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06 maio, 2009

Murmúrios ao Vento


Murmúrios

Dorme o monte embalado no vento do tempo. Dormem as gentes no aconchego morno dos corpos. Há prece muda nos sinos ensonados. Encarrapitada, lá no cimo, a aldeia dorme. Agasalha-se nas suas ruas estreitas calçadas de xisto, sempre que a melodia sibilina assobia por entre os dentes de pedra. É a ladainha agreste da voz do mundo.

Foi por ali que calcorreei os caminhos de pé nu ou bota gasta, que vesti as calças de alças e remendos. As costas das mãos foram o linho que me secou, as pedras calejaram-me os pés, a terra, mole e fremente vestiu-me as pernas e o rosto de poalha fina. Foi assim que cresci entre os homens e os outros bichos numa terra nua de poesia que quer as letras quer as aguarelas teimam em enroupar.

É essa terra, a matriz, cuja alma se desfia sob os meus pés cansados, que eu oiço no calcorreio dos campos, ou quando adormeço no crepúsculo do dia. Oiço-a quando a noite desliza nos campos drogados de adubo. Foi esta a terra que me moldou, qual pedaço de barro desterroado por pés convulsos de labuta. Paro no alto, junto da oliveira prenhe de fruto. O vento traz-me aquele ciciar macio que me estremece. Dobro-me. Atordoa-me a força que se desprende, o hálito que me envolve. Sinto-me zonzo. O húmus das suas entranhas é demasiado forte. Já não lhe pertenço como outrora.

A memória devolve-me a sua cantilena das tardes quentes, era então, assim, que eu a escutava:

“Sou a erva-fina, o cheiro húmido que lava o sentir. Sou a flor miúda, amarela vinagreira que brota nos dias húmidos quando o sol resolve preguiçar. Sou a semente do mundo que germina humilde sob a capa que me vestem, borrifam-me as chuvas, pisam-me os pés, exaurem-me as bocas, amaldiçoam-me os sóis e os ventos, debicam-me as aves, sugam-me os répteis. Mas eu sou a Mãe, o útero do Mundo.”

Cresci nesta melopeia de sentires, entre o tempero do corpo e a forja do espírito. A terra, a aldeia, foi o meu berço. A voz do vento, o odor húmido da terra, o espaço em declive folheado de vinhedos, o rio lá em baixo manso e liquefeito de tons embebedou-me sempre a razão. Há neste pedaço de mundo uma magia tal que faz a Gente crescer para lá do corpo. Casa rude de traços ásperos e janelas abertas onde as paredes xistosas deixam aninhar o vento do destino. Eis a fachada onde mora o sentir. Barro, xisto, água, semente, vento, sol, chuva e labor germinam o telúrico de um povo.

Subo a estrada estreita retorta pelo xisto que se ergue nos taludes socalcados da vinha. Lenta e deliberadamente aspiro a poalha da terra me envolve. Sinto-a no rosto, respiro-a Aquele sabor a terra forra-me a língua, cuspo na estrada estreita. Cuspo mas o sabor fica. Engulo. Sinto o estômago acre. Arranho-me interiormente, porém a mente está lúcida. Há uma clareza invulgar neste subir de estrada. Sei o que me empurra, visiono o meu destino. Antevejo o meu percurso.

Há uma força, uma voz que me empurra estrada acima, que me impele mais além. E o murmúrio do vento cada vez mais perto. E subo, subo arrastando-me contra a fúria que em meu redor sibila cuspindo a golfadas de ar que entram a jorros pelas portas do meu corpo. Ferem-me, cortam-me mas lavam-me a alma. E continuo subindo, subindo. Está quase, quase. Lá em cima no ermo, no monte vazio a razão espera-me.

Até lá a Terra Mãe protege-me. Assim seja.





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12 comentários:

Teresa Durães disse...

talvez a sensação de estranheza esta colagem

tiaselma.com disse...

aArtmus... onde mora o sentir.

E este "Murmúrios" fez germinar o telúrico da gente.

Beijocas, mestra.

Madalena disse...

Para lá da beleza dos Mumúrios fui apanhada pela voz do Adriano. Tão maltratado pela memória do nosso País escasso.

Bj.
Madalena

Tchi disse...

A força do perto.

as velas ardem ate ao fim disse...

um bjo

as velas ardem ate ao fim disse...

achas que a terra me pode proteger tb?

um bjo

tiaselma.com disse...

Mateso, MÃE das palavras também...

Um beijo carinhoso por amanhã.

Aguarde e-mail.

Ana Paula disse...

A terra chama-nos para existirmos assim...

Uma excelente recriação dessa atmosfera existencial!

Um bj

C Valente disse...

Cada vez o cerco se aproxima da zona do PC, A resistência é fraca mas vai aguentando a invasão. Obras a quanto obrigas
Sempre, Saudações amigas

Laura disse...

E esta cantilena tão bem me embalou!

Nilson Barcelli disse...

Se tivesses crescido na cidade jamais escreverias um texto tão magnífico como este. Sem a vivência não haveriam murmúrios assim...
Querida amiga, boa semana.
Beijos.

addiragram disse...

Que inveja!!! :)

Um beijinho.