa. É poesia que se escreve com versos de rima plástica."

01 janeiro, 2010

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Com votos de Um Bom Ano!



Creio nos anjos que andam pelo mundo,
Creio na deusa com olhos de diamantes,
Creio em amores lunares com piano ao fundo,
Creio nas lendas, nas fadas, nos atlantes,
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Creio num engenho que falta mais fecundo
De harmonizar as partes dissonantes,
Creio que tudo é eterno num segundo,
Creio num céu futuro que houve dantes,
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Creio nos deuses de um astral mais puro,
Na flor humilde que se encosta ao muro,
Creio na carne que enfeitiça o além,
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Creio no incrível, nas coisas assombrosas,
Na ocupação do mundo pelas rosas,
Creio que o amor tem asas de ouro. Ámen.
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de Natália Correia

in "Sonetos Românticos"

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30 dezembro, 2009

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Agradeço-vos a palavras amigas e sensíveis que ao longo do ano foram escrevendo nas vossas visitas por este azul, desejo-vos, pois, o melhor para 2010.



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14 dezembro, 2009

Um Conto de Natal

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Um Conto de Natal

A laje fria do degrau acolhe-o, deita-se na cama de cartão que restolha o calor dos jornais sempre que se move. São os acordes na noite fria e solitária. Agostinho cofia a barba emaranhada com uma mão trémula, e com a outra, puxa de mansinho o cobertor desbotado mas ainda quente. Oito anos. Oito anos já lá vão. Suspira e humedece os lábios. Enrola-se nos velhos cobertores. Calor de lã em alma nua. A noite vai fria. Dezembro, o mês de todos os meses. Não ri o azul, nem pirilampam as luzes. Dezembro é o último entre todos. Traz escondido nas entranhas o mito da servidão. Ele conhece bem Dezembro. O dos dias apressados. Que se vestem de cor para fingir. Dias encenados chamam-lhes de festa. E já agora, pensa Agostinho, por onde andará a festa? Há oito anos que a espera.

Oito anos.

O tempo é mesmo água. Foge entre as conchas da mão. Só molha, logo escoa. Mancha húmida de vida. Pulsar breve. É isso mesmo, o tempo é água. Suspira. Depois cruza as mãos encarquilhadas de ilusão sob o cobertor de ramagens grenás. Volta-se de lado e cerra as pálpebras.

Uma sirene uiva apressada. E a gente respira no uivo da noite em compasso. Vergastam-se nos passos ao mesmo tempo que respiram entrecortados. O rumo dilui-se no prumo da rotina. São as marionetas do mundo. Alguém sabe lá quem, manipula cordéis dançantes. Dizem chamar-se Deus. Bah, quem será? Desconhece o Sujeito. Agora a gente, essa, ele conhece. São os moldes. Em gesso liso ou pregueado. O molde é a sua realidade. De Deus dizem a sua percepção. Mas os sentidos sentem-se nauseados. É assim que os vê, é assim que os mede. Observa e divaga, os seus companheiros, chamam-lhe Agostinho, o Filósofo.

Por vezes sente-se ufano do título, uma mão cheia de comiseração feliz. Uma ironia! Dirão os mortais comuns, mas ele não é comum é Agostinho Sem-Abrigo- Filósofo. Um pobre rico. Por isso gosta daquele canto, escuro. Ali entre a lã do cobertor e o papelão deitado em folhas de jornal, viaja no carrossel das suas próprias andanças, os altos e baixos da sua mortalidade. Olha para a feira do mundo, sorri condescendente aos seus moldes. E eles sobem, e descem por entre os cavalos, e duendes na viagem da procura. E giram, giram no carrossel. Agostinho vê, Agostinho pensa, Agostinho recolhe-se.

Oito anos.

A cidade dorme a seu lado, a cidade acorda a seus pés. Poder num homem sem glória.

O sono encavalitou-se nos pensamentos e não quer descer. Humedece os lábios secos. Cobre o rosto com o cobertor de ramagens grenás. Escuta o roncar indignado da barriga e sorri. Depois naquela beatitude que o sono provoca embala-se. Mergulha num mundo azul. Sente-se pairar algures entre o céu e a terra. Um silêncio feito de sons vazios. Senta-se displicentemente no outro lado do mundo, expectante, contemplando castelos de algodão estrelados. São belos. Tão belos que os olhos choram. O fardo dos anos e a condição humana despiram-se. Sente-se leve, leve.

Mergulha naquele embalar de vazio. Ali não há tempo nem memórias. Somente o fluir do espaço entre duas mãos de sentidos. Agostinho está leve mas pleno.

A sonolência torna-se a sua realidade. Olha em redor uma vez mais. A imensidão, o espaço fá-lo tremular. Mas quase a seu lado uma figura move-se. Não existem quaisquer espasmos naqueles movimentos. Uma certeza precisa, um controle absoluto. A imponência envolve-a. A figura abre-se e encapa o nosso homem. Agostinho sente o calor que perdera algures numa esquina do tempo. Procura o rosto da figura. Não encontra. Há matéria sem carne. Há vida sem sangue. Há forma plena de vazio. Treme-lhe o corpo, agitam-se-lhe os sentidos. Vê-se na sua posição fetal. Enrolado, temente. A expectativa do esforço invade-o. Tenta esticar os membros, porém uma força impede-o. Retorna à posição primeira. A fetal. A do mundo. A mente flui rebolando-se por entre as escarpas do antes, salta veloz para o presente. Pára antes da porta do futuro. A luz sorri ao momento.

Um amplexo de calor onde os braços se pressentem sem se sentirem. Uma chama, uma onda, um vibrar surpreendente transborda-o. Acorda-o, alenta-o. Sacode a cabeça num movimento forte que rompe tudo Um feixe, um halo e o seu corpo macerado de anos e humilhações desnuda-se. As labaredas vivas ferem-no suavemente. A sua nudez é a sua roupa. A luz perpassou a matéria.

Restolha a alma. Brilham os olhos. Sente o coração. Sente-o crescer. Crescer, redondo, vermelho, forte e belo. Tão belo, tão forte que o cativa. O coração é ele, ou ele é o coração.

Cá em baixo ,o carrossel de luzes continua a rodar. Mais uma volta e outra, e outra ainda. A próxima paragem é já ali na esquina e chama-se Natal.

Então o coração desliza do amplexo e pulsando no seu vermelho sangue, quente e vibrante cai misturando-se entre os homens.

No degrau frio um cobertor de ramagens grenás repousa sentado. Alguém passa, alguém o olha, alguém o colhe.

Amanhã é Natal!

Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade!


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08 dezembro, 2009



Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.


Vinicius de Moraes



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07 dezembro, 2009

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Oxalá pudéssemos meter o espírito de natal em jarros e abrir um jarro em cada mês do ano.

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