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14 outubro, 2008

SOL da ÌNDIA

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Sol da Índia

Mais uma, só, mais uma. A sovela passa na borracha, do outro lado fica o ponto. Já está cozido só mais este, o do remate com nó. São as bolas, redondas, cozidas pelos dedos dos meninos escuros de olhos grandes, e corpo franzino. São os meninos agachados no chão, sobre a esteira desbotada de pó, mais de anos. Ranjiv, também é menino. Menino de corpo ossudo, calção caído, camisola rota e pé descalço. A tez é escura, castanha, cobre-a o sol da Índia. Ranjiv estica mais as pernas e suspira. Está calor, muito calor. A hora do intervalo não vai chegar tão cedo. Tem sede. Passa a língua pelos lábios secos. As moscas rodam-no, com a mão livre enxota-as. Porém, uma vem poisar e ferra-o. Vai chover. O dia amanheceu pesado. É tempo de monção. O suor empapa-o. E de novo a sovela, em cima, em baixo, em baixo, em cima. Tem fome. Tem tudo e não tem nada. Naquela nesga de casa amontoam-se meninos no vai e vem da sovela. Umas magras rupias para enganar a miséria de casa. Casa? Um quarto escuro, um pedaço de quintal. Cinco irmãos. O pai e a mãe. A miséria escura da Índia. O reboliço do caos, o barulho da fome, o ressoar da vida, a indiferença dos olhares, o rumorejar dos passos, o chapinhar das águas do Jumna, os sons que se erguem no ar adocicado do dia.

Nova Délhi amanhece todos os dias envolta na neblina da gente. Ranjiv levanta-se pelas quatro horas da manhã. São horas de ir buscar o balde de água à torneira pública. Ele, mais os irmãos e o pai. Quatro baldes de água. Não há água corrente em casa. Não têm tanta coisa. Mas é assim a vida. Depois corre para Shapur Jat. Fio e sovela. As bolas que os meninos sonham e que ele cose. Gosta de correr descalço, não tem sapatos, apenas umas chinelas, que descalça logo que corre ou brinca na rua. A sola dos seus pés já é dura. Conhece a geografia da estrada. O seu corpo débil, ossudo, desprovido de carne, enroupado num calção largo e numa camisola meio suja, faz-lhe a vestimenta de todos os dias. Com um chapati na mão, e dependurado no braço, em embrulho colorido, a ração de mais um dia. Lentilhas e chapati. É pouco, muito pouco. Porém o sorriso enche-lhe o rosto já que a barriga se aconchega no seu vazio. Ranjiv bate a porta São seis da manhã Tem uma hora de caminho pela frente. Vai pela borda do Jumna, o rio sagrado. Gosta do chapinhar das águas e das ladainhas dos anciãos. Gosta das flores que deambulam nas águas. Gosta da neblina que o impede de ver a tristeza dos olhos parados. Uma trinca. Tem que mastigar muito, devagar, para durar e, enganar a barriga. Lesto, vai guardando o tesouro do dia. Nove anos. Apenas nove anos. A miséria do mundo em calções.

Devagar circunda a beira do rio. Os anciãos entoam as ladainhas em prece. O corpo deve comungar a alma. Não entende o espaço que medeia a oração da meditação. Somente se embala no ritmo salmodiado das vozes. Fazem-no esquecer a ironia da sua pobreza. Dão-lhe a abastança que as entranhas sonham. Farto de encanto, vazio de alimento, Ranjiv percorre dançante o trilho que o aporta à fábrica. Dez miúdos de olhos grandes, nus de ilusão e prenhes de ternura. Nas bocas vazias pespontam os dentitos podres e partidos por onde a saliva se escapa em baba de criança. Corpos mirrados de carnes e espetados de ossos que se dobram no interlúdio da sovela. Zumbem as moscas, o som cavo da linha e dos nós no cabedal, dão o compasso ao abuso. Os meninos entreabrem os lábios, humedecem-nos e engolem a saliva, alimento de quase uma manhã. O calor aperta, o suor liquefaz-se nas caritas de olhos tristes, porém as mãos ágeis e precisas furam, cosem e embelezam as bolas que farão sonhar os outros, aqueles do outro lado do mundo. Os que correm atrás da bola e não correm pela bola. Ranjiv passa as costas da mão nos lábios gretados pela sede. Remexe os dedos dos pés partindo-lhe a imobilidade hirta da posição. A manhã já se casou com o sol. O amarelo açafrão veste o tempo. Está na hora de mais um chapati e desta vez as lentilhas. A melhor e única refeição do dia. Lambe-se antegozando as migalhas que lhe vestirão o estômago. O menino levanta-se e poisa a bola que tem entre os dedos. Já coseu doze hoje. Meio-dia já foi ganho. Impelidos pela mola dos anos, dez crianças, meninos de rosto triste ,saltam para o pátio nas traseiras.

O sol da Índia veio-lhes aquecer a alma, já que o coração foi arrefecido pelos homens.



Indian Music - Enya





Posted by Picasa

18 comentários:

Eremit@ disse...

uma dura e crua realidade de que todos somos parte responsável muito bem descrita. Acima de tudo descrita com amor e respeito.
Um espinho entre tantos que xistem nesta pequena bola rolando no espaço que afinal não é de todos...muito menos para todos.
Um abraço grande e obrigado por este post.

claras manhãs disse...

Este doi! magoa!
porque sentados, sempre tentamos esquecer as duras realidades dos outros.

e como diz o Eremita
obrigado

beijinho

as velas ardem ate ao fim disse...

Sabia me tão bem um coração quente.

um bjo

Maria P. disse...

"A sovela passa na borracha, do outro lado fica o ponto."
Esta frase faz-nos sentir todo o ritmo do texto, e a palavra «sovela» como marca...

Magnífico.

Beijinho*

~pi disse...

o corpo deve comungar a alma

a alma do menino deve beber

como pássaro

correr como

rio



beijo





~

gabriela rocha martins disse...

tudo o que se possa dizer a mais

é puro desperdício

fico.me

por



.
um beijo


[ e saio em silêncio absoluto ]

vida de vidro disse...

Uma dor só, este texto tão belo. Dor de existirem tantas crianças assim! **

Shelyak disse...

Embora à distância, conheço um pouco essa realidade...Estou envolvido há algum tempo num programa de ajuda a crianças, educação (International Children) e recebo em casa informação aproximada com a realidade que aqui trazes...
O coração foi arrefecido pelos homens... dura realidade...
Um beijinho para ti!
Gostei de te visitar...
:)

mac disse...
Este comentário foi removido por um administrador do blog.
mac disse...

Cru e "insentimental”, gostei!

Mas... 5 irmãos (mais ele e o pai adulto) e só 4 baldes de água? Nem que fosse ele o mais velho, entre os 5 irmãos certamente que se consegue mais do que 2 baldes, se a necessidade é real como sabemos...

Desculpe mas a minha obsessão por pormenores dá nisto: um uivo à Lua, de lamento por ver tremer parte da força da mensagem...

Hélas!

Nogs disse...

Sol e coração de índia. E o som? Lindo, lindo.

Beijinho

Menina_marota disse...

A comoção toma conta de mim.

Ler-te é abrir uma janela e olhar o mundo, o mundo real, o do imaginário, aquele que acreditamos, mas gostaríamos que não existisse.

Hoje aconteceu-me uma coisa que quero partihar contigo... cruzei-me hoje com um miúdo que ia para a escola, vinha eu a comer um "mimo" que me resolvi dar e ele não tirava os olhos de mim...

- "Já tomaste o pequeno almoço?"

- "Que é isso?" - responde-me

- "Quando te levantaste comeste alguma coisa?"

- "Ah... não, comi ontem à noite uma sopa...a minha mãe não tem dinheiro. A patroa dela ainda não lhe pagou..."

- " E que faz a tua mãe?"

- "Trabalha na casa da patroa, arruma-lhe a casa"

-" Pois, compreendo, a patroa não tem dinheiro, mas tem empregada. Certo!! Está bem... anda daí..."

E foi um gosto vê-lo comer! Tomar o tal pequeno almoço, que nem sabia o que era!

Pedi que me embrulhassem duas sandes americanas (é o que há, a esta hora da manhã...)

- "Olha lá, comes isso ao almoço, ok?"

- "Posso dar metade ao João?"

- "Quem é o João? É teu irmão?!"

- "Não. É o meu amigo João, ele é mais pobre que eu. A mãe nem tem dinheiro para fazer a sopa... e a minha mãe às vezes dá-lhes da nossa"

Que se pode dizer a uma criança depois disto???

Com voz tremida pela comoção, pedi para me embrulharem mais 2 americanas. "Estas são para o João. ok?" "Ah... já agora, como te chamas?"

- " Chamo-me Mário..."

E o sorriso dele deslumbrou-me a alma.


Desculpa este desabafo...

Beijo

mac disse...

Obrigada pela gentileza.

Mas (a tal obsessão)... 3 irmãos (+ 2 irmãs que ficaram em casa)= 2 baldes? Há um bebé - abaixo dos 8 anos - a que nem foi permitido mais um tempinho de sono, suponho que por ser homem em potencial e portanto ser importante que se levante a horas de ir buscar àgua.

Rais parta a luta pela sobrevivência, mais a arte dos homens de complicar ainda mais a vida difícil.

Hélas!

Mié disse...

... já disseste tudo!

A tua narrativa é tão especial, doce e violenta, ternura e revolta, é o que me fazes sentir.

___________e

deixo-te um beijo

enorme

no teu coração

Mar Arável disse...

Um belo texto

escrito com ocoração

nesta terra onde o sol que nasce

mesmo esse

não é para todos

M. disse...

Privados da infância. escravos de uma vida que podia ser evitável. E o comentário ali em cima da menina marota deixou-me de coração apertado. Será possível?!!!

Ai Mateso como o mundo vai mal.. :(

Beijo

Miosotis disse...

... esta foto a dois dias do 'Dia Mundial da Erradicação da Pobreza'... vale por mil palavras :((

Um beijo amistoso

Lavrador disse...

No seu texto sinto-me, ao mesmo tempo, transportado às recordações antigas e distantes da minha aldeia da Beira Alta e à India distante que gostaria de visitar.
Não pare de escrever!