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Alguém que ama a vida e odeia as injustiças

12 junho, 2008

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A Terra

Também eu quero abrir-te e semear
Um grão de poesia no teu seio!
Anda tudo a lavrar,
Tudo a enterrar centeio,
E são horas de eu pôr a germinar
A semente dos versos que granjeio.

Na seara madura de amanhã
Sem fronteiras nem dono,
Há de existir a praga da milhã,
A volúpia do sono
Da papoula vermelha e temporã,
E o alegre abandono
De uma cigarra vã.

Mas das asas que agite,
O poema que cante
Será graça e limite
Do pendão que levante
A fé que a tua força ressuscite!

Casou-nos Deus, o mito!
E cada imagem que me vem
É um gomo teu, ou um grito
Que eu apenas repito
Na melodia que o poema tem.

Terra, minha aliada
Na criação!
Seja fecunda a vessada,
Seja à tona do chão,
Nada fecundas, nada,
Que eu não fermente também de inspiração!

E por isso te rasgo de magia
E te lanço nos braços a colheita
Que hás de parir depois...
Poesia desfeita,
Fruto maduro de nós dois.

Terra, minha mulher!
Um amor é o aceno,
Outro a quentura que se quer
Dentro dum corpo nu, moreno!

A charrua das leivas não concebe
Uma bolota que não dê carvalhos;
A minha, planta orvalhos...
Água que a manhã bebe
No pudor dos atalhos.

Terra, minha canção!
Ode de pólo a pólo erguida
Pela beleza que não sabe a pão
Mas ao gosto da vida!

Miguel Torga






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.01 Once Upon a Time in the West {from Once Upon a Time in the West} - ennio morricone

5 comentários:

as velas ardem ate ao fim disse...

Um poema lindo de um poeta sublime.

um bjo

alice disse...

fiquei presa nesta música. há uns anos atrás, cantei-a num espectáculo. enquanto tocava piano simultaneamente. foi um belo momento :) também gostei do poema! um beijinho.

As Sombras de Fim do Dia disse...

Encantada, deliciada, reconfortada. Perdoa antes de mais, a ausência. Mas não esqueci este maravilhoso cantinho azul.

Um beijinho e Bom Sto António

Huckleberry Friend disse...

Que saudades desta melodia, mateso! E de Torga, sempre... o calor e a terra deste fim-de-semana bem mo fizeram recordar! Beijinhos.

Gi disse...

ainda oiço Rachmaninoff enquanto leio Torga ...

e sinto o movimento contínuo,

perpétuo

das palavras

da terra

vou ficando

fi cando

cando

ando

do

beijo

(perdi-me com o ano de 1932, quando nasceu a minha mãe)