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Alguém que ama a vida e odeia as injustiças

12 setembro, 2009

Em Setembro

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Em Setembro.

Vinham não se sabe de onde. Vinham trazidas pelo vento, novelos de algodão mal embrulhados que, se sentavam no ar, olhando de cima para baixo, à espera não se sabe bem de quê.

Saber, sabia-se, mas esperava-se. Esperava-se então pelos sinais.

Sinais de Setembro.

Entretanto a neblina avolumava-se nas manhãs por acordar, porém displicente esvaía-se logo que o Rei se punha a circular. O vento, esse, porque era traiçoeiro bufava de vez enquando, de mansinho, mas lá ia despindo uma folha aqui, outra ali, ou pior, simplesmente sugando-lhes o resto de seiva. E a terra cobria-se de amarelo de despedida.

Depois, a varinha mágica estremecia e as cores rebentavam de ser. Um esplendor. Uma paleta. Nas árvores, pelos montes ou nos bardos, o vermelho e o rosa velho, amarelo e o laranja, o grená casado com o ouro velho e o verde amarfanhado. Que panóplia! O olhar guloso bebia-as compulsivamente, tal como o bêbado sorve o líquido. Os sentidos acalmavam, por instantes. Em frente no monte que vestia a cidade, a urze tomara tom. Ao longe parecia açafrão. Aquele amarelo bebido de sol da tarde aquecia os olhos. Um aboboral maduro, assim era os amarelos espargidos na terra amornada de luz.

Liquefeitos os sons do vento evocavam a dádiva do tempo, o presente. O espírito jazia ali mesmo na dobra, entre o antes e o depois, soltando-se na despedida e acenando à chegada.

Verão e Outono.

Sol e neblina.

Riso e sorriso.

Respirava-se o ar e bebiam-se os primeiros pingos de chuva. Refrescava-se. Exauridos os cravos-da-índia, amarelos, vermelhos e castanhos cujo odor forte se desprendia no canto do jardim, acordavam da letargia que os tomara e multiplicavam-se numa rapidez apressada. E no dia seguinte já sorriam alegremente. Nas árvores, os figos maduros e leitosos piscavam matreiros o olho às mãos, que os procuravam.

Oferenda mélica entreaberta em gomos amarelos rosados.

Feneciam as folhas. A despedida.

Letargia. Segredo.

Em Setembro.



Aranjuez Mon Amour - Gheorghe Zamfir
Posted by Picasa

7 comentários:

Miosotis disse...

Um deslumbramento luxuriante para o olhar este 'Outono' da fotografia que escolheste para complementar teu texto, expressivo e solto em sinestesias esplendorosas!

Saio daqui um pouco melancólica! É que apesar de apreciar profundamente a paleta de tonalidades outonais, os aromas mais serenos... eu adoro o verão! As manhãs brilhantes, luminosas, os dias longos, o cheiro a maresia, as leituras em final de tarde frente ao oceano.

Um beijo,

tiaselma.com disse...

Que imagem escolheste! E o texto perfumado...
Mateso Azul, em setembro te superas...

Beijocas.

Mar Arável disse...

Mais um texto poético

onde gosto de repousar

os olhos

As estações do ano são assim

um ciclo de marés

Belo

RAA disse...

Muito visual, a sua escrita. E conseguida.

Nilson Barcelli disse...

Imagem e texto irrepreensíveis.
Magnífico, querida amiga, vir ao teu blogue é sempre um momento especial.
Um beijo.

Vieira Calado disse...

Belo texto

embrulhado numa imagem lindíssima!

Cumprimentos meus.

Ana Paula disse...

Lindo! Repleto de magníficas cores e deliciosas sensações.

Com o teu texto, Setembro vale a pena :))

Um beijo