Quem sou eu

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Alguém que ama a vida e odeia as injustiças

15 julho, 2008

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Urze e Giesta

(…) IX

Maria Luísa sorri por entre a liquidez que teima em inundar-lhe as pupilas. Sente um nó, não sabe se no peito, se na garganta, crê mesmo que o maldito a comprime toda. Relança o olhar ao filho mais velho e os lábios despregam-se-lhe. Tem vontade de o castigar como se fora ainda o seu menino. Dois açoites apaziguariam a tremedeira que a percorre. Tem a ira a enrolar, a enrolar.

-Bom, o melhor é levantar-me e ir até à cozinha. Os tachos ouvir-me-ão certamente. Assim o pensa, melhor o faz.

Ouve-se um cair de tampas, sons estridentes, rolados, consequentes e subsequentes à manipulação desastrada ou irada da sua dona. A fanfarra desafinada largou-se pelas bandas da cozinha e os pratos batem convulsivos num estertor estrídulo de notas arranhadas em dissonância.

-Ai Pedro, Pedro… E pensar que passava a vida a enaltecer este filho. Afinal é igual aos outros, e ainda por cima diz que está simplesmente cansado. Ai, ai que idiota! Os irmãos pelo menos nunca se taparam com a capa de Santos. A Margarida é mesmo daquele jeito, sem jeito. Mas parece que é feliz. O outro, o Afonso, agora depois de casado e pai, achou que tinha que mudar de género. Enfim. Na verdade estes tempos são demais para mim. Já não atino com todas estas mudanças. E não vale a pena tentar acompanhar, as pernas já estão demasiado cambaias para tantos solavancos.

A cólera passiva que a domina espreita o exterior. É nas facas que lhe escorregam, nos garfos que se estatelam pelo chão, que sente a desforra de um penar, há muito latente nas entranhas. A loiça já está toda metida na máquina, e em vez de se dobrar, como seria normal, é com a ponta do pé que levanta a porta, de seguida o joelho empurra-a, fechando-a. Mais um movimento inusitado nesta mulher quase serena.

-Raios partam esta vida… mas que mal fiz eu para ter uns filhos assim…! Labutei que nem uma moira, sacrifiquei-me, logo agora quando pensava poder descansar, estes estropícios, sim estropícios vêm dar-me cabo dos dias com as suas “inadaptações”. Santo Deus… estou farta!

Num gesto inusitado, num arroubo incomum, Maria Luísa dá um pontapé no caixote do lixo que se entorna pelo chão.

-Só me faltava mais esta ter que apanhar o lixo, nem a propósito…

A inércia tomou conta dos seus resmungos. Sente um pouco de alívio, sente que o seu peito despejou umas quantas queixas mas que o desengano se mantém. Mãe, que é mãe, sempre ajeita as notícias, mas dentro de si, elas entrechocam-se até o tempo as acomodar nas prateleiras dos afectos. Por ora, Maria Luísa, ainda procura o espaço, em tempo, chegará o lugar exacto, e só muito depois, o sorriso e a famigerada auto-consolação: “Afinal não foi o primeiro nem será o único”. E ponto final, fecha-se a gaveta. Há que abrir outra. Porém por ora, as emoções estão ainda à flor da pele…

- Bem, e ainda não acabou por hoje, vem aí a Margarida mais a Inês. Com que cara de pau lhes vou dizer, sobretudo à Margarida… Sempre tenho cada engulho… e logo a ela!

-Mãezinha, o que se passa, agora fala sozinha?

-Pedro és tu que me pões assim. Filho, não estou ainda em mim… juro que não. Mas é só uma coisa passageira, não é? Um arrufo? Ai, os meus netos!

-Mãezinha, não sei se é passageiro ou não, não sei. Sei que preciso, que precisamos de tempo. É isso. Por favor não faça drama de uma coisa natural.

-Natural? Pois, pois… não me digas mais nada. Vai ter com o teu pai, vocês homens nestas alturas entendem-se melhor. São da mesma massa… Coitada da Isabel...tão boa rapariga, boa mãe, esplêndida profissional, mulher interessantíssima e… agora.

- O paizinho disse-me que a Margarida vem cá passar o fim-de-semana e que a Inês vem com ela. Há séculos que não vejo a minha sobrinha. Afinal via-a nascer.

- Só desgostos é o que vocês me têm dado. A tua irmã, depois o teu irmão, agora tu. Nem sei como tenho cara…

-Mãezinha, não percebo porquê tanto drama. Já se esqueceu de todas as outras e muitas alegrias que lhe demos os três. Esqueceu-se… ou faz que se esqueceu. Nós somos vossos filhos, mas não somos vossas cópias, somos diferentes, vivemos noutro tempo, sentimos sem rótulo de embalagem. Quando o embrulho é desatado apenas aproveitamos o que precisamos, não queremos o papel nem o laço para toda a vida, mesmo porque que o papel se vai rasgando e a fita desfiando. Percebe-me, mãezinha? O casamento é isso, um embrulho. Cada um desata conforme sabe e gosta.

-Ai é? Um embrulho? Muito me contas. O melhor é não dizeres mais nada. Peço-te.

- Como queira. Mas é a minha decisão.

Sai da cozinha encolhendo os ombros, meneando a cabeça e de rosto fechado. Aquele ar calmo e simpático, apanágio da sua pessoa, parece ter-se evaporado. Há uma nuvem espessa nas pupilas que as tornam cinzentas escuras como se uma trovoada se acercasse tocada pelo vento forte do norte. Aquele que trás o frio e a chuva. O tempo dito de borrasca.

Ouve-se o toque do badalo no portão do jardim. Sorri por entre o furacão que espreita às janelas do seu sentir. A sua irmã sempre previsível, igual e turbulenta. A única pessoa na família que sempre puxou o badalo do portão do jardim, que sempre se fez entrar por aí, desdenhando a porta principal. Margarida que desde pequena sempre foi avessa ao padrão. Nasceu quase assim. Ainda se lembra dela bem pequenina e sempre independente. Apesar de ser a menina, era bem mais rebelde do que os seus dois irmãos. A única que enfrentou o pai e lhe desobedeceu acintosamente. A sua força de carácter foi sempre um mistério para Pedro. Nunca percebeu lá muito bem, onde é que aqueles dez réis de gente fora buscar tanta força, raiva, altivez e independência. Porém, e se bem conhecia a sua irmã, o reverso de todo aquela personalidade era um bom pedaço de manteiga bem mole.. Quem lhe soubesse tocar as cordas do violino da sensibilidade tinha tudo o que queria. Era certo, que o pai tinha muito orgulho no seu carácter e vida profissional, não tanto na sua vida pessoal. Houvera sempre um constrangimento no relacionamento entre mãe e filha, ela não aceitava a maneira acintosa de Margarida, a sua frontalidade pessoal, o seu desdém pelas convenções, o encolher de ombros, a fuga aos paradigmas que Maria Luísa tinha como certos, a falta de sentimento de culpa, o que parecia ser, a seus olhos, lacuna grave no carácter da filha. Os preconceitos de laivos burgueses que geriam o mundo de Maria Luísa, e contra os quais Margarida sempre se rebelara, levando a dela a à avante. A relação mãe-filha mais do que conflituosa fora sempre táctica.

Pedro respira fundo e desde para o jardim. Margarida sempre lhe dará um pouco daquela alegria que ele bem precisa.

No alto das escadas que dão acesso ao jardim já Maria Luísa fala com a filha e neta.

Calmamente desce e coloca-se a meio caminho. Uma estratégia de batalha que aprendera e o precavia de golpes mais profundos.

-Olá Margarida, bons olhos te vejam. E a Inês, caramba sobrinha. O tempo passa!

-Olha pra ele, a fazer-se de importante. Por acaso não sabes onde vivo? Sabes, não sabes. Eu é que não tenho vida, e depois nunca fui dessas coisas, já sabem.

-Olá tio. A tia e os primos estão cá? Vou já ter com eles. Estão lá em cima?

-Não, minha querida. Vim sozinho. Estão bem, todos finos e rijos.


Margarida olha directamente nos olhos do irmão. Sustenta-lhe o olhar, lê tudo o que tinha para ler. Não precisa de mais. Pertence ao singular grupo daquelas pessoas que percebem tudo sem as palavras. Estende-lhe as mãos e estreita as dele nas suas. Um sorriso de lábios vermelhos aquece o constrangimento sub-reptício que pairou por momentos. Há luz e força nas suas pupilas. Margarida ágil, senhora de si, dá um braço a Pedro e juntos entram em casa. Há cumplicidade . O tempo da revelação virá...

Eines Tages (from Madame Butterfly) - James Last

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13 julho, 2008

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Prazeres.

Uma haste tenra que surge, mais outra, outra, e outra ainda. Um laço enrolado. Um braço solto no ar. O vento que vem e embala a haste, acaricia a folha e balança o cacho minúsculo, quais grânulos verdes e múltiplos em triângulo invertido. No bardo verdejante papoilam os cachos emoldurados de parras e laçados nas gavinhas. No chão, faúlhas de xisto amaciam a terra vermelha e seca. O pó solta-se sempre que o vento vem namorar os vinhedos. Dá-lhes a patina do calor aquecendo os pequenos grãos bagos que resfolegam tranquilamente. O verão dança na vinha, por entre as gavinhas que prendem os cachos ,e a terra calçada de alpergatas de xisto. Em cada passo calcado há a memória que se escoa na poalha do solo.

Além desce suave a colina, aqui sobe penoso o socalco. Mais além, brinca o olhar da moçoila e do rapagão, sob a oliveira serena que veste a sombra do recanto, gera-se o grito de vida. No outro além, lá em baixo junto ao rio, deitado na erva tenra e florida de vinagreiras amarelas, sonha-se com o mundo ao sabor da corrente. E os vinhedos maturam-se no rolar do tempo. As cores são inebriantes de luz. Os castanhos descem até ao rosa e pelo meio vestem-se de ouro, de negro, de púrpura. Hino de paleta por pintar, tela viva ainda não gizada na arte do traço. A terra, mater fecunda, abre-se ao estio da idade. Matura no seio ,o néctar, que outros virão colher. Grupos de cestos, cantigas ecoadas e risos perdidos, enchem o céu alinhavado de ténues sopapos de algodão.

E o calor rebola no vento, tisnando o bardo, aquecendo a doçura do líquido, que entre dedos espirra quente e perfumado como se fora aroma estilizado. As tesouras cortam as hastes entoando o seu eterno tic-tac. Soltos os cachos rebolam pelos cestos. Há no ar um cheiro doce, quase enjoativo que as ladainhas respigam mais ainda. A tarde esvai-se. Colossal a paisagem pára. Perde a animação. Descansa, imóvel do prazer tirado do seu ventre fecundo. A orgia do dia cessou, qual cortesã banha-se lânguida na brisa do entardecer que a despe. A terra veste a musselina estrelada da noite, devolve com um beijo sensual o pestanejar daquela estrela atrevida que teima em seduzi-la ,e recolhe-se nas suas entranhas ainda mornas de ardor vivido. O palpitar, de cada dia, no todo do seu ser, fá-la suspirar. Amanhã novas primícias ser-lhe-ão exortadas. Há que descansar.

Boa-noite!

Antonin Dvorak - Humoresque -

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12 julho, 2008

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A Terra

Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.

Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.

Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!

Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.

Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!

E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.

Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!

A charrua das leivas não concebe
Uma bolota que não dê carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.

Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
Mas ao gosto da vida!

Miguel Torga



A Passage Of Life - Kitaro

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10 julho, 2008

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Main Theme From Out Of Africa - John Barry


Paki

Sentado no degrau da porta da entrada ,Paki escarafuncha as narinas já de si bem largas. Poisa os pés descalços no tijolo vermelho, ao lado descansam os chinelos já gastos e escuros de mil andanças. O tronco cor de chocolate aveludado respira nu o calor da tarde fazendo descer aquela moleza que só Paki sabe sentir. Rebola os olhos e o branco respinga no rostinho doce em jeito de nuvem de chantilly. Paki é menino órfão nas ruas da cidade grande. A vida é zagaia lançada no ar. É mesmo. Foi coisa amarga com que nasceu e cresceu, assim numa caixa vazia de amor. O pai, não conheceu, porque a mãe também se esquecera de quem fora. A pobreza é assim, o corpo paga a fome e depois sem licença gera gente em viagem famélica de amor, apenas abrigada no útero quente. Foi assim que Paki se tornou gente. Num acaso qualquer, numa troca de carne e moedas, lá viu ele a linha da vida. E fez-se menino. Depois a mãe sumiu mal o tinha botado cá para fora. Paki cresceu na rua entre o lixo, fumo e o cheiro. Mas vinha de mão dada com o sol e não deixou que ele lhe escapasse. Só no fim de cada dia deixava que fosse descansar. Paki sabe que o sol é o amigo envolvente dos dias menos quentes, a roupa que não teve. O menino de chocolate cabeceia, o pescoço dá aquela volta redonda sempre que a cabeça pesa de sono, e descai sobre o peito nu de chocolate. As persianas fecham-se, o mundo cavalga na neblina do faz de conta sonhado. Paki corre na frente do jardim onde as flores azuis se abanam no bom dia da manhã. Da cozinha vem o cheiro da custarda com ruibarbo que ele tanto adora. Ouve a voz quente da mãe, sente a macieza reboluda do peito, onde ele rola o rosto e aquece a alma. Apetece-lhe correr, correr muito tanto quanto as suas pernas esguias o levem. É o seu sonho de todos os dias. E no rosto adormecido perpassa a luz do sorriso que lhe ergue as comissuras dos lábios cheios.

Depois, depois, vem o homem grande que sai do quartinho lá em cima, onde a madrinha ganha a vida e perde os anos, o homem que embirra sempre com ele, e lhe dá um pontapé dizendo-lhe:

-Ei, miúdo acorda, pisga-te daqui…senão desanco-te. Vai trabalhar moleque…

Paki levanta-se, agarra nos chinelos de borracha mas o pontapé atinge-o ainda nas costas. Dói. Nem tanto a dor seca que lhe comprime o ar fazendo-lhe arder as costelas, mas mais magoa aquela onda surda que o sufoca. Rebenta em lágrimas e ranho pelo rostinho. Paki é menino da rua, pobre, sujo, famélico mas sentido. A solidão dos afectos torna-o mais sofrido. Soluça Paki, soluça a alma da criança na sombra cinzenta do mundo às avessas. Paki é testemunha. Paki é nome Zulu.

08 julho, 2008

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O Mar e os Sinos

O dia não é hora por hora.
É dor por dor,
o tempo não se dobra,
não se gasta,
mar, diz o mar,
sem trégua,
terra, diz a terra,
o homem espera.
E só
seu sino
está ali entre os outros
guardando em seu vazio
um silêncio implacável
que se repartirá
quando levante sua língua de metal
onda após onda.

De tantas coisas que tive,
andando de joelhos pelo mundo,
aqui, despido,
não tenho mais que o duro meio-dia
do mar, e um sino.

Eles me dão sua voz para sofrer
e sua advertência para deter-me.
Isto acontece para todo o mundo,
continua o espaço.

E vive o mar.

Existem os sinos.

Pablo Neruda

.Hymn To The Sea - Titanic
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Mãe infusa

Ainda estão por dizer
as púdicas confidências
do tempo em que era possível
ouvir as hortênsias.

No quintal de incontinente
o maracujá enlanguescia
e pedra a pedra se reconstruía
a casa infinitamente.

Teu rosto ainda não vagueava
na noite fria do retrato.
Em que desmemoriada candeia
derramaste oh mãe o azeite intacto?

Dispunhas as jóias do inverno
para a festa cálida do verão.
Por certo alguma levaste
passando-a ao fisco da morte
para que uma pérola te assinalasse
no caso que o vento espalhasse
o pólen da tua mão.

Eis-te todavia sem ossos
mas mais do que nunca infusa
em teu ovular desvelo
e eu carnalmente intrusa
pressinto que para tocar-te
enfermo de longos cabelos.



Natália Correia
Poesia Completa
O Vinho e a Lira, 1966
Publicações Dom Quixote
1999
The Flower Duet - Katherine Jenkins
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05 julho, 2008

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La paloma

Poema de Rafael Alberti
 
Se equivocó la paloma
se equivocaba.
Por ir al norte, fue al sur
creyó que el trigo era agua,
se equivocaba.

Creyó que el mar era el cielo
que la noche, la mañana,
se equivocaba,
se equivocaba.

Que las estrellas, rocío
que la calor, la nevada,
se equivocaba,
se equivocaba.

Que tu falda era tu blusa
que tu corazón, su casa,
se equivocaba,
se equivocaba.

Ella se durmió en la orilla,
tú en la cumbre de una rama.

Creyó que el mar era el cielo
que la noche, la mañana
se equivocaba,
se equivocaba.

Que las estrellas, rocío
que la calor, la nevada,
se equivocaba,
se equivocaba.

Que tu falda era tu blusa
que tu corazón, su casa,
se equivocaba,
se equivocaba...







.Recuerdos de la Alhambra - Nana Mouskouri
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La vie en rose (Edith Piaf)

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.Des yeux qui font baiser les miens,
Un rire qui se perd sur sa bouche,
Voilà le portrait sans retouche
De l'homme auquel j'appartiens

[Refrain]
Quand il me prend dans ses bras
Il me parle tout bas,
Je vois la vie en rose.
Il me dit des mots d'amour,
Des mots de tous les jours,
Et ça m'fait quelque chose.
Il est entré dans mon coeur
Une part de bonheur
Dont je connais la cause.
C'est lui pour moi,
Moi pour lui dans la vie,
Il me l'a dit, l'a juré
Pour la vie.
Et dès que je l'apercois
Alors je sens en moi
Mon coeur qui bat

Des nuits d'amour à plus finir
Un grand bonheur qui prend sa place
Des ennuis des chagrins s'effacent
.
Heureux, heureux à en mourir.




La Vie En Rose - Edith Piaf
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03 julho, 2008

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As Time Goes By (Love theme Casablanca) - Ernesto Cortazar
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Silêncio

Correr na esteira do passado ao longo do corredor da vida, beijar o vento na aragem da memória, eis o presente de quem ainda respira mas já revive a neblina. São os cinquenta. Janela semi-aberta para a meia-idade e ainda semi-fechada sobre um tempo maduro que se côa. É assim que se equilibra o tempo. Embala-se nos acordes que brotam do leitor de sonhos, o corpo desfalece na languidez do sofá verde e o olhar perpetua-se no adejar do cortinado que sincopado rodopia em passos de danças leves e aéreos. O olhar magoa-se mas memórias e os lábios entreabrem-se em húmidos rios de palavras por dizer embora por demasiado pensadas. Houve duelos interiores que pereceram na arena do coração. Houve vontades desfeitas por imposição do soprar do vento da quietude, houve desejos amordaçados por imperioso bem viver, houve sonhos abortados por necessidades ditas do quotidiano. E o tempo escoou-se por entre os dedos, como se fora a areia em peneira de criança. No rosto, chão de linhas escavadas, talismã dos anos, existe um pouco de doçura e brilho fugaz de porvir. Esse chão que pretende ser o palco de uma vida, esse mesmo chão que envelheceu antes do espírito ou até mesmo do sentir. Será possível a máscara não casar com o costume? Perscruta o ontem na busca da resposta que se dissolve na maré do presente e quem sabe, na onda do amanhã. O que vê? Tanto e simultaneamente tão pouco. Dicotomia? Não, apenas perspectiva de tanto vivido, puxado, repuxado, apaziguado e quase esquecido. Dores, gritos, tumores coarctados onde, porém a cicatriz permanece. As preces erguidas em arroubos de esperança, o acreditar no amanhã, o esperar pelo que não chegará. Tudo, tudo, curvas de um percurso de vida. Hoje pára-se e olha-se. Não se respira porque o tempo não o permite. Apenas se inspira. Pertence-se a esta nova urbe como se fora inquilino não desejado. Tem que se habitar o prédio, todavia os lances são penosos e as varandas ventosas. Opaco desceu sobre a gente já amarelecida. E a voz? A voz é mandada silenciar como se fora som monocórdico por demais dissidente em ensaio de orquestra. Torna-se óbvio, que se perdeu o estrado, mas é latente que ainda se é necessário na subsistência da precariedade do presente. Uma espécie de salvo-conduto para se continuar. Ter cinquenta ou sessenta é ter muito vivido, e ainda ter muito por viver. Não é credível a frase por julgada excedente. Ter cinquenta é ser excedente no mundo precário de hoje. Saber julgado quase obsoleto, imperfeito ou até mesmo destituído.

Na sala de sofás verdes a porta fecha o tempo. A música parou o seu débito. O cortinado deixou a dança do vai e vem. A noite sobreveio ao dia no interlúdio do pensamento deslizante. É assim que o tempo a recolheu, sentada e pensativa. Tanto ficou por fazer, tanto por dizer, e mais ainda por amar. Houve pressa e correria. Um descartar de gente, na vã e inútil procura, da alcova ou do sofá perfeito, da primazia algures no mundo. Tudo isso não está, não existe, não se atropela, não se compra, não se tem ou se burla, apenas se sente. Sentir é uma arte, um dom. Sentir não é só rir, lacrimejar, chorar, ansiar, doer, é também e sempre partilhar e dar, dar-se. É essa a chave da vida. Abrir o olhar da alma no girar da vida.

E o silêncio casa-se outra vez…

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29 junho, 2008

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Chariots of Fire - Vangelis.

. Urze e Giesta

(…) VIII

Sente um aperto, como se fora um trago de saliva atravessada. Respira fundo. Daqui a pouco porá os pais minimamente ao corrente. Fá-lo sobretudo por si. Tem que se confrontar a si mesmo. Não é fácil. Não é fácil despir o casaco de uma vida, e ficar-se em mangas de camisa ignorando se a chuva cairá. Nada é fácil neste momento de opção, a ferida que abriu na sua carne tem que ser cauterizada ainda que lhe arda muito. Não sabe bem, a razão, deste golpe que de certo modo, se auto-inflige, porém a sua consciência ordena-lhe que mude, que avance. Nas páginas do seu livro de vida, chegou aquele momento, em que o enredo se deslaçou, perdeu o ritmo, e tornou-se enfadonho. No palco, o acto esvaiu-se, o actor recitou-o em ladainha sincopada e átona de paixão. Porém, o frémito renasceu algures no seu interior, arrebata-o para um outro acto, numa outra ribalta, perante um outro público. Para trás ficou o delinear de situações, o colocar hipóteses, o amassar equívocos, o moldar desejos. Cansou-se. Não, não foi bem isso. Tem a secreta noção da sua falha de objectividade, do seu deixa-que-deixa cómodo e encantador deslizar por entre a vida. Fora assim que sempre se sentira. Fora assim que o conheciam. Encantador. Um tipo que não obstaculizava nem pessoas nem coisas. Fora o seu encanto lasso, algo indolente que o conduzira àquela página rasurada de letras iguais quer no tamanho quer na forma, onde os pontos tinham-se evaporado, as vírgulas descansado e outras exclamações viajado. Monocórdica e insalubre. Letras de uma caligrafia assaz recortada e elegante, arrumada e quase sensaborona de perfeita. A sua caligrafia de vida era insonsa. Era isso. A sua vida era insonsa, monótona, podia chamar-lhe átona também. Até há bem pouco parecera-lhe prosaica hoje, no entanto, causava-lhe um bocejo, daqueles saídos da alma entediada. No dobrar da escolha, queria contar o porquê da sua partida. Não almejava compreensão mas apenas paz de dever observado. Era um daqueles capítulos que a educação o obrigava a cumprir. Como fazer compreender a alguém que a vida deixou de ter encanto, aquela mesma vida que eles sempre tinham sonhado e que ele conseguira, e agora chegar e dizer, estou farto do que tenho, quero outra coisa que nem sei bem o que é. Era incompreensível para a geração dos pais. A existência não morava na essência antes no seu acidente. Era quase como fazer entender a uma criança que o amanhã renasce do ontem. A sua luta, mais do que as palavras que lhe vestem os pensamentos, é um duelo nas suas entranhas. Não consegue verbalizar os sentimentos que o avassalam, que o magoam, que o deixam vergado. Pedro sabe que o caminho é tão obscuro como as manhãs acamadas de neblina. Pensa nos pais. Deslizam pela idade na rapidez do fim. Parecem bem mas vão decaindo. Sabe que a felicidade que almeja, ou talvez sonhe nem sempre morou por ali. Relembra os dias magoados de silêncios e avaros de alegria. Houve, outros, também é verdade, que entornaram de sentir, todavia não quer que os seus passos pisem a mesma calçada de vida, aquele desassossego que o traz inquieto e lhe serve de sonho aos sentimentos cansados.

-Olá, pai. Como vai? E inclina-se para o beijar.

-Pedro, até que enfim. Estávamos à tua espera já vai para uma hora. Ora a minha saúde? Vai indo uns dias melhores outros pior. Cá se vai andando.

-A mãe? Onde está?

-Estávamos no jardim. Lá ficou. Vai lá ter. Já sabes como é a tua mãe, já estava preocupada.

-Apanhei muito trânsito. Já se esqueceu, como é? Isto de andar de carro cada vez está pior. Esta cidade está caótica, digo-lhe isto vai de mal a pior.

- Pois, pois, mas vai dizer isso à tua mãe.

E lentamente ao sabor do claudicar do pai, Pedro desliza também pelo corredor. As paredes trazem-lhe sempre as memórias do outro eu, aquele que se perdeu algures no tempo quando as velas deixaram de ser cantadas com vozes infantis. A outra voz que brota das paredes e se une ao trotar da infância, a de Afonso, o seu irmão do meio. Depois o choramingar de Margarida, seguido do esganiçar peremptório da sua resmunguice. Os sons desvanecem-se mas as imagens dançam-lhe mesmo na frente dos olhos. Correrias, choros, risos, gritos, brisas de um passado revivido nos degraus da memória. Tempos idos que lhe chegam em ondas de nostalgia. A casa dos pais sempre o tornara ora melancólico ora convulsivo. Uma dicotomia inexplicável que o fizera fugir muitas vezes mas agora. Hoje, não o ía fazer. Enfrentaria. Sabia que ía causar mágoa, espanto e estupefacção. Respira fundo e sorri, maquinalmente. Sorri para aligeirar a pressão dentro de si.

Chegado ao pequeno jardim onde pululam os verdes matizados sob os fios de sol que visitam o recanto, Pedro beija a mãe. No olhar de Maria Luísa existe aquela doçura que embala a tristeza e acorda o sorriso sempre que o olhar poisa num dos seus filhos.

-Olá Mãezinha. Como vai?

-Pedro, finalmente. Estás com um ar cansado. A Isabel e os meninos e estão bem?

-Tudo bem. Manda-lhe, aliás mandam-vos beijinhos.

-Há já tanto tempo que não os vejo. Devem estar crescidos e a Isabel, sempre ocupada na ciranda de sempre, não é?

-Sim Mãezinha. O tempo é sempre de correria. Já sabe.

- Senta-te Pedro. Vamos almoçar. O bacalhau já foi aquecido mas ainda deve estar bom, é o que tu gostas.

-Obrigado Mãezinha. Mas ainda não me disse como vai?

-Vou indo, Pedro. Na minha idade dou graças a Deus. Há quem esteja bem pior. Só tenho a tensão um pouco alta mas quanto ao resto está tudo bem. Mas deixemos a minha saúde, conta-me coisas sobretudo dos pequenos. Tenho tantas saudades deles. E pensar que não vivemos assim tão longe uns dos outros.

-Pois é verdade. Mas enfim. Lourenço está na faculdade, como a mãe sabe, e dá conta do recado. Continua responsável como sempre. É tão sério o meu filho mais velho. Muito metido nele. O Caetano, ora simpático ora rabugento e infeliz. Lá vai palmilhando a calçada. Parece que o mundo lhe pesa no olhar. Desde que frequenta a Academia de Santa Cecília tem mais interesse pela escola. Claro está, que a música é o seu mundo. É um rapaz tão altivo mas tão meigo também. A sensibilidade transpira-lhe em todos os poros. É difícil de lidar este meu filho. Perpassa-nos com o olhar como se buscasse sempre a verdade de tudo. Por vezes torna-se mudo de rude. A piolha…essa, está na fase do telemóvel. São mensagens atrás de mensagens. Fecha-se no quarto e passa horas naquilo. Mais não faz porque a mesada já foi cortada bem como os carregamentos. No colégio lá vai indo, podia ser melhor mas também não se maça muito. …Mas a Teresinha vai ser difícil. Lembra-me um pouco a minha irmã…muito senhora do seu nariz.

-Fico contente por estarem todos bem. Tenho que ir a vossa casa. Qualquer dia damos lá um salto. Mas não disseste nada da Isabel. A tua mulher como está?

-Bem, Mãezinha. A Isabel está sempre bem. Muito trabalho lá no Instituto, sempre ocupada com as suas pesquisas, sempre atrasada para tudo, mas está bem

- Oh, ainda bem.

Maria Luísa sem saber porquê muda o tema da conversa. Pressente com aquele sexto sentido de mãe que algo se passa, mas não tem nem quer saber mais do que lhe é dito. Na voz do seu menino ecoaram laivos de aspereza que ela lhe desconhecia. Um certo cansaço que a fez ficar quase em alerta. Porém rapidamente se descansou dizendo-se que o trabalho devia ser excessivo e que o seu Pedro precisava de férias. Esta altura do ano era sempre terrível. Rápida e solta comenta:

-Não dizes nada sobre o bacalhau. Já não gostas?

-Oh mãezinha está sempre divinal, nem precisa de adjectivos. Mas vá lá…e colocando os dedos da mão direita em arco leva-os aos lábios e dá um sonoro chocho…

-Ah, ah, ah… há tanto tempo que não via nem ouvia este gesto, meu filho. Que saudades eu tinha…

Alberto que se mantivera em silêncio pigarreia e diz:

-A tua Mãe não perdoa…já sabes como é… Fico feliz por estarem todos bem. Tu pareces cansado. Muito trabalho? Novos projectos?

- Sim Pai, um pouco de tudo isso.

O silêncio desceu na mesa por entre o ruído seco dos talheres, e o som cavo dos maxilares. A trivialidade simples do lugar-comum também se senta entre o bacalhau e a sobremesa como que aligeirando o travo forte do café que se seguirá servido em tabuleiro de revelação.

-Que rico almoço Mãezinha. Que bem me soube. Estou mesmo cheio.

-Ainda bem, Pedro. Bem podias vir cá mais vezes e trazer a Isabel mais os pequenos. Dava-nos tanta alegria. Tu sabes como nós gostamos da tua mulher e dos pequenos.

-Eu sei, eu sei. Mas isso é impossível com a vida que temos A Mãe e o Pai já o sabem. Depois eu tenho algo para vos dizer.

- Sim?

O olhar de Maria Luísa e Alberto afere-se como se finalmente a cortina do palco se abrisse. Entreolham-se rápidos e expectantes aguardam pelas palavras do filho.

- Tive uma proposta de trabalho irrecusável e vou aceitá-la. Um projecto de construção de um aeroporto . Vou acompanhar a obra.

-Fazes bem. Ai que bom e isso onde é desta vez?

-No Chile.

-No Chile, Chile, mesmo, ao pé dos pinguins?

-É isso tudo. Mesmo na ponta, quase perto do Antárctico.

-Bem … e por quanto tempo?

-Seis messes a dois anos.

-E a Isabel mais os garotos?

-Pois. A verdade é que eu e a Isabel precisamos de um tempo. Há já algum tempo que a nossa relação está doente. Existe demasiado silêncio entre nós Estamos acomodados. Vamos dar um espaço para podermos respirar cada um a seu modo. Não me olhem assim. Nada acabou, mas também não começou. Estamos numa encruzilhada.

-Oh Pedro! Diz Maria Luísa lacrimejante. -Vocês são um casal tão lindo! Meu Deus o que se passa na nossa família? O que se passa tudo de desmorona. Meu Deus!!.

-Calma, Mãezinha. É só uma trégua… uma pausa para repensarmos. Eu preciso, ela precisa, e os pequenos precisam também.

- Mas afinal o que se passa convosco? Estão zangados, infelizes? Têm três filhos lindos, uma boa casa, as vossas carreiras estão bem. O que querem mais? Não, não vos entendo. E um soluço afoga-lhe as palavras que se desfazem na garganta.

-Mãezinha compreenda, precisamos de espaço, precisamos de nos sentir outra vez.

Alberto que se mantivera mudo e quedo. Fala então.

-Filho! Não sei o que te diga. Compreendo-te quando falas na necessidade de te repensares. Compreendo-te e percebo a tua inquietação, o desassossego que te torna taciturno, a necessidade de escape ,a luta interna de busca. Ancestral, imemorável o predador renasce sempre. Compreendo-te muito bem. Sou teu pai mas também sou homem, e já tive a tua idade. Mas, Pedro, num casamento, lembra-te sempre, que mais importante do que olharem um para o outro é olharem sempre na mesma direcção, e depois como diz a sabedoria popular”a coisa mais importante que um pai pode fazer pelos seus filhos é amar a mãe deles”, lembra-te destas palavras e faz-me o favor de ponderares a tua decisão, está bem filho?

-Já está ponderada, porém terei as suas palavras em conta. E não vamos fazer drama, Mãezinha, peço-lhe. Eu até podia ter ficado calado e deixar as coisas correram.

-Filho nem sabes como me sinto. Logo tu de quem eu tinha tanto orgulho…

-Quer dizer… nada, nada. Pronto. Aqui está o que vos queria dizer e também pedir. Dêem uma mãozinha à Isabel enquanto eu estiver fora pelo menos nestes primeiros seis meses. Vamos serenar e tentar achar o que está perdido, está bem? Posso contar convosco?

-Claro que sim filho - responde-lhe Alberto. -Afinal todos somos pais duas vezes, não será? Vai descansado que nós cá faremos o nosso melhor.

Pedro recolhe finalmente a ansiedade.



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26 junho, 2008

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A Catedral


No silêncio da catedral ecoam passos soltos e breves de alguém. O interlúdio do dia adeja por entre a rosácea de miríades lampejos. Feixes rosados, azulados e oiro puro cruzam as paredes. Há paz. A figura genuflecte mesmo junto ao altar em prece ardente. Corpo arquejado ergue as mãos em triângulo de oração. O frémito percorre-a dando sobressalto à figura. Inclina-se mais e mais, esconde o rosto em profundo recolhimento. Assim fica por momentos. A prece termina, alheia ergue o rosto, onde vibrátil uma gota de água rola. Outra e mais outra. Assim leves, simples e puras, as lágrimas escorrem das mãos para o braço deslizando pelo cotovelo direito assente sobre o genuflexório. Sacode-o imperceptivelmente. Um murmúrio solta-se dos seus lábios fazendo emergir um suspiro de paz interior, seguido de um brilho de crença no olhar. Levanta-se, benze-se e lentamente desce o trifório central onde no alto as ogivas entrecruzadas sopram hinos altaneiros. Já no exterior, protege os olhos desse sol casado em céu azul. Avança uns passos, ergue o rosto. Olha a pedra rendilhada, que se ergue dos contrafortes e arcobotantes, ali mesmo ao lado. Pedra cantada de mãos ásperas. Afagos de arte esculpidos em preces de cal humana. No beiral nascente, povoando o algeroz, três gárgulas, hediondas mas majestosas, feias e retorcidas abrem as bocas despidas de raízes de ser. Nos rostos disformes, a quem a pedra tingiu ainda de mais negro, e o artista prodigalizou a loucura em pupilas vazias, perpassa o lodo fétido do sentir errado do mundo que se enxagua sempre que o céu se tinge e quebranta.

Mais acima, lá quase no alto, o pináculo nascente vasculha a imortalidade dos dias na quimérica fé da bem-aventurança. A figura suspira albergando no peito a esperança da sua fé. A catedral jaz imutável no bem e no mal, na sua fidúcia de porvir. O método da alma mora ali.






MUSICA SACRA.













Texto publicado no jogo das doze palavras.
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Se não puderes ser um pinheiro, no topo de uma colina,
Sê um arbusto no vale mas sê
O melhor arbusto à margem do regato.
Sê um ramo, se não puderes ser uma árvore.
Se não puderes ser um ramo, sê um pouco de relva
E dá alegria a algum caminho.

Se não puderes ser uma estrada,
Sê apenas uma senda,
Se não puderes ser o Sol, sê uma estrela.
Não é pelo tamanho que terás êxito ou fracasso...
Mas sê o melhor no que quer que sejas.

Pablo Neruda


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22 junho, 2008

Cavallervia Rusticana

Intermezzo: "Cavallervia Rusticana" - Royal Philharmonic Orchestra
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Um dia branco

Dai-me um dia branco, um mar de beladona
Um movimento
Inteiro, unido, adormecido
Como um só momento.

Eu quero caminhar como quem dorme
Entre países sem nome que flutuam.

Imagens tão mudas
Que ao olhá-las me pareça
Que fechei os olhos.

Um dia em que se possa não saber.



Sophia de Mello Breyner Andresen

15 junho, 2008

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.Urze e Giestas

(...) VII

Margarida e a bolsa atiram-se para cima da cama. Que dia! Para a frente e para trás. Aquele corre- corre que a deixa exaurida. Bolas, ainda não comeu nada hoje. É isso tem fome. Mas ir para a cozinha? Não lhe apetece. O frigorífico deve estar vazio. É habitual. Mentalmente pensa em ir às compras. Tem mesmo que ir, não é este fim-de-semana que a filha vem? É isso. A Inês já é quase adulta não a preocupa. Ela mesmo irá às compras, aliás tem jeito para isso. Tem tanto que fazer, tem uma vida tão ocupada. Gosta muito das filhas, no entanto reconhece que não tem tempo nem predisposição. Não é má mãe, não é nada disso, é apenas diferente. Gosta de estar com elas, de as levar aqui e ali, de conversar, mas daquele papel predefinido de mater familias, não lhe assenta nadinha, e detesta-o absolutamente. Aliás, a sua índole é por natureza belígera com as normas. Depois, ama por demais as suas outras filhas, as suas telas, que vai parindo no rebentar das cores sob o traço do desejo conquistado em arte.

Vai telefonar e mandar vir uma pizza. Bolas, sempre pizza ou comida chinesa. Já está a ficar farta. A cozinha é sítio que não a inspira aliás antes a irrita. Tempo perdido. Comida não é coisa que a seduza. Come para estar de pé. O alimento do seu corpo acha-se espírito e esse nutre-se de coisas bem mais importantes. Mas hoje tem fome, também só bebeu dois galões e meia torrada todo o dia. E ontem? Não se lembra, porém não deveria ter sido muito mais. E se tomasse um bom duche, se arranjasse, fosse buscar a filha e rumasse a casa dos pais? Era uma hipótese. Inês ficaria deliciada e ela de certa maneira, também. Mas só o esforço de ter que cumprir as regras, já lhe apertava ainda mais o estômago já de si vazio. Da última vez que lá fora saíra azeda com o pai. Era tão monolítico. Era suposto pai e filha darem-se bem mas nunca o conseguira. Não sabia a quem saía assim tão contestatária. Simplesmente havia coisas que a faziam passar-se. Depois, nunca conseguira apreciar nem ter aquele tipo de vida arrumadinha dos pais , dos irmãos mais velhos. Aquilo fazia-lhe uma certa brotoeja. Gostava de viver de acordo com o momento. Ria quando lhe apetecia, gritava ou resmungava quando lhe dava na gana. Comia se lhe apetecia. Dormia de dia ou trabalhava de noite se lhe dava na gana. Não se enquadrava nos padrões. Amava quando sentia vontade e descansava quando o corpo lhe pedia também. António fora o seu primeiro amor. Tão primeiro, que Inês nascera tinha ela dezassete anos. Uma tragédia na família! Lá se tinham casado porque o pai quase a excomungara. O certo é, que quando se casou já não lhe apetecia viver, com o então marido. Já estava farta. Aguentou durante cinco anos. Depois, um dia pegou na mala e desapareceu. Deixou a filha com o pai. Separaram-se, divorciaram-se. Uma paz. Inês ficou com o pai, a ex-sogra criou-a, e diga-se, fez um bom trabalho. Tinha vinte e cinco anos quando acabou o curso e foi estagiar para Itália.

Claro que se apaixonou. Foi assim un coup de foudre. Assim um sentir inexplicável que a fazia tremer e lhe confundia os dias. A ânsia de estar com Gianni era tão sublime que só passados dois meses é que começou a conhecer a rua de onde vivia e um pouco da cidade que a albergava. Aquele devorar de tempo e carnes que a deixava fisicamente exaurida mas plena de tudo, continuou infindável. O calor daquele labareda despida de som era tão forte, que lhe consumiu o ser sem disso se apercebesse. Foi inexplicável Explicar o sublime é criar arte. Não encontrava palavras para trasladar os seus sentidos. As mãos, por então perderam-se um pouco vazias de traços, a vista deixou de albergar o desejo de criação, porém procriou no ventre incandescência desse sentir. E Pia nasceu. Amou-a de tal forma que até doeu. E pensou em Inês e sentiu-se apócrifa. Logo, porém, justificou que Pia era filha do amor desejado e Inês acontecera. Era diferente. Depois Pia era uns dez réis de gente que a envolvia em sedutores sorrisos. Era linda a sua pequenina. Gianni e Margarida viveram, amaram-se devoraram-se e esgotaram-se. Tanto que se detestaram. Em permeio Pia crescia. Decidiram em separar-se simplesmente. Gianni foi irredutível,” La bambina resta Qui.”. E assim fora. Duas vezes por ano, vinha Pia a Portugal, e ela uma vez a Itália. Pia ía nos doze e Inês nos dezassete. Davam-se bem as duas. Havia em Inês um sentido maternal para com a irmã que a deixava perplexa. Eram muito diferentes. Inês era sóbria, muito arguta, inteligente mesmo, trabalhadora, ordenada e humana. Fisicamente era esguia, talvez em excesso, loira, pele clara e possuía uns olhos muito expressivos. Pia era uma sedutora nata. Quase de certeza que seria uma beleza, a malandra sabia-o, e já jogava com isso. Era uma jovenzinha muito envolvente.

Duas maternidades, um casamento e uma paixão tinham-lhe dado uma força criadora inesgotável. Bebia, ainda, os sentires passados que tornava presentes. Depois o mundo em redor continuava vivo, em cada virar de esquina, e ela sorvia-o ansiosamente. Um olhar, um gesto, um esgar, um grito, uma vida, um quebranto tornavam-se retratos vivos e pungentes sob os pincéis de Margarida. Era bem recebida a sua arte. Tinha já nome. Vivia dela.

Hoje mantinha relações esporádicas de acordo com as suas necessidades ou simples vontade. Não se envolvia para além do momento. Gostava da sua solidão, dava-lhe a independência de pensamentos e movimentos. Preferia assim a vida. A raiz do seu ser era profunda, aprumada bebia o húmus da terra negra e húmida. Os dias nem sempre eram doces ou dourados, havia-os muitos negros, cinzentos, ou simplesmente doridos. Nada era como devia ser. O hoje é um crepúsculo varrido de intenções, o amanhã será a neblina do ontem.

Levanta-se, descalça vai até ao espelho que veste a parede em frente. Requebra o corpo, lança um olhar enviesado avaliando o que vê. Não está nada mal, pelo contrário, está até muito bem. Um toque nas sobrancelhas, o cabelo lavado, vestir-se sobriamente, e ficará irrepreensível. Gira sobre si. Vai até ao armário. Escolhe umas calças, não desta vez não serão jeans, apetece-lhe mudar, uma camisa. Depois as sandálias. Dirige-se para a casa de banho. Despe-se e entra no poliban. A água quente cai-lhe nos ombros e resvala pelo corpo. Solta-se. Ensaboa-se lenta e meticulosamente num acto coquette ainda não esquecido. Depois sai e enrola-se no toalhão felpudo e vermelho. A cor transmite-lhe energia. Hidrata corpo e o rosto, só então se veste. Cada movimento é calmo e preciso.

Maquilha-se ligeiramente. Pega na bolsa. Mentalmente recorda-se que tem que ir ao multibanco próximo. Sai, desce o elevador e entra no carro que está estacionado na garagem. Arranca. Pouco depois entra no cabeleireiro.

Quando sai, o dia arruma-se na linha do horizonte. Sempre vai buscar Inês, de seguida para casa dos pais. Vai ser um fim-de-semana diferente. Costumeiro, diz-se, mas para ela, invulgar.

-Olá Mãe! Chegaste a horas!

Entra no carro e dá-lhe um beijo.

-Uauu! Vais a algum sítio? Tens alguma reunião?

-Olá Inês? Tudo bem? Vamos para os avós este fim-de-semana.

-Boa! Tenho tantas saudinhas do Vô e da Vó. Olha, ontem tive na Net a conversar com a Pia. Ela e o Gianni vêm cá, porquê não sei. Mas na próxima semana tens cá tua filha. Já sabias?

-Não. Minha filha e tua irmã… E tu ,como estás, a escola como vai? E o teu pai e a Ivone e o teu irmão?

-Tudo bem. Tenho exames daqui a duas semanas, bem tenho que lhe dar. O pai está bem e a Ivone também, já sabes. O Gonçalo é que também anda às voltas com os testes. Final do ano. Já sabes como é, ou não sabes?

-Mais ou menos. Parece-me uma eternidade, o tempo passado.

-Pois. É assim. Olha, telefonaste à Vó Luísa a dizer que íamos? É que da última vez o Vô Alberto estava danado, já sabes como é. Telefonaste?

-Claro Inês.

-Tá bem, ainda bem. Mas não disseste ainda onde foste toda assim, “toda triques à beirinha”…

-Não fui a lado nenhum, aliás vou. Vou a casa dos teus avós, meus pais por sinal.

-Tá, mãe não te chateies. Não é habito vestires-te assim, por isso perguntei. Tudo bem.

- A tua avó pareceu-me em baixo. Oxalá não esteja doente.

- Vais ver que não. É da idade. A avó Susana também tem dias assim e no entanto continua rija.

- Espero bem que sim. Mudando de assunto como vão as aulas de música? Não te tenho ouvido dizer nada.

-Vão indo. Já te disse que nunca vou ver uma virtuosa. Gosto de música mas não é a minha vida e já o sabes. Isso é para a Pia.

- Está bem Inês. Vocês são muito diferentes. Lá isso são.

-Pudera os pais também são bem diferentes, não é por nada, mas eu prefiro mesmo o meu.

-É natural, não é?

-Será, mãe?

-Deve ser. O teu pai é um ser humano excepcional. Reconheço-o. Não funcionou para mim porque é metódico, analítico e quase despido de frémito. Excessivamente lógico e estruturado. Sabes, Inês, vivo na dimensão do instinto, sou repentista, ajo sob paixão. Penso com o órgão, faço asneira, caio, levanto-me. Mas trinco cada momento quase até ao caroço, por vezes mesmo o caroço, que me sai bichado. Coisas da vida. Tu tiveste a sorte de ter um pai excelente e uma mãe avoada. Um dia vais perceber que afinal és mais rica que os outros… mas só um dia.

-Hoje, tás esquisita. Apaixonaste-te outra vez? Hum… deve ser isso. Palpita-me.

-Ah, ah, ah! Nada disso, minha querida. Nada disso. Vejo que ainda não é tempo. Mais tarde talvez. Olha, estamos quase a chegar.

O jardim do Príncipe Real senta-se ali mesmo no girar do redondo. As velhas árvores adejam as folhas no soprar da brisa do fim de tarde. Nos bancos sentam-se velhos, cujo olhar se perde por entre quadrados de tempo vítreo, tal como as pupilas que o recolhem. Nas mãos trémulas, descarnadas e venosas escorre-se-lhes o resto de vida. Vêm ali consolar o olhar já que o corpo teima em pesar. Sentam-se, olham, conversam, murmuram ou sibilam. Pegam na bengala, ou trôpegos mais desafiantes, voltam a recuar no caminho. São assim os dias. Crianças, não há. A cidade fecha-se cada vez mais na idade do tempo gasto, e despreza os dias de amanhã. A velha rua de janelas altas e varandas floridas surge ao olhar de ambas. Ora aqui está. Buzina e o portão abre-se. Entra.

-Olha olha, o teu tio Pedro está cá….

-Boa. Há tanto tempo que não o vejo

-Cheira-me a coisa, Inês. Vamos ver…

Luísa na escada sorri-lhes. Abre os braços como se o sentir lhe saísse do coração direitinho par a filha e neta e diz:

-Até que enfim, minhas queridas!

Barcarolle OFFENBACH - HP European Tour95





13 junho, 2008

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"A viagem mais comprida é aquela que se faz ao interior de si mesmo"


(Hammarskjöld)

.El Cid [Film Score] - Miklos Rozsa
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12 junho, 2008

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Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por casas, por prados,
Por quinta e por fonte,
Caminhais aliados.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por penhascos pretos,
Atrás e defronte,
Caminhais secretos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por plainos desertos
Sem ter horizontes,
Caminhais libertos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por ínvios caminhos,
Por rios sem ponte,
Caminhais sozinhos.

Do vale à montanha,
Da montanha ao monte,
Cavalo de sombra,
Cavaleiro monge,
Por quanto é sem fim,
Sem ninguém que o conte,
Caminhais em mim..
.
Fernando Pessoa
.
(Cancioneiro 1932)



.Rachmaninoff - Piano Concerto No. 1 - II. Andante - Byron Janis
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Porque estamos no Santo António, e porque amanhã faz cento e vinte anos que nasceu Fernando Pessoa,
e porque para além do seu reconhecimento como o mais representativo poeta do século XX, segundo o crítico literário Harold Bloom, também a simplicidade que a liberdade poética lhe dava bem como a amor à sua cidade natal , merecerem-lhe algumas quadras populares que aqui deixo em jeito de cheirinho à alegria que desce dos bairros até á Avenida.

Mangerico, mangerico

Mangerico, mangerico
mangerico que te dei
A tristeza com que fico
Inda amanhã a terei.

O mangerico comprado

O mangerico comprado
Não é melhor queo que dão
Põe o mangerico de lado
E dá-me o teu coração.
LA VAI LISBOA - AMALIA