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Alguém que ama a vida e odeia as injustiças

08 julho, 2008

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Mãe infusa

Ainda estão por dizer
as púdicas confidências
do tempo em que era possível
ouvir as hortênsias.

No quintal de incontinente
o maracujá enlanguescia
e pedra a pedra se reconstruía
a casa infinitamente.

Teu rosto ainda não vagueava
na noite fria do retrato.
Em que desmemoriada candeia
derramaste oh mãe o azeite intacto?

Dispunhas as jóias do inverno
para a festa cálida do verão.
Por certo alguma levaste
passando-a ao fisco da morte
para que uma pérola te assinalasse
no caso que o vento espalhasse
o pólen da tua mão.

Eis-te todavia sem ossos
mas mais do que nunca infusa
em teu ovular desvelo
e eu carnalmente intrusa
pressinto que para tocar-te
enfermo de longos cabelos.



Natália Correia
Poesia Completa
O Vinho e a Lira, 1966
Publicações Dom Quixote
1999
The Flower Duet - Katherine Jenkins
.
.
Posted by Picasa

3 comentários:

gabriela rocha martins disse...

a deixar um beijo
nas palavras de Natália

alice disse...

uma belíssima combinação de palavras e música que tanto gostei de ler e ouvir. obrigada, mateso. um grande beijinho.

Miosotis disse...

Um poema lindo, profundo, sentido... como Natália sabia 'dizer'!
Saudade desta mulher de garra e peito feito, contra as desventuras!

Como gostei de vir aqui 're'ler Natália!

Sensibilizada, 'mateso' pelo momento... e pelo olhar amistoso poisado em 'fragmentos'!

Um beijo