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06 janeiro, 2024


A CULPA 
 V

 Estica-se no sofá meio debotado, forrado de tecido acetinado às listas azuis e amarelas com uns interlúdios dourados, que foram e já não estão. O seu corpo curto e redondo esboroa-se. O calor mais o peso que teima em cair para além da linha reta do sofá ajeitam-se na procura do lugar fresco. Nada. Anda pelos oitenta anos. Viúva. Na solidão dos dias que fez iguais, procura criar afetos de pensamento, procura aleitar sobre o vazio do tempo que fez seu. Maria Salette de Mascarenhas. Misá para as amigas de café, Misá para os primos chegados e pouco mais. Depois sempre foi Salette de Mascarenhas, com dois tês à francesa, como costumava corrigir a quem lho escrevia à boa maneira portuguesa. Misá está naqueles dias de abandono. O calor impede-a de sair, de dar a sua voltinha, do encontro com as suas amigas. O único convívio dos dias que fazem o ano. Os filhos, não lhe prestam a atenção nem a companhia que almeja. A solidão cai-lhe em cima em cada manhã que acorda desde que o marido partiu. Nunca pensou que fosse tão difícil. Quantas vezes, mentalmente, cogitou que a sua viuvez lhe traria a liberdade que sempre desejou, que nunca alcançou porque sempre teve medo de a requerer. Misá já viveu os anos e pouco tragou da vida. Hoje, solitária, tem mais amargura que vida. Nascera na aldeia em casa grande de tempos abastados já idos. Fora a quarta. Dos primeiros anos tem uma vaga ideia suficientemente esbatida para poder recriá-la em quadros mais vividos e de acordo com as necessidades sociais. Fora uma criança infeliz, agarrada às saias da mãe, medrosa e desapercebida. Anos mais tarde, sempre que sentia a amargura roer-lhe as entranhas, recordava sempre a imagem. A infância e juventude foram vividas com os padrinhos-tios A tia, mulher amarga de feitio e de casamento, o tio de melhor coração, mas de sentidos embotados. Fizeram dela o escape dos seus equívocos. Cresceu entre o medo e a quimera do amanhã. Não foi feliz. Nunca o foi. Se por culpa dela se por culpa da vida. Sempre medrosa, sempre contraída, sempre à espera do encantamento. Ele veio quando tinha dezassete anos. Encantou-se de tal forma que acreditou que tinha a vida aos seus pés. Puro engano. O engano que sofreu quase toda a vida, foi tremendo. Enganou-se no amor, na vida, no tempo e até na forma dos afetos. Misá, ainda hoje, vive dividida entre aquilo que teve que fazer por imperativos da moral, o que queria, o que gostava, o que sonhava e a realidade, que não conseguiu aceitar como sua. Tentou sempre dobrá-la ao imaginário, todavia, esta, qual fio de arame forte, nunca se vergou. Os anos deslizaram por entre dunas condenadas de sonhos e desejos. A velhice chegou lado a lado com a solidão. Foi tempo de ver os retratos esbatidos ou ainda vividos da sua vida. A uns esbateu-os mais, a outros acrescentou-lhes a cor da imaginação.
 Uma vez mais, a verdade ou realidade, não resultou igual, mas é a sua. Uma vida perdida, irreconhecível de afetos e áspera de desejos. Em cada manhã há um ato de sobrevivência. Levanta-se, come, faz a sua higiene, veste-se, sai, conversa, regressa a casa, vai ao cabeleireiro, encontra-se com as amigas, vai às compras, regressa a casa, come, deita-se, vê televisão, conversa muito ao telefone, e entre os espaços da sua rotina faz da irrealidade a realidade dos seus dias.  Sente-se particularmente útil quando tem os netos mais novos por perto, porque tem um objetivo para passar o dia. À noite quando se estende no sofá procurando afanosamente canais que lhe encham o tempo, vai no entrementes recordando a sua vida. Tem de si uma opinião superior. Foi uma boa mulher, uma boa mãe, é uma boa criatura. Revolta-se por não ser apreciada de acordo com a sua própria imagem, revolta-se, porque se gastou na vida por amor dos outros, e nunca ninguém a soube querer. O marido que a trocou por outras mulheres, que a fez passar por dificuldades, que a menosprezou intelectualmente, como se ele fosse alguém douto, que apenas viu nela a mãe dos filhos, para ter alguém que lhe cuidasse da casa. Hoje, viúva apesar da solidão que a envolve, a sua vingançazinha consiste em destacar-lhe os defeitos, os grandes e os pequenos, como se isso a consolasse. A verdade é que Maria Salette sempre foi uma pessoa insatisfeita. Nunca amou o que teve, achando sempre o que os outros tinham, era o que lhe faltava. Sempre se achou bonita mais do que as outras mulheres. Na verdade, a sua beleza sempre foi vulgar, bonitinha para o seu tempo, mas nada mais do que isso. Não foi uma mulher que se destacasse por outros atributos senão o de um rosto engraçado próprio de uma jovem senhora. Nunca houve alegria nem espírito que perpassasse, dando-lhe vida. Viveu e vive sempre contraída na defensiva. É sofrida e infeliz. A vida dos filhos ocupa-lhe a mente. E provoca-lhe inquietação que se junta à sua eterna instabilidade. Gosta de se rever neles, apesar de não concordar com os seus modos de vida. Se ela pudesse, eles continuariam a obedecer-lhe, mas não pode, o que lhe causa um certo acre de boca. Ama o seu cantinho, no entanto sempre que lhe pedem para tomar conta dos netos mas novos, aí vai ela. Ao ser prestável faz o seu ato de amor porque os gestos não sabem, as palavras ainda menos que |se lhe tolhem na boca, as doces, porque as ásperas deita-as com força sempre que a contrariam, assim vai a sua razão. Dos filhos, três são seus, são a sua imagem, a outra é tão parecida ao pai, lembra-lhe sempre o azedume misturado de amor que sentiu toda a vida, enquanto ele foi vivo e a revoltou sem ser capaz de o enfrentar para além das palavras. As suas escolhas somente refloriram após a morte do marido, porque o medo dobrou-a sempre. Habituou-se desde cedo a controlar na retaguarda, e à medida que o marido foi envelhecendo foi tomando as rédeas, de manso, de mansinho. Controlo. Adora controlar, adora ser o alvo das atenções. Sempre adorou, e hoje, é patente que uma das suas desforras é poder ser a única senhora das atenções, sem ser relegada para segundo plano como em vida do marido. Quando pressente que a atenção dos filhos diminui, o fator saúde e doença é imediatamente acionado. Mais vale um pouco de comiseração do que esquecimento. O seu passatempo preferido é recordar.
 Reviver o passado e, por vezes, verificar, que a vida poderia ter tomado outra estrada se as escolhas ou mesmo as palavras tivessem sido outras. Já é tarde. Neste exercício de impossíveis passados estiola muito do seu tempo que rouba à solidão dos dias. 

VI

 Hoje tal como ontem os gritos originaram mais uma querela. Tem sido assim ao longo dos anos. Manuel, o marido, é um ser difícil. Um individuo cujo humor é semelhante aos dias. Tem uns, em que se alaga, tem outros, em que se confrange. Entre uns e outros fica aquele período difícil no qual é quase impossível falar, pois que os gritos e o mau humor são uma constante. Não aceita que o contradigam sobretudo quando se fala sobre o meio rural e a sua dificuldade evolutiva social. A ancestralidade rural põe-no sempre em defesa. É como um caracol que ao toque se fecha na sua casca, assim é com a diferença que enquanto as antenas do caracol continuam macias, Manuel sem as ter, exibe-as virtuais, acutilantes, veementes e defensivas. Sempre que o seu mau feitio se interpõe à clareza do raciocínio, Manuel torna-se compulsivo em má educação. A ancestralidade aflora-lhe o espírito e dele faz capa de imediato. A bestialidade oral e gesto tornam-se a sua defesa. Desconheceu-o durante muitos anos. Tomou-o como uma pessoa de génio controlado com espasmos episódicos, a vida, no entanto, encarregou-se de o mostrar tal como é. Evita falar da sua infância e juventude, aliás esconde-a. Manuel foi uma criança de medos. A necessidade de afeto foi sempre marcante na sua vida. Gostava que gostassem dele, que o rodeassem, chegava a dar os brinquedos, os poucos que possuía, para ter meninos junto dele. Em casa, a mãe silenciosa no ramerrão da lide caseira jamais lhe prestou a atenção que carecia, e nem tão pouco o carinho que necessitava. — Nelo vai tomar conta da tua irmã! Nelo, vai estudar, Nelo vai depressa à mercearia do sr. Edgar buscar um quilo de arroz, depressa, avia-te. Nelo vai… vai… vai. E o Nelo ia. Bem-mandado, ordenado, calado e submisso. A escola foi o seu martírio. Detestava-a. Na maioria das vezes não percebia do que se falava. Estava longe, muito longe. Depois as más notas saltavam ao ritmo das cinturadas do pai, quer pela omissão quer pela negação. Pela mentira que escolhia para se esconder. E a revolta nasceu por aquele tempo. Indistinta, casual, mas crescendo mais do que o seu corpo. Estava lá, adormecida porque não sabia ainda falar. Mas estava lá. Os anos passaram. A vida esgueirou-se por entre os tempos. Criou-se — Ó Nelo, então pá, onde estás a trabalhar? — Casaste? — Ah, ainda bem. — Eu? Oh estou bem. Tenho uma fábrica, a minha mulher é artista plástica tem um estúdio em casa e expõe. Filhos? Tenho um casal. Ele está nos Estados Unidos a tirar o doutoramento, ela em Londres, a trabalhar em investigação. É assim pá. E tu? De forma resumida Manuel dá-lhe os parâmetros de vida. Óscar, o colega, olha-o detalhadamente, incrédulo. Na sua mente perpassa a imagem do jovem pobremente vestido, cujo aspeto suscitava as origens sempre a fazer parte de todas as associações de estudante para ter acesso ao que os outros tinham por inerência familiar. Manuel detesta que conheçam os seus pontos fracos, e as suas misérias. Vestir a pele de alguém emprestado pela mente, tornou-se durante muitos anos o seu fato número um. O que dizer de uma pessoa, com um carácter fraco e inúmeros defeitos e que, todavia, é | boa pessoa. Uma contradição poderá pensar-se, no entanto, é esta a verdade. Manuel é emocionalmente instáve. A sua instabilidade levou-o durante muitos anos a viver colado a figurinos. O dia-a-dia não se faz de figurinos nem de cópias. Respirar cada dia é aprender a fazer as escolhas, e na maioria das vezes elas, as escolhas, são puros atos de humildade e esquecimento. Nada tem a ver com imagens retocadas de vidas que não existem, que são apenas relatadas na terceira pessoa porque chegar à primeira é viver e elas, as personagens de figurino, são fictícias. Não vivem, desenham-se. Naturalmente que sempre foi e será mais fácil viver no faz de conta, no limbo entre a verdade e a mentira. Um espaço opaco, porém, suficiente para resistirem. Manuel por ingenuidade ou por falta de caráter acomodou-se na opacidade. Quem o visse nos seus quarenta anos, suporia tratar- -se de uma figura, já que o seu aspeto físico sempre foi muito agradável. A loquacidade, que em breves momentos se munia, pressupunha um indivíduo falador e bem-disposto. Nada disso. Em família, era distante quiçá agressivo logo que contrariado, fechando-se mais e mais em si. Um homem, duas pessoas, uma cara e várias solidões. Ao volante do carro, no desfilar da estrada, com o vento a soprar- -lhe no corpo, quente e suado, sente-se livre, sente que ali existe. O quotidiano da vida, os problemas que não soube resolver, a vida em si, pesa-lhe mais do que o seu próprio corpo e, quando só vê correr o tempo à sua frente numa estrada algures, sente-se feliz. Não tem capacidade de resolução, de firmeza, de decisão. — Se pudesse… se pudesse… eu… Se, talvez fosse a sua divisa. Se isto tivesse sido assim… se eu tivesse tido mais sorte, se, se, se… infindavelmente tem participado da sua vida justificando as situações criadas, muitas vezes por displicência, por ausência de lógica, ou e quase sempre por incapacidade de definição de prioridades. Depois as origens levam-no a ser condescendente com os menos privilegiados em contraponto com a intolerância para os favorecidos. Tem gerido o seu caminho entre compromissos mentais e necessidades anímicas, que na maioria das vezes prevaleceram, deixando ir as oportunidades pelo cano abaixo ou simplesmente perdendo-as de vista por inação. O tempo não tem horas sempre que resolve tomá-lo sem ponteiros. Amolece na própria indolência tornando-se irascível quando chamado a atenção. Outras alturas, em que o dinamismo é tremendo querendo fazer tudo, sem horas, de novo. Tem uma tremenda dificuldade em lidar com o tempo e mais ainda com os relógios que não usa. Ama a sua privacidade cuja partilha é um ato que desconhece. Não por mal, mas porque é a sua natureza. O seu íntimo é uma sedimentação de sensações, de ideais, de incapacidades, de vitórias, de atos vividos, por viver, de coisas boas e más. A serenidade dos dias tem que ser o seu caminho, caso contrário, perde rapidamente o prumo entrando em negação. Lidar com obstáculos, não é de forma alguma um ato, é antes de mais, uma violação. Quando estável é doce, mas em tudo retraído. Não existe muita espontaneidade nos seus atos. Refletem quase sempre o medo de não ser bem-recebido, a timidez da insegurança emocional e social. Mas Manuel é, sem sombra de dúvida, um homem interessante e envolvente. O sorriso fácil, o olhar direto e analítico, avaliativo da presa sempre que o género feminino está do outro lado, concedem- -lhe o elogio que gosta. A bizarria do seu carácter advém da dupla forma de estar na vida. Uma forma fechada, algo acre para casa, outra cativante para os de fora. Clara conhece-o bem, tão bem que na maioria das vezes até consegue saber o que lhe vai no espírito por um simples olhar, por um silêncio, por um trejeito. É um ser simples movido por impulsos   mais do que pela mente, o que lhe acarreta muitos dissabores no mundo atual. Embora passe por ponderado não o é, relativamente às suas opções. A liberdade em espiral de movimentos, de escolhas atrai-o de forma irresistível. Não sopesa as sequelas e estas, na maioria das vezes, tornam-se avassaladoras. O dia decorreu normal até ao suceder uma pequena pergunta sobre um gasto. O dinheiro, algo que põe Manuel fora de si, particularmente quando se lhe pergunta sobre esta ou aquela despesa. Manuel não gosta, aliás detesta prestar contas, mostrar contas. Tem sempre o pressuposto que se desconfia dele. Não se percebe de onde lhe advém semelhante conceção. Mas em mais de um quarto de século de casamento, Clara, nunca soube como o marido geria o seu dinheiro sobretudo nos tempos de abundância. A necessidade compulsiva de esconder as contas tem causado dissabores e muito afastamento. Manuel é incapaz de enfrentar a verdade. É incapaz. Esconde, mente e nega. Foi sempre assim, quando está em falta é patente a sua inaptidão em assumir-se, esconde-se, dribla-se a si próprio. Mais tarde, quando a verdade vem ao de cima, embora óbvia, a negação continua a ser uma defesa. Só depois é que assume, quando as evidências são tão contundentes, que já não existe espaço de fuga. O seu rosto, por esta altura, pinta-se de uma autocomiseração como se fosse a grande vítima, como se a vida lhe fosse madrasta. Clara tem a certeza, ou pelo menos assim o quer acreditar, para o bem de ambos, que Manuel é um indivíduo algo, como diria, algo inconsequente. Não mede os efeitos dos seus atos, não avalia os resultados dos seus disparates. Acredita que as coisas escondidas não vêm à tona. Vive numa dualidade entre enfrentar aquilo de que tem a plena consciência que fez mal e o dia-a-dia em que se passa pelo que não é. Hoje, como ontem, o mau humor rebentou e os gestos mais do que as palavras, pois que é bastante parco nelas, esmagam o ambiente. 
A violência rebenta-lhe nos poros. Clara deixa-o, e a resmungar a meia-voz vai dizendo: que devia estar fora de si quando o conheceu ou então que ele a ludibriou com falinhas mansas. Senta-se no seu quarto e remói a vida, tantas vezes o fez, que chega à conclusão, de que já não há muito para remoer. A tarde vai caindo, a escuridão veste a casa. Depois, a inação toma conta de ambos. Um no quarto, outro cá fora no jardim. Por fim, Clara, e sempre Clara, levanta-se e procura-o. Tenta falar-lhe. De início o silêncio, o eterno silêncio. Não quer responder, não quer, não gosta. Assim em silêncio enfrentam o resto do dia. Não vale a pena. É igual a si mesmo. Amanhã o muro já terá brechas e a vida continuará. Naturalmente que poderá ser um dia feliz e alegre, como evenualmente poderá haver outra recaída. Os dias são assim. Manuel é assim. Foi há tanto tempo

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