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Alguém que ama a vida e odeia as injustiças

29 maio, 2009

Testamento








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À prostituta mais nova,
do bairro mais velho e escuro,
deixo os meus brincos lavrados
em cristal, límpido e puro…

E àquela virgem esquecida
rapariga sem ternura,
sonhando algures uma lenda,
deixo o meu vestido branco,
o meu vestido de noiva,
todo tecido de renda…

Este meu rosário antigo,
ofereço-o àquele amigo
que não acredita em Deus…

E os livros, rosários meus
das contas de outro sofrer,
são para os homens humildes,
que nunca souberam ler.

Quanto aos meus poemas loucos,
esses, que são de dor
sincera e desordenada…
esses, que são de esperança,
desesperada mas firme,
deixo-os a ti, meu Amor…

Para que, na paz da hora,
em que a minha alma venha
beijar de longe os teus olhos,

vás por essa noite fora…
com passos feitos de lua,
oferecê-los às crianças
que encontrares em cada rua…

Lisboa, 1950
Alda Lara (Poemas – Obra Completa de Alda Lara, Editora Capricórnio, Lobito 1973)

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6 comentários:

gabriela rocha martins disse...

excelente poema e excelente a tua escolha .pena que esta extraordinária Poeta" da lusofonia seja ainda não suficientemente conhecida em Portugal

- a escolha tem muito a ver contigo ,não tem?
vá ,confessa!


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um beijo

Paula Raposo disse...

Este poema é muito belo e de cada vez que o leio ele é sempre diferente. Gosto imenso. Beijos e óptimo fim de semana.

tiaselma.com disse...

Esse belo poema tangencia você na sensibilidade, humanidade, humildade... Caminhos de elevação a poucos possíveis. Desfocar do próprio ego... tarefa complicada para tantos!

Um beijo!

as velas ardem ate ao fim disse...

Não conhecia mas é lindissimo o poema.

Bjo e boa semana!

sarasvati disse...

Um poema que disse pela primeira vez aos 16 anos e acabei a dizê-lo na terra natal da autora.

Foi bom relembrar.

Boa noite.

Maria de Fátima disse...

lindo poema que desconhecia obrigada