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Alguém que ama a vida e odeia as injustiças

11 maio, 2008




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(…) Urze e Giesta II

A cidade recolhe os últimos resquícios de luta. Nas ruas, o afã é, agora, de fuga. Foge-se para longe, para a periferia ou quem pode para mais longe, até onde o dinheiro leva. As estradas tingem-se de luzes. O amarelo dos faróis bruxuleia o alcatrão e as silhuetas de argamassa que bordejam a paisagem circundante. Aquele despir, da cidade, numa pressa corrida, lembra-lhe sempre a sua primeira relação. Algo de precipitado, como se o tempo não tivesse tempo, e o corpo se esgotasse no momento seguinte. Fora, como costumava dizer, fora uma experiência. É bom colocar as palavras correctas senão ficam-nos a olhar como desprovidos de algo. Sentira-se sempre plena de sentidos. Mas, na verdade, não lhe restara muito do momento. Fora tudo muito atabalhoado, numa pressa própria, de quem quer chegar, sem sequer, ter ainda partido. Entreabre os lábios num sorriso húmido. Passa os dedos pelos cabelos como que afagando memórias distantes. Lembra-se, tinha dezanove anos, uma giesta do monte florida de amarelo vivo. Momentos de crescimento. A estrada continua em frente, curva-se ligeira mas não muito. A viagem de regresso a casa é sempre o momento das memórias. Todas. Daquelas que só ela sabe. Degusta-as em cada mudança, em cada quilómetro percorrido. Isabel é gente, e gente precisa de espaço mental para respirar. O dia-a-dia tão rápido de pequenas coisas, cheias de tudo, e vazias de mais ainda, impedem-na de se ouvir. Lourenço, Caetano e Teresa. Três filhos, três labaredas de um ontem feito dia-a-dia. Pedro espera-a como sempre, com aquele ar meio triste, meio tolerante. Os anos têm vindo a macerar o diálogo, os silêncios têm aumentado na proporção dos centímetros que os filhos vão adquirindo. Há algo que fere sub-repticiamente. O sorriso, aquela amplitude de sentir, quebrou-se, apenas na porta fechada do quarto há azo ao amplexo do amor. Quase como uma sentença em quarto de grades. Será isto a maturidade? Não acredita. Ela e Pedro fazem-na lembrar-se da sua mãe e do seu pai. Adelaide e Agostinho. Sempre distantes um do outro, sempre separados, sempre trabalhando, sempre assexuados, no entanto, ela e os irmãos tinham vindo a este mundo. Um quase mistério. Nunca vira aos seus pais gestos de carinho. Eram quase pecados-vergonhas que não se mostravam, não se faziam. Recorda o espírito azedo da mãe e a bonomia do pai. Recorda os trejeitos verrinosos da mãe quando via uma demonstração de afecto. Tempos desfolhados, aqueles. Nunca percebera bem como as relações cresciam ou apenas se mereciam. O seu casamento, tão diferente, e no entanto, já sentia as folhas a macerarem, quase frouxas. O caule estava a perder a firmeza. Aqueles desencontros de horas em ritmos de vida paralelos.

Pedro, a sua cara-metade, como se ousa dizer, não era mais do que a outra parte do seu ser, aquela que nunca nascera ou morrera sem que ela se tivesse alguma vez apercebido. Era alegre, simples, íntegro. Ria como se trincasse sempre uma maçã daquelas suculentas e sumarentas. Era isso, a vida para ele era uma simples dentada sumarenta. Inebriava-se simplesmente com o acto de viver. Todavia as maçãs por ora andavam sumidas. O seu riso era menor. O olhar franco encovava-se e os lábios estavam mais hirtos. Pedro silenciava as ausências mas desafiava a presença em monólogos articulados, em olhares de semi-decúbito. Tinha que dar um jeito a isto. Tinha. Era mulher de enfrentar as situações e não de baixar os braços. A luta estimulava-a, era a sua alma da Terra. Mentalmente agenda um fim-de-semana a dois. Têm que o fazer. Urge.

O vermelho do semáforo fá-la abrandar. Pára e instintivamente olha pelo retrovisor. Uma fila atrás de si. Tira as mãos do volante e enfia-a no saco à procura do telemóvel. Encontra-o. Não tem mensagens. Rapidamente liga para casa.

“-Sim, Pedro. Vou a caminho. Daqui a quinze minutos. Queres que leve alguma coisa? Está bem. Até já. Beijinho.”

Ouve o buzinar. Engata a primeira e arranca. De novo as recordações assaltam-na e sem saber porquê o pai, inunda-lhe a mente.

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Galga o caminho no desnudo da bota rota. Espreita-lhe o dedo mais a sola do pé ainda pequeno. Tem doze anos. Um olhar atrevido, matreiro. Treme-lhe o olho no cinzento da manhã. Aconchega uma prega da camisola amarrotada de amarelo ao peito magro. O ar gelado estremece-lhe as pernas onde os calções de cotim presos numa só alça tentam cobrir um corpo já espigado para o seu tamanho. Na cabeça de cabelos negros e curtos enterra-se um boné vestido de quadrados de linhas já partidas. Chama-se Agostinho e é mineiro. Percorre os socalcos da terra até às minas das Gatas, saltita as pedras do caminho por entre os bardos de vinhedos despidos, onde apenas os troncos esperam o abrolhar da estação. Em redor a neblina purifica a terra, veste-a de orvalho qual sorriso de promessa. Sente-se dono do que vê. A sua pobreza é a riqueza dos seus olhos. Erguera-se quando o galo cantara no galinheiro do quintal. Meio estremunhado, quente da cama de folhelho e cobertores de papa. Fora botar a roupa no corpo magro, enfiar as botas rotas nos pés, puxar os cordéis a servir de atacadores. Passar pela cozinha pegar na broa e ala pelo nevoeiro fora. A vida é dura. Gostava tanto de ter umas botas novas, mais uns rolamentos para o carrinho, pra ganhar ao Zeca na corrida de sábado, mas nada, não tem, dá a féria toda em casa. O pai amanha umas terrinhas e embebeda a alma mais o corpo todos os dias. Como a mãe costuma dizer, ele é mais “briaco” que a própria pinga. Coitado do Manel das Hortas, como é conhecido. Não é mau, o seu pai é apenas um fraco. A sua mãe, mulher tesa e azeda grita-lhe toda a hora. O Coitado, na pinga, ouve o silêncio que lhe embota os sentidos e fá-lo estar mais em paz. Assim não ouve a zunideira da Rita, sua mulher. Agostinho pensa no alto dos seus doze anos, que a mãe é dura, é retorcida, como as velhas cepas e azeda como o coalho que fede lá em casa. Gaita. Tem que se despachar, o sol já despregou as pálpebras e o alvor já tomou o dia. Se chega atrasado não tem jorna. A mãe estracinhava-o. Estuga o passo. O ar é gélido, sopra frio e cortante dos montes em concha. Lá pelos altos uiva como se fora loba ciada e aqui em baixo como gente esfaimada. Os cepos da vinha não bolem aconchegados à terra, apenas o pó de xisto voa encosta abaixo em rolo de névoas pingadas. Lá pelos baixos, na planura das Gatas, onde a urze e o tojo amaciam as pedras, e o granito se senta nos caminhos vestido de cinzento triste e duro, para esquecer a solidão do mundo, a terra abre a boca em túneis de volfrâmio. Nas entranhas negras Agostinho merece a sua magra jorna, este menino-mineiro de corpo ágil, magro, olhos coscurantes e orelhas abertas ao linguajar dos homens e aos sons dos pássaros. Dois trinados diversos mas que lhe vão alimentando o espírito. Cresce na míngua do pão mas na abundância dos sons.

-“Ei, ‘Estinho essa carreta na vem…? Ai o puto que está lerdo esta manhã…Despacha-te …Mexe-te…Desanda daqui, rapaz…”

Era assim o dia fora. Um vai e vem de força e lágrimas trincadas. E então caía o dia lá fora, que cá dentro por entre os túneis, dormia sempre enroscado na noite. Era o arrumar da carreta, o chapinhar as mãos, o rosto na água gelada da pia de granito, quando não eram tiras de gelo que serviam às lavagens, o vestir outra vez das breves roupas, o levantar da gola, o enterrar do boné, o calçar das botas esburacadas. Era o regresso, de socalco em socalco, de a barriga a dar horas ou a roncar, o caminho a pique, a paisagem a despedir-se do dia mas sempre soprada. As luzes que se espargiam no ar de onde em onde, sentinelas de gente. O puto agiganta-se no embrulho da noite ladeando em passo estugado os bardos já sonolentos. O cheiro da terra é cansado. Recolhe-se sob o tremular dos pirilampos no azul de cima em suave cadência de suspiros.

Chega a casa. As irmãs tagarelam como sempre. O pai curte o vinho no canto. Está babado e mais sujo que ele. A mãe azeda, envinagrada ,todavia adoça-se-lhe a voz ao ver o seu pequeno. Manda-o refrescar-se, mas rápido, porque a janta já espera. O caldo arrefece ela hoje inté cozeu broa. Inda está morna. É o beijo e o carinho de sua mãe. Mais não tem, mais não dá. Mais não sabe.

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Acaba de estacionar. Desliga o motor. Pega no saco, abre a porta do carro e sai. O comando faz o clique habitual. Mete as chaves à porta. Abre-a e entra. Despe o casaco, pousa o saco, afivela o sorriso e entra.

- Boas-noites, meninos. O Pai?

(...)
Posted by Picasa

8 comentários:

Maria P. disse...

Urzes e giestas decoram vidas...
Como tu decoras este agradável sitío com música e palavras...

Beijinho*

Maria Laura disse...

As tuas palavras levam-nos pela mão até terras e vidas sofridas, reais. É um verdadeiro prazer ler-te.

Plum disse...

Fico à espera da continuação!***

as velas ardem ate ao fim disse...

Estou sem palavras.Gostei tanto!

bjo

gabriela r martins disse...

há tanto tempo que não te re lia
lia

com a mesma vontade
e
curiosa mente
os teus contos
vão tomando corpos mais fortes

tornando.se menos escritos
e mais contos

de muito bem escrever
e de
muito gosto
de te ler

.
um beijo ,miúda!
[que saudades deste miúda ,acreditas?]

Vieira Calado disse...

Até serve para mim... que já não sou menino...
Um abraço

Mário Margaride disse...

Querida amiga,

Mais um belíssimo texto! Como aliás, nos habituaste.

Boa semana, querida amiga

Beijinhos

Mário

Mar Arável disse...

Este país está demasiado

litoralizado

em tudo

As gentes são sopradas

desertificam-se

bjs