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18 outubro, 2009

O Filme

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O Filme

Sebastião.

O sol pesponta na janela varrendo as sombras de um quarto minimalista. Debruçada numa jarra de vidro, uma túlipa vermelha cumprimenta o dia. Laivos de cor. Branco e vermelho. No estrado negro, a figura mexe-se, afastando a luz que lhe magoa os olhos. Pestaneja entreabrindo o olhar liquefeito de azul turvo, que imediatamente se volta a cerrar. Uma mão ergue-se exaltada, tentando tapar a claridade metediça.

Que ironia ser Sebastião em manhãs sem nevoeiro. A contrição de todos os dias.

Levanta-se.

A barba por fazer risca-lhe as faces, tingindo-as de um preto hirsuto. Coça-a com os dedos meio enrolados. Um gesto encaracolado de meiguice. Um quase afago. O rosto é móvel, crispado. O olhar quente e uns lábios enclavinhados dão-lhe um ar iracundo. Sebastião engole a raiva de todos os dias. O líquido verde da negação. O seu mel de vida. Por ora o mundo é um palco vagabundo, onde os actores não chegam a vestir a pele dos seus personagens. Aviltados caem no proscénio a um passo da sua redenção.

Rebola a bela cabeça num jogo de roda lento.O travo da ira veste-o. Um fato cinzentão de fazenda fina e corte irrepreensível.

Está pronto. Cá fora respira a manhã turva. Desce a ladeira num gingar descompassado. As pernas tortas e magras desfilam em passos na calçada polida. Sebastião desliza mais do que caminha. Há algo de nervoso no bambalear do corpo. Um certo afã de chegar ou será de partir?

Entra algures. Rostos que se levantam e rumorejam à sua passagem. Logo, se baixam presos ao ecrã. Os planos de um filme. A acção sentida dos gestos, dos olhares.

A projecção já começou. Os figurantes, os actores do seu mundo, plasmam-se em sombras. Intrépido, aquele grupo, o dos afectos perdidos, sobressai. As sépias não têm lugar. O preto e branco acutilantes recordam-lhe a cronologia. A sua e a deles.

Os movimentos repetem-se no quotidiano. O slow motion. Um gesto perpetuado no espaço. Lento, deliberado e translúcido. A película em três dimensões. Um mão que baixa, arredondando-se num gesto de afago. Um olhar amargo que chora. Pupilas rutilantes de água. Corpo lascivo de dor. Passos cadenciados. Barulho. Estrídulo. Premente.

A bobine encravou.

A porta abre-se. A mulher entra direita, objectiva. Senta-se, cruza as pernas, descalça os sapatos negros. Um sobre o outro na carpete vermelha. Espalha os papéis. Fala. Gesticula, argumenta. Recolhe-se. Calça-se e levanta-se. Sai.

Silêncio.

A bobine dispara. A tela revive. As sombras desvanecem-se. A acção desembrulha-as. Gente, gente que pulsa, gente que anda, gente que ama.

Um casaco vermelho, um chapéu negro, um rosto vivo, um olhar enviesado. Uma boca gulosa. Uns braços envolventes. Um corpo arquejado. Sentidos. Allegro.

A banda sonora eclode. Sebastião abandona-se.

Ele, ali em primeiro plano. Rindo, dobrado sobre si. Rosto escancarado, dentes em concha. Gargalhar em dó. Feliz.

Segundo plano: Ele, no umbral de uma porta escancarada. Perfil fechado. Braços cruzados. O escuro da noite em contraponto com a sua camisa branca, adejada de vazio. Adagio

Terceiro plano: A rua. O movimento. O buzinar batido de luzes. O nevoeiro a dançar nos ramos despidos de Inverno. O luar amarrotado. O gelo a flutuar no líquido dourado. O copo abandonado na mesa de uma sala em negro e branco. A escala cromática de doze tons. O piano que sussurra baixinho.

Quarto plano: O canto de luz crua a inundar a sombra dos sentidos. Sebastião em pé, olhando a noite de todos os anos. O amarelo da lâmpada rasgar-lhe a percepção das coisas. Os sentidos que se derramam por ele abaixo qual urina incontida. O calor que se segue permite-lhe um breve aconchego.

Na rua as gentes apressam-se num vai e vem de horas gastas. E o luar pingado esboça um aceno breve de despedida. A objectiva foca-se na mulher que passa. Banal, sem laivos de efabulação. Nua de pré-conceitos de personagem. Aperta o casacão. O som dos passos breves revela o rumo da sua pauta. Andante.

Quinto plano: Junto à margem, sob o lençol de nevoeiro, desliza o rio. A seu lado, um vulto de contornos esbatidos caminha apressado. Afasta-se. Sebastião sorri finalmente. As pernas ágeis sulcam o tempo. Andante Agitato

Sexto plano: Soa a campainha. Toca o telemóvel. Respinga o relógio. A túlipa vermelha sorri à manhã. A luz inunda o estrado negro. Uma mão agarra o sol e diáfana abre-se. No quarto despido três sombras abocanham-se: O fel, o mel e o sal.

Sebastião ainda mora aqui. Allegro Cantabile.

FIM






Piano Concerto No .21 (From Elvira Madigan) - Mozart

6 comentários:

Laura disse...

E eu suspiro e encho o peito de palavras.

tiaselma.com disse...

Mateso, você se supera em criatividade a cada texto.
O Allegro Cantabile ressoa aqui em torno. Agora e ainda.

Beijocas da leitora.

gabriela rocha martins disse...

um texto particularmente conseguido e em crescendo .a partir do sexto parágrafo (...) "está pronto".... adquire uma limpidez despida de quaisquer artefactos como se os mesmos fossem completamente desnecessários à narrativa ... e ,de facto ,são. o ritmo é perfeito .convidativo à leitura e a re leituras



.
um beijo

Teresa Durães disse...

o guião de um filme. os traçados do passos a cada momento.

as velas ardem ate ao fim disse...

Escreves tão bem que emocionas me.

um bjo

Vieira Calado disse...

Olá, boa noite!

Continua interessante e variado,

o seu blog.

Cumprimentos meus.