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07 fevereiro, 2009

O TENENTE

Resposta ao repto da Maria Gabriela

Respondendo ao repto que me foi lançado pela Maria Gabriela do blogue "CANTOCHÃO" transcrevo a 6ª linha, na página 161, de um romance de Gunter Grass "O Gato e o Rato", escrever algo é quase impossivel, todavia...

mas antes, remeto o convite para esta ciranda a Selma Barcellos ,a Addigram, a Minucha e a Menina Marota, leiam ,por favor ,a 6ª linha da página 161 do livro que estiver mais próximo de vós, transcrevam-na e… escrevam.


"...parar-lhe aquelas comidas de dieta sem sal que o tornavam tão afeiçoado a ela?..."

Na verdade o pobre do tenente, rapaz pálido, esquálido e triste, pouco mais poderia apreciar senão um repasto sensaborão, escorrido e insonso como o seu ar e vida. Pobre alma. Não fora o sinalzinho redondo e vermelhinho que lhe pespontava por entre os imberbes pelos de uma barba por vir, o rosto quase seria uma máscara de cera, daquelas que se colocam nas capelas de orações, juntamente com as demais partes do corpo, consoante o sitio do pedido ao Divino. Os olhos grandes, redondos, quase de peixe, azuis esverdeados, a puxar para o sulfato de zinco, que lhe davam uma certa cor, pese a mesma se desvanecer acima do uniforme cinzento, mais do ar merencórico com que vestia o semblante.

Ora um tal personagem só podia degustar comida cozida sem sal, daquela onde as couves aguadas abundam. Nem cenoura, nem tomate, nem pimento, cores conspícuas, doces, ácidas e puxadas que fazem libertar suspiros e outros quereres, sabores pecaminosos de vida. Não, o nosso tenente desmaiava pela vida sob a tutela de Fraulein Petra von Goetlib, fêmea amarela de ares, seca de carnes, de carrapito bem repuxado sentado no cocuruto da cabeça, assim de pequenino dado a escassez da lã capilar, parecia antes, um pequeno rolo de sabe-se lá o quê, não só pela sua forma, mas também pela sua cor. Amarela acastanhada. Mas continuando, Fraulein Petra possuía uns olhinhos coscurantes e lúbricos daqueles que vêm tudo, e desejam ainda mais.

Saíra-lhe a sorte grande quando o tenente Hans Stwiller lhe alugara aquele quartinho há já tanto tempo a pedir gente. Um quartinho asseado, confortável e triste de acordo com o pulsar da casa e da dona. Até tinha uma porta de comunicação. Bem, estava tapada pelo damasco azul da cortina, mas era sempre uma salvação. Saber que paredes meias dormia um homem e ainda por cima militar. Como ela gostava do seu hóspede! Enchia-lhe a casa, os dias e até o espirito naqueles dias mais cinzentões. Fraulein sentiu que a linfa do seu corpo esguio despido de curvas e de saliências lhe aquecia os pés sempre enregelados, que alguns rubores lhe assomavam ao espírito. Sempre que pensava em Hans ficava cheia de calores. Algo que a fazia sair fora de si. Uma tremedeira. Abanou o carrapito, encolheu os ombros e, pasme-se, levou a mão descarnada ao peito num suspiro de desejo vão. Mas logo se agitou, resmungou, afastou os pensamentos condimentados, regressando ao estado cataléptico de sabores.

Hans entrementes sentado na borda da cama calçava as botas negras e polidas. Sempre ascético nada nele estava fora do sítio, desde as calças tufadas à camisa escrupulosamente engomada. O dólmen necessitava apenas de ser apertado. Calçou-se. Levantou-se, bateu os pés no tapete de rosas puídas, fechou o dólmen que repuxou, pegou no boné e desceu à copa. Aquele cheiro a sabão, sabão sem perfume, apenas a lavado deixava antever um homem sem chama. Um ser esmaecido.

Fraulein Petra já se estava à mesa junto à janela redonda revestida de um tecido leve, deixando ver o Fevereiro cinzento que se sentara do lado de fora. O cenário perfeito para o repasto sensaborão de todas as manhãs.

Hans sentava-se defronte. As suas botas pisavam inadvertidamente os pés de Petra que os recolhia num impulso, mas logo os voltava a recolocar. Olhavam-se e esboçavam um esgar qual folha amarela. Murmuravam um desculpe meio enrolado, meio aguado. Retomavam a mastigação. Metódica. O silêncio cobreia a mesa, Hans levantava-se, arrumava a cadeira, batia os tacões e pegava no boné que o coloca vasob o braço. Petra sorria-lhe translúcida. Um até logo despedia o tempo.

Maio de 1939 o jasmim já floresce na parede da velha casa e o azul do céu ainda é azul…

Petra, veste-se de azul claro em tecido leve, empoeirou o rosto de rosa leve e um pouco de carmim nos lábios alegram-lhe os olhos aguados de azul. Espera sentada na salinha. O silêncio come o ar, a respiração é imperceptível. De quando em onde o relógio da parede suspira as horas. Ouve-se uma chave na porta. Depois o ranger da madeira velha, entreouvem-se os passos na rua. Bate a porta. Uns passos calcam os degraus cansados.

Hans dá as boas noites. Pede uns minutos e sobe ao quarto. Desce mais fresco e húmido. O cabelo todo penteado para trás negro e luzidio. O uniforme deu lugar a umas calças amplas e a um casacão de malha. Senta-se em frente, no outro sofazinho. Pega no jornal e folheia-o. Nada que ele já não tivesse visto ou lido. Apenas o hábito de enviesar as letras na retina da mente. Meticulosamente dobra as folhas e levanta-se.

Uma vela bruxuleia, ali na mesa.

Uma nota solta.

Um desatino.

Petra chega de terrina na mão que coloca na mesa de dois. Sentam-se. O ruído dos movimentos é retraído. Um sussurrar de músculos no ar.

O pé que volta a tocar no outro pé.

O imediato recolher.

O pedido de desculpa.

O silêncio.

E o assado que chega. Tem cor. Tem aroma. Tem sal. Tem desejo. Convida.

Suspira-se. Saliva-se.

E o pé que resvala no outro pé. A perna que se alonga, a boca que se movimenta mais rápida., o pestanejar oblíquo, o movimento mais lasso do talher, o descair do corpo, o calor que regurgita do contacto.

E a vela que bruxuleia.

Ela, sempre ela, olha-o bem nos olhos. Mergulha sem hesitação. Ele deixa, segue-a. As mãos, as mãos entrelaçam-se.

Hans e Petra. Fêmea e macho. Sede e Fome. Corpos marmóreos, linhas em esquisso que se dobram na plástica dos músculos em cópula, os sentidos que explodem em vai e vem, o vocalizar dos sons guturais que se rebentam nas gargantas. A premência do orgasmo. O raiar da satisfação. O deslassar dos corpos. O estalar do riso, forte, brutal, carnal. Olham-se cúmplices e de novo se entrelaçam em renda de desejo. A redescoberta. Mais lenta, mais segura, porém mais voraz. Sem hiatos. Sem rebuços. Livres Ardentes Plenos na carne e na alma.

Tão simplesmente.

Na cozinha embrulhada em poalha de luz débil, Hans leva a chávena de café quente aos lábios. Trinca uma fatia de pão. Está em pé. Coloca a chávena na pia, já gasta, onde a torneira teima em pingar. Dirige-se para a velha chaminé e procura o saleiro. Retira algo.

Pega na mala castanha de fechos de metal já picados, coloca o boné na cabeça e desce as escadas que rangem.

Na mão livre segura um pequeno cofre e, dentro, a sua flor de sal.


..


Lili Marleen In German - Marlene Dietrich

14 comentários:

mié disse...

mais vale prevenir que remediar...a falta de sal :))

belo excerto

e bela música a condizer.


deixo um beijo

Bom fim de semana

gabriela rocha martins disse...

já te devia ter mandado o repto há muito mais tempo....

....habilidosamente construído ao sabor dos condimentos - dizem que o sal é o pão da vida - e duma imaginação prodigiosa

adorei


.
um beijo

claras manhãs disse...

Lindo.
Como diz a Gabriela, imaginação prodigiosa!

E sim, aceito o desafio.
Obrigado por te teres lembrado de mim.

Beijinho

Gasolina disse...

Fabuloso!

Renda de sal de palavras!
A sentir-se os opostos nos sentidos, nas emoções, nas intenções.

Repito: Fabuloso!

Um beijo para o teu Azul salgado.

Maria de Fátima disse...

uma excelente tarde de domingo e uma visita aqui

Maria P. disse...

É bom voltar aqui...

Beijinho*

tiaselma.com disse...

Aceito o desafio, Mateso!
Aguarde!

Tia Selma Barcellos

as velas ardem ate ao fim disse...

Eu adoro este desafio!

um bjo

Ana Paula disse...

Foi uma resposta ao desafio muito fértil!

Deixas ficar um texto imaginativo, belo e delicadamente humano nas mais suaves pinceladas... sempre com uma pitada de sal :)

Um beijinho!

vida de vidro disse...

Extraordinária resposta a um desafio. Muito criativa, como sempre. Adorei. **

pin gente disse...

apuradíssima a resposta...
fantástico o tempero desta fome e desta vontade de comer.

abraço
luísa

Nilson Barcelli disse...

Um desafio facilmente superado por mais um texto soberbo.
Parabéns cara amiga. És Escritora.
Beijo.

Madalena disse...

Foi bom a "minha quemadre" ter feito o desafio.

Eu só Ganhei com isso no meu primeiro dia de regresso aos comentários dos blogs amigos. :)

Parabéns.

addiragram disse...

Verdadeiramente inspirado! Parabéns!