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Alguém que ama a vida e odeia as injustiças

26 maio, 2017

Mulher


Mulher
Mulher não é menina nem moça, mulher é gente vergada na liça da vida, é gente de mãos doridas que lava o rosto do futuro, é gente que engole a dor porque o amanhã é matriz do seu ventre, é gente que sorri quando a alma dói, é gente que chora quando o coração estilhaça é gente que cria, esquecendo-se, é gente que se ultrapassa porque se revive em cada dádiva.
Mulher não é mito de carne nem boneca vazia. A essas chamam-se bonecas de carne. As outras, as mulheres do mundo, são a gente de todos os dias. Aquelas que não têm retratos, nem entrevistas, aquelas que não são faladas, mas são lembradas. São as mães, são as mulheres dos homens ocupados ou desleixados, são as profissionais estranguladas em mil ofícios. Mulher é o cansaço de todos os dias derretido sob o sorriso feliz do filho. Mulher é a luta marcada pelo lugar que o mundo lhe negou. Mulher é o direito de Ser.
Mulher é o útero do mundo vomitado na dor altiva do amor. Mulher é a luta do passado, do hoje e do amanhã. Mulher é pedaço de pão levedado em formas caprichadas, tostadas ou esbranquiçadas, mas eternamente saborosas, o alimento do mundo. E, se outras as bocas se abrem famintas, ávidas no desejo eterno da fruição, sorrindo são saciadas.

Mulher é quem estende a mão, veste o corpo e acaricia o rosto. Mulher é quem nua de desejo dobra a alma na cama da vida, mulher é e será o odre da vida hoje e sempre, meus amigos.

28 fevereiro, 2017







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Desrazão

Um, dois, três e os dedos dobram-se e desdobram-se numa melopeia de ritmo. Um, dois, três. É assim que Sãozinha olha o tempo. Sentada na sua velha cadeira, faz das mãos o terço da vida. O olhar perscruta a mancha do fogo, os lábios balbuciam sons já perdidos que não chegam a aflorar e os dedos, oh esses dançam, dançam perdidos no cinzento da desrazão.
Sãozinha para a sua dança de mãos. Balança o tronco e sorri. Depois ergue o olhar tremulado e húmido e sorri. Um sorriso tão terno. Abana a cabeça de doce cinzento e naquele instante o olhar vivifica-se. Voltou. Está cá.
Olha em redor. Curiosamente. E olha de novo. Uma a uma, as pessoas que giram em volta. Não se apresenta porque está apenas de passagem. Silenciosamente olha e sorri. Há curiosidade recatada. Breve. Breve.
Despega-se. Sobe ao mundo das imagens. Aquele que a nutre desde há uns anos. Não precisa de nada. Ele, o mundo dos rostos, dá-lhe tudo. Está em paz. Quando desce há ruído, muito ruído, sons graves e agudos, gritos e até choros. No seu mundo, casa, quarto ou espaço existe apenas o silêncio de rostos que falam com os lábios fechados, e de olhos abertos. Falam-lhe do antigamente, do tempo em que estavam todos juntos. Gosta mais e estar com eles do que com os outros. Quase nunca percebe o que dizem, o que querem. São barulhentos, muito, muito.
Encolhe-se de novo. Quanto mais se encolher menos a veem. Adquiriu o jeito durante os dias. Pensa assim. O seu João vem vê-la muitas vezes, todos os dias. E falam. Falam como nunca conversaram. Entendem-se melhor. Têm tempo, e depois são os anos vivos lado a lado, que descansam finalmente. Sem palavras, com olhares mudos, mas plenos de partilha. Há tanta gente que a visita, há tantas coisas que se lembra, há tantas e tantas recordações a fervilhar. Não tem tempo para estes ruídos, nem os percebe. Uma chatice. Não a deixam em paz, têm a mania de lhe falar alto e ralhar. Como se fosse uma gaiata. A sua vida já não tem a razão, porque é a desrazão o seu tempo. E no aconchego da cadeira estende a mão ao seu João e deixa-se embalar ao ritmo os seus dedos.



08 janeiro, 2017

Requiem Para um Homem

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Requiem para um Homem
Quando se tem noventa dois anos férteis de memórias, um acrisolado amor pela vida, quando  se é herói e anti-herói de um mundo ganho e perdido, quando se respira o liquido da liberdade nos pulmões dos  dias, quando se vive no carrossel da política , quando aqueloutros vindos do império sul despojados do “EU “das suas vidas o odiaram , quando  outros regressados de exílios sofridos o amaram, quando as consciências se apaziguaram, então o quase herói pode  finalmente ser ele próprio.
Mário Soares foi um Homem. Foi grande e pequeno como todos os homens. Na sua grandeza lutou a deu-nos aquela coisa que dá pelo nome de liberdade e que tantas vezes mal-usamos, mesmo na sua morte e com a sua morte. Foi grande porque amou a vida mastigando-a com prazer bebendo-a em sorvos redondos, soube amar o seu povo enaltecendo-o. Soube ser mais pragmático do que teórico como cabe a um homem de coração. Foi pequeno, por isso mesmo porque os erros nascem do instinto e são combatidos pela razão política, o que desdenhou.
A memoria é uma haste vibrátil, que ora verga ora ondula, porém, a memória do Homem ficará, nos dias de hoje, nos de amanhã e nos dias elíticos da política. Ficará na História do tempo, mas e a história da alma? Essa, simplesmente ficara inscrita no kyrie deste Requiem.