Quem sou eu

Minha foto
Alguém que ama a vida e odeia as injustiças

17 março, 2016

Mulheres Com Rosto

VIII
1891
Maria da Nazareth atravessa apressada o pátio de casa. São quase dez horas. Já deveria estar em Runa à quase uma hora. A mãe tinha-a chamado para lhe dar conta dos problemas que estavam a atravessar. A doença das vinhas, o dinheiro mal investido, as despesas quase loucas de João, enfim um todo de desvario que já vinha detrás há muito tempo começava agora a reflectir-se. Chamara-a apesar de ela ser a terceira, pese ser rapariga, pese ter dois varões, pese um sem fim de coisas. Zinha saiu preocupada. A mãe, sempre a tivera como uma mulher objectiva de inteligência viva, agora parecia claudicar perante as dificuldades que se adivinhavam. Na verdade S. Gião era quase um sorvedouro de dinheiro e os tempos naquele ano de 1891 não se avizinhavam nada fáceis.
A morte prematura do pai onze anos antes mergulhara-os numa sonolência que durou quase três anos. O desgosto da mãe fora algo que a marcara. De uma mulher bela e viva tornara-se numa sombra. Mais uma naquele casarão dorido. Os seus cabelos cor de avelã tornaram-se cinzentos, o rosto murchou, os olhos perderam o viço que a tornava tão apelativa num esplendor que causava inveja. Zinha cresceu na tristeza e amadurecendo muito depressa.
Os irmãos eram fonte de mágoa para a mãe. Somente José que ela estragava, pois que apesar das dificuldades que a casa atravessava, nunca lhe negava nada. João vivia em Lisboa numa ociosidade feita ou dita política, gastando, gastando ao mesmo tempo que se enfarinhava nos meandros republicanos. Caetano era a terra, até fisicamente. Um tronco de quase dois metros robusto, erecto. Não era elegante o seu irmão. Era isso mesmo forte, fiável e sisudo. Herdara do avô aquele amor pelo campo. Saía de manhã e regressava ao anoitecer. Era de poucas falas, e quando tinha que dizer algo, as frases eram monossilábicas. Acompanhava os homens no campo, corria as propriedades de ponta a ponta, se necessário duas a três vezes ao dia. Caetano e o cavalo faziam um só. Quando algum moço se aleijava era ele que de imediato tomava o seu lugar na jorna. Caetano fazia tudo isto, no entanto, quando se tinha que sentar e discutir com a mãe ou com o Julião feitor as medidas a tomar ou outras resoluções, ficava quedo e mudo, coçava na cabeça e simplesmente acenava ou emitia sons de discordância. Um simplório assim o via Zinha. José nos seus dezasseis anos deixava já antever o futuro homem. Era extraordinariamente bem-parecido. Sempre fora, aliás ele e Maria de Santo António eram os filhos mais bonitos. A irmã nos seus onze anos revelava já a o esplendor da beleza futura. José preocupava-a. Detestava trabalhar, fazer fosse o que fosse. Era pura e simplesmente indolente. Quem o olhasse naquele seu sorriso sedutor, quem o olhasse mesmo por detrás das pupilas via uma bargantaria que não era própria da sua idade. No entanto, ela estava lá, ainda inconsciente em semi-dormência. Mas o futuro não lhe seria risonho. Tinha a certeza. José era o ponto fraco da mãe. Enquanto com João travava uma guerra dura de palavras, as quais eclodiam permanentemente em silêncios e partidas, José, pelo contrário, fizesse o que fizesse, era sempre desculpado. Zinha não percebia, a não ser pelo facto de, ele ser o mais parecido com o pai, que por sinal se não fora o retrato que estava em cima da mesinha no quarto da mãe, já lhe esquecia as feições. Zinha lembrava-se dele como alguém que vivia junto deles sem partilhar-se. O pai era a sombra da mãe quando juntos, despejavam uma luz que os envolvia. Apenas aos dois. De fora ficava o resto, os filhos e os outros. Depois, assim de repente partiu. Tinha apenas quarenta e cinco anos indo para os quarenta e seis. Não chegou a fazê-los. A mãe ficou louca. Perdeu a razão. Perdeu a vida. Lentamente regressou, mas nunca mais foi a mesma. Eles, os filhos cresceram. Cada um a seu modo, cada um por si. Aprenderam a ser silenciosos, a pensar mais do que falar, aprenderam sobretudo a partirem de si e dali.
Zinha escuta o sino na parede da velha ermida enquanto entra no cabriolet. As terças já são calendas. Dali a Runa é um pulo ao Real Hospital dos Veteranosque a par do hospital das Misericórdias lhe ocupa os dias. Entre o vai e vem dos meses, Zinha sente que a vida escorre depressa. Uma roda em movimento. Sair da casa das sombras é um imperativo. Estar entre e com os inválidos, as crianças e os desvalidos é sentir calor humano, é sentir, que apesar de dorida, a vida ainda existe. A sua enorme fé torna-a piedosa e humana.
Zinha é uma jovem cujo porte a coloca imediatamente no meio de onde proveio. No mundo entre vinhedos que é o seu, seria definida como de excelente cepa. E era verdade. Embora vista a bata branca que lhe tapa o vestido ou a saia de bom corte e segundo os ditames da moda, há nela uma altivez doce é certo, porém distingue-a dos demais. Os olhos vestidos ora de verde ora de cinzento de acordo com os dias e os sentidos estão quase sempre húmidos O olhar é a janela do seu corpo. Nele transvazam as emoções que sentem, misto de determinação e fé.
Quando afaga as chagas, limpa a carne, liga, endireita, lava, cobre e sorri, a sua determinação em minorar o sofrimento está ali, mas a fé também. As suas mãos são a matéria dos seus actos, o amor que elas espalham é a transmutação do afecto que a cinge. Mas todo este caudal ergue-se da invulgaridade do seu carácter. Uma mulher doce mas fortíssima. Um pilar de alabastro.
A mãe não compreende lá muito bem aquela paixão pelos doentes e pelos feridos, pelos desprotegidos, pela miséria humana venha ela de onde vier, não compreende como uma jovem, sua filha, nascida em S. Gião de Entre as Vinhas, e ainda por cima tão atraente gasta o seu tempo entre os enfermos, os pobres e os excluídos.
Para Zinha,a mãe é um símbolo que ela respeita mas jamais adoptará. Um mundo que se está a esboroar. Zinha é jovem mas olha em redor, lê e sente no corpo tanto como no espírito que algo vai mudar. Que uma nova era vai começar. A mãe queixa-se frequentemente que o mundo está de pernas para o ar. Que outrora tudo era diferente, que havia respeito, que hoje os criados não obedecem, que é preciso mandar fazer as coisas mil vezes, que são calaceiros, que querem ser iguais. Ora isso é impensável. Onde é que já se viu uma coisa assim. Ela Maria, filha de fidalgos ser igual à Berta, Piedade, Julião ou outros que tais. Impensável!
Os anos correm velozes. O século está quase a acabar. Um novo virá. Neste advento existe muita esperança, muita coisa por mudar. Zinha vai cruzá-lo com a determinação capeada do amor que a agasalha.
O cabriolet chega a Runa. A alameda que a conduz ao belo edifício está ali mesmo defronte dos seus olhos. Ladeiam-na laranjeiras em flor cujo aroma a envolve à medida que as passa. A manhã brilha sob o sol. Lá dentro a luz despiu-se entre corpos 
Mutilados, rostos vazios, olhares opacos e almas doridas. Homens, a quem a falta de uma perna, de um olho, de um braço contam menos do que a falta do amanhã. Eles sabem que logo a seguir à porta, no primeiro degrau de descida, o porvir escorregou estatelando-os para sempre no limbo da invalidez.
Há um, nestes casos, há sempre um que chama mais por nós, que nos toca, que nos ensombra. Também para Zinha há um. Chama-se Pedro, anda nos seus sessenta e muitos anos. Tem uma bela cabeça. A neve cobriu-o antes de o inverno ter chegado. É branca e brilhante. Pedro é um velhote empertigado na falta da sua perna esquerda. Uma muleta de pau, substitui-a, contudo ele até saltaria para o mundo apenas com essa imperfeição, pequena segundo ele, mas a sua maior dor, são os olhos que se esvaziaram. Não vê o mundo nem as gentes. Ouve e pressente. Conhece os passos de todos, reconhece-os no cheiro que o inunda e lê-os nos sons que percebe. Benedito não tem família. Está só. Não foi escolha, foi destino Fugiu de casa ou da miséria quase criança. Entrou no mundo dos homens pela porta detrás da razão. Conheceu a guerra antes de ter conhecido o amor. Perdeu-se de si muito antes de ter perdido a perna e os olhos. Depois foi no escuro dos anos, entre as paredes do asilo que aprendeu a ser pessoa. Quando em 1829 com apenas dez anos fugiu de casa e correu atrás do rufar dos tambores, não lhe passava pela cabeça que cinco anos depois seria um estropiado. Era ainda uma criança. Aos catorze anos já uma baioneta lhe vazara os olhos e a pólvora lhe arrancara uma perna. Como é que um garoto de catorze anos lida com cenários de morte?Não lida, simplesmente deixa correr, encolhendo-se aqui, abrigando-se ali, tremendo agora, vomitando depois, e no fim do dia esperando sempre pelo caldo. A razão? A causa? O fascínio da batalha que sempre entrapou a imaginação de feitos. Depois, por outro lado, a barriga vazia, os pés rotos de sapatos, o ranho seco no rosto, os andrajos que mal lhe cobriam o esqueleto magro tinham-no empurrado. Correra atrás dos tambores em passos trémulos de criança. Engodado, vira-se vestido e na barriga um caldo aguado mas quente. Sonhos de um presente sem seiva de futuro.
Cruzou veredas, ribeiros, caiu, levantou-se. Enlameou-se, rasgou-se mas o caldo aparecia. Havia barulho, havia riso, havia uma espécie de afecto dos outros. O Cabo protegia-o. Chamava-o para perto de si. Ia-lhe dando uns bocados de peixe seco e uns naquitos de pão. E ele sorria feliz. Tanto! Nunca tivera tanto! Passava-lhe a mão na cabeça que recomeçava a cobrir-se de negro. Pedro acreditava que era feliz. Tanta afeição!
Mais tarde em Maio a dezasseis, ao despontar do dia quando a bruma ainda se espreguiçava, os canhões troaram. Ele não participara no ataque de cavalaria. Era bom de ver. Mas aqueles bravos galoparam para a morte. Hoje pensa que o sabiam. Santa Cita, a aldeia fora arrasada e na charneca o fumo era tanto que parecia que ardia é então que o general Guedes de Oliveira mandou avançar com a cavalaria comandada pelo oficial francês Puisseux, um homem alto e de rosto traçado por uma cicatriz que lhe rouba qualquer sorriso aberto. A vitória parecia então pender para os miguelistas, tanto que os Lanceiros da Rainha tinham já retrocedido, no entanto, depois de tanta refrega e de terem atingido o alto da colina, vêem mesmo a seus pés, lá em baixo, formados em linha, os soldados do coronel Vicente Queirós. As salvas disparadas numa sucessão asfixiante feriram mortalmente os camaradas e sobretudo Pussieux A partir dali, os liberais tomam o comando da refrega. Cabe-lhes capitular. A charneca cheira a morte, ele não viu o resto porque foi por ali que tudo ficou negro. Um balázio entrara-lhe na cabeça, outra rebentara-lhe uma perna. O cheiro do sangue quente, a molhar-lhe os sentidos foi a sua última memória daquele dia. O resto foi o silêncio.
Acordou num dia sem data nem cor. Antes houve espaços com vozes, houve espaços de movimentos, no entanto a memória é fugaz, algo muito, muito longe. Registos breves sem sulcos. Quando despertou do mundo da morte, não viu contudo ouviu. Não estava na refrega. Não estava na charneca. Havia outros sons. Percebeu que estava noutro mundo.
As vozes eram mais macias e as mãos que o tocavam possuíam leveza mitigando-lhe o ardor que lhe roía o corpo vindo da perna. Era um o calor imenso molhando-o de suor,roubava-lhe a respiração e as dores faziam-na latejar de tal forma que a sentia enorme e pesada. E ele sem saber que já fora amputada. Tentou chegar-lhe, tentou mas não conseguiu. Depois a escuridão, sempre a escuridão. Deitou as mãos aos olhos. Uma enorme venda tapava-os. Tentou puxar o tecido. Alguém impediu, agarrando-lhe firme mas suavemente as mãos. Falaram-lhe, muito, embalado voltou a dormir.
Durante doze anos penou aqui e ali. Foi um tempo amargo. Tão penoso, que nem sequer, gosta de os recordar. Mas chegou o ano de 1846. Rememora quando aqui chegou
Ouvem-se as vésperas. Zinha arruma as últimas ligaduras, ajeita os cabelos, alisa o avental branco, lança a capa pelos ombros e faz a sua última ronda. Tudo parece em paz. Não teve tempo sequer de trocar umas palavras com Pedro. Foi um dia particularmente cansativo. A doença, quando chega, ataca tudo e todos. E eles são tão frágeis.
Percorre o corredor que a conduz ao edifício central, à igreja. Ali encontrará Pedro pela certa. Embora seja muito piedosa e crente, este lugar causa-lhe um arrepio. É austero. Tem demasiado mármore para seu gosto. Apenas a cúpula que se abre sobre a nave devolve-lhe a luz do sol, inundando os nichos de mármore a entornando um pouco de cor ao lugar. Pedro, apesar de cego é o sacristão. Vive entre os altares, os santos, cálices e missas. É um bom homem. Doce e todavia firme como um rochedo. Sabe-lhe bem aquele interlúdio de meias palavras, meios silêncios. Um pedaço de alimento para o espírito.
Entra na igreja, genuflecte rapidamente benzendo-se e olha em redor à procura do sacristão. Não o vê.
-Deve estar pela sacristia - pensa enquanto se encaminha para a esquerda do altar.
Empurra a pesada porta de carvalho que se encontrava entreaberta. Sentado numa cadeira Pedro polia um cálice com toda a perseverança e amor que as suas mãos gastas conseguem.
-A menina Nazareth! Já sentia a sua falta!
- Pedro estás aí na escuridão, porque é que não abres a portada e deixas entrar o resto do sol?
-E que mais faz? Com luz ou sem luz é sempre igual…. Ai menina, ai menina, até se esquece.
-Claro que não me esqueço, claro que não é a mesma coisa, o sol aquece Pedro e isto está um gelo.
-Nem senti menina, tenho tanto que fazer.
-Pois, pois. Amanhã vais dar uma volta comigo pela mata. Precisas de apanhar um pouco de ar e temos que por as nossa converseta em dia. Há algumas coisas que te quero contar. Hoje já é muito tarde e tenho que regressar a S. Gião. Mas amanhã já sabes.
-Está bem menina Nazareth. Eu nem sei como seriam os meus dias sem a menina.
-Ora deixa-te disso.
Zinha afaga o rosto do ancião e aperta-lhe a mão com carinho. Depois dá meia volta e dirige-se para a velha porta.
-Até amanhã meu amigo.
- Até amanhã menina.
Já cá fora desce apressada os degraus, senta-se no cabriolet, segura nas rédeas pondo-se em movimento. Um acto que gosta de fazer. Ter nas mãos as rédeas, conduzir suavemente o seu próprio destino é algo que a apazigua.

. .

13 março, 2016

Mulheres Com Rosto



VI
No velho pátio que adorna a cozinha, Berta pára de cegar as couves. Sentada no banco tem no regaço vestido de cinzento, o velho alguidar de barro. As pernas cansadas e balofas estão abertas para fazer o colo ao vaso O rosto redondo descansa num olhar cansado de lides. As mãos gretadas de unhas quebradas, arroxeadas do sabão e das águas dançam lestas o bailado do vai e vem. Uma volta redonda, e mais outra, e outra ainda. Uma dança simples, leve, contudo precisa no seu traçado. Os fios verdes caem no vidrado do barro e cheiro a couve fresca enrola-se nas narinas. Endireita ascostas, olha em frente, murmura algo inteligível e recomeça o seu baile de mãos.
Serve naquela casa já vai para um ror de anos. Não sabe quantos anos tem, dizia-lhe a mãe que nascera no ano da grande festa em Lisboa. Berta cresceu, começou a trabalhar ainda bem pequena. Depois viu os meninos crescerem, partirem, casarem. Viu tanta coisa. S. Gião faz parte dos seus ossos. Noutros tempos era uma casa de risos. Não havia silêncios. Os senhores iam e vinham entre a capital e a casa. As crianças por ali ficavam, pulando os dias. Hoje, Berta abana a cabeça, as sombras tomaram conta do lugar. Dona Mathilde é uma tristeza. O Senhor sempre vermelho de ira. Brada com todos. Anda sempre num desatino. O menino com quem ela andou ao colo perdeu-se entre o Sisandro e o Carvalho. Talvez ao descer a encosta ou ao subi-la. Quem diria que aquele jovem tão alegre, tão amigo das suas gentes se tornaria naquele homem amargo? Quem pensaria que o jovem arroubado de encanto por Dona Mathilde viria a desprezá-la? Aquela casa perdera o sino do bom senso, oh se perdera! Quem o dizia era ela. Os seus olhos já tinham visto muito. Oh se tinham.

Os anos não tinham sido doces para a casa nem para as gentes. Havia um quase prenúncio de desgraça. Ela, Berta de Jesus, sentia-o no ranger dos ossos. A maldita dor que lhe tolhia os gestos. As cruzes que a faziam entortarem de dia para dia. Um calvário constante que a massacrava não só no corpo como na alma. Eram as dores da velhice, diziam, porém Berta sabia que era o sofrimento dos tempos que vivia.
Berta casara com Julião. Casara, não, juntara-se. Que mais dava? O padre também  não lhes dera a bênção. Fizeram o mesmo do que os outros. Tiveram filhos e baptizaram-nos. Fora a única vez que o padre torcera o nariz, mas a Senhora pusera os seus bons ofícios a correr e o Padre Inácio lá botara a água benta na moleirinha dos ganapos. Cresceram, fizeram-se gente, arranjaram bons homens e mulheres, trabalhadoras como companheiros e partiram. Todos, menos a Rosa. Fora a mais fraquinha, doentinha, assim quase meia atoleimada. Uns dias estava com o prumo certo, noutros, Jesus, a coisa andava num desinço que até fervia a alma. Muitos cuidados lhe dera a rapariga. Sempre assim num ora que vai, ora que vem. Apareceu-lhe prenha, ainda hoje não sabe quem foi o estafermo. Mas Santo Deus, o que é que se esperava. Coisas da vida. A Rosa também tinha as suas quenturas e prontos. Nasceu Julião. O rapaz não saíra à mãe, na Senhor. Era fino como um raio e de resposta afiada. Devia ter puxado ao tratante do pai. E não é que até lia? Ela nem gostava que os outros soubessem. Havia coisas que a gente não devia dizer. Podiam trazer desgraça. Berta tinha visto e ouvido tanto, que o melhor era mesmo ouvir e calar, pois que se Deus Nosso Senhor tinha dado dois ouvidos e só uma boca, Ele na sua sabedoria lá sabia o que fazia. Mas o seu Julião, afinal era quase seu, fora ela que lhe limpara os cueiros e o criara. Coitada da sua Rosa que à medida que o rapaz se fazia gente, atoleimava-secada vez mais. Quanto ao Julião andava meio enviesado. Não falava, mastigava as respostas, cuspia palavrões, trincava o sorriso e bolçava rancor. Não sabia o que se passava. Dera em sair à noite. O rapaz ainda ia nos quinze anos, espigados, era verdade, porém já se julgava um homem. Berta já antevia sarilhos. Cheirava-os, pressentia-os. Chiavam-lhe nos ossos. O seu Julião ia arranjá-los, uma certeza que lhe roía o corpo.
Poisa o alguidar no chão deitando o olhar para o vazio do pátio. As sombras da noite já dançam por entre as vinhas do outro lado. Chegam-lhe aos ouvidos sons de vozes. Não consegue distinguir o que dizem. Os anos roubaram-lhe o ouvido. Espreita por entre as telhas do beiral e apercebe-se da hora. Daqui a um bocado é hora da ceia. Vêem dos campos. São as vozes que caminham para ali. Há que despachar.
VII

Maria da Nazareth olha espantada para aquela coisa que está ali nas mãos da ama. Mexe-se e grita. Guincha. Dizem-lhe que é a irmã. Que tem uma irmã. Não acha lá muita graça. Mas Zinha não pergunta, para quê? Já sabe de antemão que vão entretê-la com parvoíces. Como se ela acreditasse nas coisas que lhe impingem. Basta olhar em redor, para a gente da casa, para quem gira por dentro e, quem anda por fora, para aprender muita coisa, aquilo que não se fala.
Olha para o embrulho de lã que baixam à sua altura. Vê uma coisa vermelha de punhos fechados. Olha-a bem e ,de repente o embrulho esboça um trejeito, chamam-lhe sorriso naquela boca escancarada de dentes.. A velha ama fica estarrecida e titubeia:
-Ai menina, ai minha rica menina, que esta criaturinha está a rir para si!
A ama, rapidamente, voltou a tapar o novelo e recolheu-se ao quarto.
Zinha dá meia volta, olha o para os pés unindo simultaneamente as pontas dos sapatos num triângulo e, depois com um salto bate-os um contra o outro. Fica direita, estática. Rebola a cabeça num carrossel de ideias, ergue os braços para um sítio que só ela sabe. Toma a direcção da cozinha., contudo já a meio, dá meia volta e corre para o outro lado da casa, cruzando a sala e o corredor numa correria ruidosa. Pára ofegante na porta alta de madeira creme no fim do corredor. Bate timidamente. Nada. Bate de novo.
Escuta a voz melodiosa da mãe:
- Entre.
Estremece.Está zangada. Sente-se roubada. Tem vontade de dar meia volta e fugir dali. Rosada de rebeldia, abre a porta entrando no quarto. Na cama, semi-deitada, está a mãe. Os longos cabelos cor de avelã chispam as centelhas da tarde. Branca, e com um ar cansada mas sempre sorridente, a mãe olha-a. Sente-se mais pequena ainda. O olhar da mãe sempre a perturbou. Lia-a em todas as linhas do seu livro de vida. Não valia a pena rasurar ou apagar A mãe já tinha lido. E uma vez mais a mãe lera.
-Sim, Zinha é a tua irmã. Não é perfeita? Pareces tu. Eras assim.
- Eu?
Sim minha querida, também já foste assim. Olha, senta-te aqui ao pé de mim.
O convite inundou-a. Tanto que, delicadamente aproximou-se e sentou-se devagarinho encostando-se ao corpo macio. Estava ali o seu princípio. Sentiu. A fúria soltou-se, evaporou-se.
Não falou, não se mexeu. Deixou-se embalar pelo cheiro da mãe, pelo calor do corpo, pela penumbra do quarto, pelo momento.
Não sabe quanto tempo esteve ali. Sobressaltou-se com a voz do pai que perguntava:
- O que faz a pequena aqui? Onde está a Berta. Que venha buscá-la.Minha querida tem que descansar. Está com um ar cansado. Tantos pequenos por aqui. Vá menina levante-se, deixe a sua mãe.
Espera um pouco. O calor percorre-a. O instante foi-se. Levanta-se.
O pai está de pé junto da cama. Pega nas mãos brancas e leves da mãe. Olham-se. Ela sai. Não se aperceberam. O mundo deteve-se ali. O deles.
Uma sensação esquisita inunda-a. Sente-se a mais. Como se fora uma haste fora do sitio do tronco que são os pais. Mergulhada nestes pensamentos, encosta-se a uma parede do corredor, deixando-se escorregar até ficar de cócoras. Ali fica. Não se ouve vivalma. Parece-lhe que o mundo parou. Está do outro lado, onde o nada é o todo.
As paredes brancas reflectem o amarelo do sol. Na mesa a toalha alva adorna-se de pratos e copos. Há flores nas jarras. As pratas reluzem. A grande sala de tábuas corridas e janelas levantadas enche-se de sorrisos e conversas ligeiras. Gestos doces de uma manhã de baptizado. Maria de Santo António já é uma alma cristã. 
O cheiro a canja, misto de gordura quente e carne, espalha-se pela sala à medida que as terrinas chegam.
Maria de Santo António faz a sua entrada triunfal. Nos braços da velha Berta bem engomada e brunida. No alto do carrapito cinzento e branco a touca dança-lhe ao sabor dos passos seguros.
-A nossa menina!
Rápida D. Luísa, a madrinha, ergue-se e toma-a entre os seus braços. Embala-a suavemente. Olha-a. Um botão de rosa feito gente. É isso. A menina é perfeita e linda. – Maria esta criança é linda! -diz
- Obrigada, minha amiga.
Dona Luísa percorre o espaço da mesa para a janela. Afasta o xaile e Maria de Santo António resplende no seu branco. Um botão-flor. A luz de Setembro inunda-lhe as feições, um instante glorioso de luz e vida. Dona Luísa profetiza:
 -Vais ser uma beleza.
Ao som das palavras a pequena esboça um trejeito, um quase sorriso que lhe levanta deliciosamente as comissuras dos lábios.
-Oh, oh, Santo Deus, a menina está a sorrir.
Dona Luísa fica perplexa. Olha-a, ergue-a, avalia-a e rende-se ao encanto daqueles dez vinténs de gente. Momentos liquefeitos de amor.
Depois recompõe-se Olha em redor. Chama a velha Berta com um simples olhar e entrega a preciosa carga. Suspira.
A tarde diluiu-se entre o assado, o arroz-doce, o vinho, as castas de entre vinhas sempre apaladaram as conversas e amaciaram as vontades entorpecendo os sentidos.
O entardecer chegou. Logo se acenaram as despedidas, os beijos, os obrigados e os convites para próximas soirées. O deleite da companhia no encanto daquela família.
Quando o último partiu, Caetano cambaleando sentou-se descaído no velho canapé de palhinha, desapertou o colarinho engomado, desabotoou o colete.
O remanso da noite e da casa envolveram-no. No pensamento meio enublado de cansaço e vapores etílicos, o mau estar que o vem tomando fá-lo fechar os olhos, e deixar-se ficar naquela modorra que rapidamente o conduz ao sono. Queda-se ali Uma mão engelhada cobre-o de uma manta, ajeita-lhe a cabeça sobre uma travesseira doce e sai de mansinho tal como de mansinho entrara e se ajoelhara.
Do outro lado, na dobra do corredor, a cozinha ainda respira os cheiros do dia. Sentadas em redor da mesa, Berta, Lela e Rosa conversam o dia. Os vestidos das senhoras, os sorrisos malandros dos senhores, as correrias dos rebentos. O baptizado, enfim. Um dia para recordar. Naquele dia a alegria tinha dançado na casa.
Os homens vestidos nos seus jalecos domingueiros continuam de copito na mão num jogo entaramelado de vozes, a recordar uma melopeia de agudos e graves em carrossel de feira.
Alguns levantam-se cambaleantes dizendo:
- Uma última saúde á menina!
Os caixotes arrastam-se na medida perfeita das botas. De novo os copos mascaram-se de tinto e levantam-se unidos.
 -Á saúde! - Exclamam
O silêncio vai-se deitando com a noite já quase abotoada no lençol das estrelas.
Amanhã será outro dia.
. .

08 março, 2016

Mulheres com rosto



IV
- Ó menina, por amor de Deus venha para dentro, se a senhora sua mãe a vê nesses preparos inda se zanga.
-.......
 -Menina, menina, não me ouve? Ponha um chapéu ao menos.
E Lela enrola a ponta do avental meio sujo num triângulo por ser, desata o velho chapéu de palha dirigindo-se para o outro canto do pátio, onde Zinha se debruça sobre não se sabe bem o quê.
- Não me ouviu? Vá lá, ponha isto na cabeça. Já viu o sol? Ai se a sua mãezinha a vê. Porque é que não descansa como toda a gente da casa?
- Já sabes que não gosto!
- Pois isso… E entre dentes vai dizendo para si: “Ai se fosse minha filha…” porém responde:
-Ai a menina Zinha não devia estar aqui, é isso que lhe digo, vá para dentro que este sol não é para andar cá por fora. Mais a mais uma menina da casa.
- E depois? Ó Lela eu não quero descansar., que coisa.
-Mas não precisa, vá para dentro, com tanta coisa bonita lá dentro, pra qé qanda cá fora, neste calor e neste sol. Ainda fica com algum mal de cabeça…oiça o qu’eu lhe digo. Vá por mim.
- Já disse que não vou.
-Prontos, prontos. Então venha pró pé de mim. Ali prá sombrinha. Estou a debulhar o feijão. Sempre vê.
- Ó Lela, eu também vou debulhar.
-Ai, p’la sua santa saudinha.’ Teja queda. Senão inda oiço das grossas. Isso é lá coisa prá menina!
-Ora ninguém vê…
-Vejo eu...e. ós depois….Valha Deus, atão na querem lá vere…Na…na…
-Já disse, eu também vou debulhar!
-Ai que danadinha… ai, ai… tá bem, na há vivalma. Mas logo que comece a bulir a menina sai daqui. Oiça bem o qu’eu lhe digo. Na quero ouvir sermão, percebeu menina? Cada um no sê lugar, é assim cá prá gente.
- Está bem Lela, está bem. Cala-te que ninguém vai saber. Estão todos a descansar. É a sesta.
-Seja, atão venha lá e na suje essas mãozinhas, veja só…
-Eu também quero debulhar.
- Ora, ora, isto só a mim, c’os diabos…! Valha-me Sto Antoninho…
- Escusas de estar para aí a resmungar. Não vale a pena. Deixa-me sentar ao pé de ti.
A velha Lela escuta aquelas palavras vestidas não sabe bem de que doce e o coração logo lhe amolece. A rabugice anterior dá lugar a um sorriso amplo e desdentado mas tão rico de ternura que tudo mais se esquece. Zinha dá-lhe a mão assim suavemente. Aquele momento de ternura fugaz depressa se solta.
 O silêncio senta-se entre elas. Para quê palavras, se já tudo foi percebido? A velha e a criança. Dois mundos, dois tempos duas vidas.
V
Do lado poente uma porta abre-se. No varandim um homem debruça-se. Quem o olha, apercebe um olhar cansado, melhor entediado. O tédio aliás reveste-lhe o semblante. Um todo cromático de castanhos como se fora já uma sépia mas viva. Castanho e bege. Caetano expele uma baforada logo os dedos esguios e alvos seguram a cigarrilha com a displicência de um hábito corriqueiro. A outra mão ergue-se cofiando o bigode quase loiro senão fossem as sombras castanhas. Semi-cerra o olhar azul e entra na penumbra do escritório. Uma grafonola debita os sons arrastados de Rigoletto. O tom plangente do melodrama fá-lo sorrir levemente nas comissuras de uns lábios cheios. Senta-se na velha poltrona. De novo a cigarrilha e o fumo que se eleva em elipses abertas. O silêncio forra o lugar. O pesado veludo isola os sons exteriores. Ali a vida é um segmento. Porém a sépia de Caetano estende-se entre os vultos de sombras. Alimenta o seu espírito e despe a mente. É ali que tudo começa.
1848
José  faz estalar os suspensórios naquele jeito altivo. Olha em redor. Sete cabeças olham-no sem pestanejar. Azeviche e ouro. Sãos os sete filhos. Bela prole. Esperam que se sente para começarem a almoçar. Mathilde já sentada olha vagamente para os filhos. Matilde está sempre ausente. A sua mulher vive noutro mundo. Enfim. Ele não. Ele é presente. É o senhor do seu espaço, da sua casa, das suas terras. Ele manda, os outros obedecem Seguro decide sem titubear Sabe exactamente o que quer. Sempre soube. Não existem franjas de dúvidas no seu dia-a-dia. Logo a indecisão de Matilde sobre os assuntos mais comezinhos quase o enlouquece. Epiphânio gere, dirige, manda e domina a casa grande. Temem-no, sabe-o. Os criados andam ligeiros à sua frente, não levantam os olhos. O gozo do mando. Não lhe passa pela mente que por detrás existe um ódio visceral. Está-se borrifando. Por ora e enquanto puder, Epiphânio é, e será, o senhor. Depois são gentinha sem rei nem roque. Só trabalham quando lhes mandam. Só produzem quando se anda em cima deles. Não pensam, obedecem. Para Epiphânio o trabalho é algo sagrado mas desde que seja ele a mandar. Vem-lhe da terra, que ele venera, esse poder sólido e agreste. É nos campos húmidos ou secos que sorve a força do seu corpo.
Junto à entrada do seu casal existe, um velho carvalho, secular, robusto, guarda fiel do tempo. Para quem chega é o símbolo da casa, do carácter da gente. O carvalho frondoso e altivo. A terra e o espírito. Uma inquietação perene. O carvalho de S. Gião possuía um tronco curto mas tão musculado que infundia protecção e sobretudo respeito. Naquelas tardes vazias de verão, a sua sombra mitigava a canícula e embebedava o espírito. A sua copa era verde como os olhos das mulheres. As folhas dançavam suavemente numa brisa soprada de carícia. E as mulheres da casa largavam os seus recantos e sentavam-se sob o carvalho. Os que vinham de fora, também paravam sob os seus ramos antes de tocarem a sineta.
Quando se dobrava a esquina e se vislumbrava o velho carvalho sentia-se a alma da casa e então dizia-se: “Chegámos”! E assim foi durante quase dois séculos.
Depois um dia, a gente partiu, todavia o carvalho ficou, e ainda hoje a sua copa acena a quem passa.
Epiphânio senta-se no topo da mesa. Deliberadamente olha em redor de forma cáustica. Sentir o temor da prole é quase o preliminar da refeição cujo cheiro já lhe palpita nas narinas. Vem da cozinha mesmo no fundo do corredor. O cheiro da sopa alaga-lhe o estômago e amacia-lhe os sentidos. Humedece. Pigarreia.
– Rita, minha filha, porque é que não foi receber a minha bênção esta manhã?
-Meu Pai fiquei com a Senhora minha mãe que se sentia indisposta.
- Ah!
Olha demoradamente para Mathilde no topo da mesa, perscruta-lhe e olhar e pergunta-lhe?
- Como vai, minha amiga?
Mathilde pálida e ausente rebola o olhar até o fixar em Epiphânio. Não percebeu directamente a pergunta. Aliás nunca o entendeu muito bem. Tartamudeia umas sílabas que soam:
- Bem, estou melhor.
Mergulha a sua atenção na parede. Naquela que se ergue mesmo defronte, e onde uma porta aberta deixa antever uma pequena salinha. O seu olhar poisa algures no vazio. Sente-se escorada. As paredes ausentes devolvem-lhe a segurança ao espírito errante. Ao redor os filhos olham-na. Caritas ausentes de calor materno e acanhadas na rispidez paterna. Olhares claros e escuros semi-obscuros de amor. Todos os dias a cena repete-se. Logo, logo, o pai vai-se levantar, retirar-se, a mãe vai sorrir meio aérea, em seguida, num gesto lento e dorido, levantará a campainha de prata. A fiel Bina virá, pegará nos mais novos que no meio de risadas e afagos deixarão a sala. Mathilde sorrirá lentamente depois com gesto senhoril, pegará na saia que flutuará em redor do seu corpo como se fora uma copa em murmúrio de vento. Eles, os mais velhos, irão escapulir-se acendendo os seus recantos, irão correr por aqui e ali, irão gastar o tempo dos dias, a noite virá, o dia irá acordar de novo, e assim sucessivamente na memória da casa.
Caetano, o quinto na prole de oito, o varão pese as três primeiras, pois que António e, o segundo, falecera, e Maria a terceira também, é sobre quem recai mais a atenção do pai. Questão de varonia. Caetano é um belo rapaz. Da mãe herdou a beleza bem como o carácter. Vive acordado dormindo no mundo por chegar. Detesta a força do pai, o amor à terra, o cheiro dos tonéis, a força do vento e o cheiro do estrume. Caetano é São Gião mas em aguarela. Caetano adora os livros, a música, os passeios. Caetano ama as coisas belas e detesta a verdade da vida. Caetano é um solitário. As irmãs, Rita, e Carolina estranham-no, porém respeitam-no. Não possui laços, um solitário. Os mais novos, são ainda crianças.
Caetano olha de soslaio para a mãe. Uma criatura nua de amor. Tudo nela rescende a vazio. Não há vida. Somente a forma. Lamenta-a. Passar pela vida assim. Raramente a vê sorrir, sempre marmórea. Até o toque é gelado. Um ser glauco. As crianças sorriem-lhe de fugida, o pai olha-a como ser menor. Ele que é tão dominador, tão imponente, dá-lhe pouco mérito. Pensa.
As criadas obedecem-lhe todavia murmuram e dão risadas nas costas. Ele tem visto e ouvido enquanto cresce. Sempre tudo igual. A mãe só tem vida quando os padrinhos vêm almoçar ou seroar, quando vão até à vila e os visitam. Aí a mãe veste a vida. O rosto adquire cor o sorriso vida e o olhar é firme e cintilante. Depois, quando a cena se esvai ela retira-se de novo para o seu mundo que não compartilha. Matilde é mais uma sombra da casa. S. Gião tem tantas sombras, tantas coisas por dizer. Ninguém ousou escutá-las, no entanto elas giram em torno. Caetano por vezes tem a percepção nítida que elas se adensam. Mas cala-se. Há coisas que não se falam, pensam-se.
Já cá fora espreita a tarde com a indiferença das horas por vir. Aspira a secura do tempo. Depois senta-se sob o velho carvalho. Olha em redor. Nada, nem vivalma. Tudo dorme. Sons dispersos dos animais, dos moços que labutam aqui e ali, das lides das mulheres, do campo, da tarde Apoia os cotovelos na mesa de pedra. Enfia o rosto entre as mãos e divaga. Ah, como gostava de ter estado ali mesmo em 1807.A mente povoa-se de homens, de feitos, de S. Gião no coração dos episódios. E ele por nascer. As sensações empapam-no. O alheamento à realidade come-o. Caetano é um fuso numa roca quebrada.
- Menino, Menino Caetano… menino.
Uma mão pisa na sua cabeça. Levanta o olhar. Perde-se no miolo macio do ontem. A imaginação arrebata-o para feitos por acontecer, para glórias perdidas. Os factos romanceiam-se numa mente ávida de fronteiras que não as de vinhas, riachos e lavoura. Caetano repele a terra tal da mesma forma que o pai a ama. O sentimento de ambos tem a mesma força. São diametralmente opostos. A força do pai agasta-o. A sua voz forte, imperiosa, o seu desdém pelos sentimentos. Tudo nele o afasta. Todavia os outros respeitam-no. Ele teme-o. O seu padrinho Caetano de Gibraltar, seu homónimo deveria ser seu pai. Como é bom ouvi-lo. Na casa de Gibraltar os silêncios dormem pouco. A tia Paula e os primos sorriem. A casa é feliz.
Ali em S. Gião as sombras impedem que se respire. Suspira-se muito ou cala-se.
- Menino, menino…menino Caetano.
A voz chega-lhe agora nítida. Está mesmo ali ao lado. Tão nítida que quase o sobressalta. Levanta o olhar. O velho Julião sorri-lhe com jeito preocupado.
- O que há Julião?
- O seu pai… está a chamá-lo há um ror de tempo e…
 - Sim?
-O menino já sabe…vem tempestade por aí, vem, vem…
- Está bem, está bem… já vou.
Caetano ergue-se do tronco de madeira que serve de banco sob o velho carvalho. Sorri contrafeito. O velho Julião de cujo rosto escuro de sóis e enrugado do anos, de boca desdentada, lábios engolidos, sorri-lhe meigamente. Os olhinhos escuros e tolhidos do tempo parecem ampará-lo. O braço descarnado de veias salientes afaga-lhe a cabeça e empurra-o em direcção a casa.
 -Vá, menino, vá lá… senão …
Caetano contrafeito toma o caminho da casa. Entra pela porta de trás. A do pátio da cozinha. As vozes cantantes das mulheres no seu contínuo cacarejar esvaem-se à sua entrada. Baixam a cabeça e enrolam os ombros. Dá-lhes a saudação. Vê a mirada das raparigas e olhar afectuoso das mais velhas. Rápido cruza o pátio e entra na cozinha. Está fresca. Um arrepio percorre-o. Prenúncio de que está para chegar. Os velhos degraus de madeira que o conduzem ao primeiro andar rangem sob os pés. Sobe-os pausadamente. Não há alvoroço, antes um demorar deliberado. Os encontros com o pai são sempre dolorosos. Ele ouve, o pai fala. Ele ouve. O pai vocifera. Ele escuta. O pai ameaça. Ele silencia. É assim sempre. O vermelho das faces casa-se com o fulgor dos olhos, porém os lábios mantêm-se unidos. Não responde, não fala. Espera que o pai o despeça.
- Rico filho! Um calaceiro. Anda pelos cantos em vez de ir comigo ver os homens. Só pensa em disparates. Não vou tolerar que seja igual a sua Mãe. Fique ciente. Amanhã vai levantar-se com os homens e vai para o campo. Vai aprender. A madraçaria só traz vícios e por casa já me chegam. Hei-de fazer de si um Homem ou não me chame Epiphânio! Pode sair!
Caetano abate-se na sua altura. O olhar emite um fulgor porém tem o cuidado de o baixar e numa voz meio imperceptível murmura:
-Com a sua licença meu pai.
Já cá fora Caetano respira fundo. Enfia as mãos nos bolsos e dando meia volta entra no seu quarto. Atira-se para cima da cama, atira com o boné que enrodilhava nas mãos para o ar e cerra os punhos. Como odeia o pai, como odeia a casa, como odeia tudo!
-Um dia hei-de ser feliz! Exclama

. .