Quem sou eu

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Alguém que ama a vida e odeia as injustiças

31 agosto, 2011

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Poetas

Ai almas dos poetas
Não as entende ninguém,
São almas de violeta
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas.

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma para sentir
A dos poetas também!

29 agosto, 2011

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A la lumière

Dans l'essaim nébuleux des constellations,
Ô toi qui naquis la première,
Ô nourrice des fleurs et des fruits, ô Lumière,
Blanche mère des visions,

Tu nous viens du soleil à travers les doux voiles
Des vapeurs flottantes dans l'air :
La vie alors s'anime et, sous ton frisson clair,
Sourit, ô fille des étoiles !

Salut ! car avant toi les choses n'étaient pas.
Salut ! douce ; salut ! puissante.
Salut ! de mes regards conductrice innocente
Et conseillère de mes pas.

Par toi sont les couleurs et les formes divines,
Par toi, tout ce que nous aimons.
Tu fais briller la neige à la cime des monts,
Tu charmes le bord des ravines.

Tu fais sous le ciel bleu fleurir les colibris
Dans les parfums et la rosée ;
Et la grâce décente avec toi s'est posée
Sur les choses que tu chéris.

Le matin est joyeux de tes bonnes caresses ;
Tu donnes aux nuits la douceur,
Aux bois l'ombre mouvante et la molle épaisseur
Que cherchent les jeunes tendresses.

Par toi la mer profonde a de vivantes fleurs
Et de blonds nageurs que tu dores.
Au ciel humide encore et pur, tes météores
Prêtent l'éclat des sept couleurs.

Lumière, c'est par toi que les femmes sont belles
Sous ton vêtement glorieux ;
Et tes chères clartés, en passant par leurs yeux,
Versent des délices nouvelles.

Leurs oreilles te font un trône oriental
Où tu brilles dans une gemme,
Et partout où tu luis, tu restes, toi que j'aime,
Vierge comme en ton jour natal.

Sois ma force, ô Lumière ! et puissent mes pensées,
Belles et simples comme toi,
Dans la grâce et la paix, dérouler sous ta foi
Leurs formes toujours cadencées !

Donne à mes yeux heureux de voir longtemps encor,
En une volupté sereine,
La Beauté se dressant marcher comme une reine
Sous ta chaste couronne d'or.

Et, lorsque dans son sein la Nature des choses
Formera mes destins futurs,
Reviens baigner, reviens nourrir de tes flots purs
Mes nouvelles métamorphoses.

Anatole FRANCE (1844-1924)

25 agosto, 2011

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Aldous Huxley

Estava eu sentado, perto do mar, a ouvir com pouca atenção um amigo meu que falava arrebatadamente de um assunto qualquer, que me era apenas fastidioso. Sem ter consciência disso, pus-me a olhar para uma pequena quantidade de areia que entretanto apanhara com a mão; de súbito vi a beleza requintada de cada um daqueles pequenos grãos; apercebia-me de que cada pequena partícula, em vez de ser desinteressante, era feito de acordo com um padrão geométrico perfeito, com ângulos bem definidos, cada um deles dardejando uma luz intensa; cada um daqueles pequenos cristais tinha o brilho de um arco-íris... Os raios atravessavam-se uns aos outros, constituindo pequenos padrões, duma beleza tal que me deixava sem respiração... Foi então que, subitamente, a minha consciência como que se iluminou por dentro e percebi, duma forma viva, que todo o universo é feito de partículas de material, partículas que por mais desinteressantes ou desprovidas de vida que possam parecer, nunca deixam de estar carregadas daquela beleza intensa e vital. Durante um segundo ou dois, o mundo pareceu-me uma chama de glória. E uma vez extinta essa chama, ficou-me qualquer coisa que junca mais esqueci que me faz pensar constantemente na beleza que encerra cada um dos mais ínfimos fragmentos de matéria à nossa volta. ..

13 agosto, 2011

A Amante

A Amante

Lúcia era mulher de homem. Gostava de os sentir. Não tinha pruridos se eram casados. Eram homens e isso chegava-lhe.

Quem a conhecia de fora, dizia que Lúcia era uma senhora. Serena, digna, solitária e tão sofrida. Lúcia tinha duas caras. A que mostrava na rua e a que tinha na cama. Tinha dois filhos já grandes. Um rapaz e uma rapariga. Ele estudava nos seus vinte e oito anos, um daqueles cursos que um dia há-de ser e, entretanto, vai dando para se ser estudante, ela, nos seus vinte e três já de curso na mão mas desempregada, vivendo de coisas pequenas. Eram assim os filhos de Lúcia. Bons filhos mas só com pouca sorte como Lúcia dizia, acrescentando em tom de justificação para quem a ouvia, que tinham sofrido, principalmente o rapaz, com a saída de casa do pai. Era verdade que o pai os deixara, mas não se sabe se por culpa da mãe que já por essa altura gostava de homem, se dele, por gostar de outras coisas. Um mundo de sem valores que Lúcia abraçou.

Mas o que Lúcia gostava mesmo era de homem. Sobretudo se casados. Possuíam outro encanto. Faziam-na sentir-se protegida e dona de um pedaço de tempo. O dela, mais o que roubava. Era uma sensação igual à que sentia quando gemia de prazer. Lúcia era uma mulher quente. Tinha e dava prazer. A sua mais-valia.

Quem a visse, jamais iria suspeitar que, sob aquelas calças de ganga justas a marcarem-lhe umas ancas bojudas seguidas de um tronco seco e liso, tipo gargalo de garrafão, arfava um campo de desejo premente. Com a voz doce articulava as palavras de queixa pela vida madrasta que tinha, ela uma criatura de berço, como usava dizer, com uma existência rapada e solitária o que se tornara numa total e aberrante injustiça, segundo o seu entender mas que na verdade não era mais do que a capa da revista escabrosa que a sua vida escondia.

Lúcia era morena, baixa, de olhos escuros, encovados e melodramáticos, de pele sem viço, de ar gasto, mas a energia do sexo mantinha-a viva e arrebitada. Um sorriso dental, sem brilho de pupilas, enquadrava-lhe a fala. Os olhos, esses, mantinham-se afastados dos lábios, esquadrinhando as reacções, acrescentando dados ao seu inventário de envolvimento, mas quem escrutinasse para além do redondo a íris, notaria um vazio febril, quase eco de insânia. Lúcia apesar de estar na casa dos cinquenta quase meados, ainda e só, aparentava quarentas e tais Sabia-o e gabava-se disso, dizendo inclusive ao seu último amante, ser mais atractiva que a sua filha, pese esta andar na casa dos vinte, que o diziam os amigos da filha e os seus alunos. Mãe que assim ajuíza…

Porém, enganem-se, sob a pele mate sem brilho, revolvia-se uma predadora. Gingava-se num vai e vem nu por entre as paredes da casa que fora de seus pais, saracoteando um corpo escuro e já flácido onde um ventre de caído de duas maternidades e muito sexo lhe dava o B.I. da idade que o rosto ainda teimava em esconder. Logo que terminava a função após uma repetida ária de gemidos, deixava o amante e lesta num acto de libertinagem circulava por entre portas e caixotes nua e suja. Em seguida, num acto animal, entrava na pequena casa de banho e sentava-se na sanita e de porta bem aberta defecava tranquilamente perante o homem que por ali circulava. Estava saciada, estava bem. Não tinha de quaisquer pruridos nem muito menos atavios de pudor. O mundo era assim. Tudo de seguida.

Nas suas entranhas mornas latia premente, o desejo. Arrepiava-se-lhe a pele sempre que vislumbrava o Homem. Aí os seus lábios finos humedeciam e floria num sorriso magnífico de dentes brancos e perfeitos, Lúcia gostava de histórias, de histórias com homens. Os seus dias revolviam-se quando os vislumbrava na sua lista de contactos. Mais uma presa. Ela sabia como eles eram fracos, como gostavam de sexo, como lhes sabia bem enganar as mulheres sob a alegação de uma aventura, de algo intrinsecamente masculino. Lúcia era mestra em compreender os sentimentos reprimidos dos homens, fazia-os sentirem-se libertos e saciados. Arroubava-os. Envolvia-os. Fazia-os acreditar serem especiais. Inundava-os de sexo daquele barato, o das revistas, dos sites, o cru e duro, sem atavios que a levassem a perder tempo de prazer. Lúcia gostava desse, o que a fazia revolver-se, guinchar e retorcer-se Depois levantava-se morna de coito e nua no quarto cheio de caixotes vagueava em direcção à casa vazia de gente, onde as recordações dos dias felizes se encontravam embrulhadas em papel e panos pardos despidas de amor, transformadas agora em tralha à espera de serem esquecidas, algures, num lugar de garagem.

Na casa que outrora fora lar entretanto Lúcia usava o apartamento, para em nome da amizade fazer sexo e simultaneamente delinear o seu amanhã. Conhecia as suas armas, sabia como usá-las tornando-as tenazes envolventes. Um outro homem ensinara-lhe todos os segredos do corpo e do sexo, como ela ousava dizer a este seu amante. Sabia o que queria e, como o queria fazer. O poder de controlo assolava-a e mestra ajeitava-se, ajeitando o que desejava.

Sabia que o macho que há momentos saíra de cima dela ainda ciciava na casa de banho. Ela estava desperta e saciada por ora. Era tempo de descansar de pensar nas trivialidades seguintes. Amanhã o telefone bem cedo começaria a cuspir a sua teia em palavras doces, em suspiros e conversas banais. Era preciso ter a teia sempre activa. Pegajosa. O homem não podia ser deixado. O resto dos seus dias estava em jogo. Tinha que se acautelar e evitar o mau sucedido das outras vezes. Já não tinha assim tantos anos à sua frente. Os cinquenta já a habitavam, apesar de que a sua ginástica de uso a manter ágil, bem como a refeição diária tomada na cantina da Escola. Ah, Lúcia era professora. Formava mentes e nas horas vagas pascia os corpos. Uma mulher quase completa, não fora a moral que desconhecia, não fora o berço que se comprazia dizer ter tido. Todavia o tempo apagara as memórias dessas horas. O pai já se fora e, a mãe, idosa permanecia no lar, que Lúcia repleta de sentir filial se aprimorava em visitar alguns fins-de-semana, deixando a segunda-feira livre para se saciar. E era mesmo ali no lar que outrora fora de seus pais e que meio-desfeito dizia, em mudança, lhe servia de bordel, para ela o seu amante. E no entretanto de uma roupa pendurada, um saco arrumado, chegava a hora de se desafaimar. O amante, impaciente, esperava ansioso pelo fim das tarefas. Já almoçara num corre-corre, já telefonara e marcara o encontro. Estava ali expectante, desejoso, anelante. Aquela mulher saciava-o. Era sua. O resto não importava. Nada lhe importava. O momento era dos dois, só deles. Dele e dela. Felizes espargiam-se um no outro. Depois espreguiçavam-se um nos braços do outro sorriam, mimavam-se. Ele preparava-se para lhe dar boleia, ela para partir no comboio. Assim a meio caminho entre o partir e o chegar. As segundas-feiras de um vento sem tranca num quadro surreal de personagens grotescas. A tela emergia em pinceladas selváticas Um colchão esboroado no soalho rangente servia de cama, era o leito do prazer, Em redor os caixote s amontoavam-se cheios do bric-à- brac de uma família que acabara. A tela esvaia-se depois em patina de tons mas os gemidos faziam-na tremer. Logo, logo morria nas tardes de primavera.

Com cuidado, antecipada e calculadamente o encontro era delineado. O fugaz intuito, a boleia. O motivo: o coito; o objectivo: a caça.

Os meses rolaram. Lúcia era feliz. Até telefonava só para lhe ouvir a voz. Trivialidades sem tino. Conversas partidas cujo fio-de-prumo estaria algures ainda numa casa por desarmar, outrora lar, hoje antro de sentidos. À noite após lhe ter telefonado três a quatro vezes falavam-se pela internet. Conversas simples mas duplas em sentido como os amantes sabem fazer. De forma cirúrgica ia enviando emails à mulher do seu amante

Despretensiosa mas acintosamente. Um achincalhar de preceitos. Um gozo total a outro ser humano consentido a dois. Inicialmente inofensivos e paulatinamente mais elaborados. Para e estória ser mais completa, acresce dizer, que Lúcia e este amante tinham-se conhecido em jovens. Os progenitores ou parte da família vinham da mesma aldeia. Um ponto convergente, apenas um, para em nome de uma amizade se tornarem amantes, todavia na opinião de ambos não o eram, eram apenas amigos. Pobre amizade, que sendo a raiz da verdade do coração, ser usada para encobrir o sexo adultero. E foi em nome da amizade que a consciência dele ficou ilesa. Eram amigos. Foi em nome dessa estranha amizade que ela insistiu nos encontros, e se impacientava com a ausência dele. Lúcia queria cada vez mais, tornou-se imperativa, houve promessas de permeio que ela acreditou. Ele começou a vacilar, não no desejo que sentia mas pelo peso que a relação lhe estava a exigir. Em casa a mulher desconfiava. Ele tinha-se tornado áspero, agreste e usava a coação para a amedrontar como se ela fosse uma coisa sem eira nem beira. Não teve a força de a deixar porque consciência penalizou-o mas anelava pela amante. Desse conflito gerou-se a raiva, o desinteresse.

E a dor espargiu-se entre os meses. O rasgar de laços e em teias de sentir frio.

Lúcia apercebeu-se de tudo e inclusive deu-lhe uma pequena margem, as férias. Fê-lo prometer que tudo voltaria a ser como antes. Ele aquiesceu. Talvez por inércia, talvez porque não teve coragem nem desejo de a perder.

As férias acabaram-se. Setembro chegou. Foi então que algo começou a correr mal.

Pensando que o possuía também na mente ,ameaçou-o veladamente. E, descansou. Um erro, algo que mais tarde se arrependeu. Por essa altura suplicou, chorou e manipulou mas foi em vão. A raiva tomou-a e perdeu a cabeça, vomitou a sua fúria em palavras néscias de mulher usada. Banais, sujas. Lúcia era tão vulgar como devassa. Ela mulher de berço por ser. Fêmea de lamas pútridas, mãe de filhos sem esperança.

Os meses rolaram, veio o frio, depois a brisa, o calor. O tempo sem tranca a correr na gente e nas mágoas. O tempo que cura sem apagar., o tempo de hoje ou de amanhã. Quando realmente florir a amizade entre o homem e a mulher.

Dizem que a amante só queria um amigo, mas Lúcia não tem amigos. Tem amantes.

A amizade vem do coração, dá, não rouba. Lúcia e o amante roubaram a verdade. Ele e ela já não são.

Lúcia e o amante são personagens do nosso mundo num tempo sem tranca nem amor, onde o embuste casado com a frustração faz as primícias da traição.

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