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Alguém que ama a vida e odeia as injustiças

30 abril, 2008

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“Era uma vez um rapaz que tinha medo do mar. Essa fobia não espantava ninguém e raramente lhe traia mais que embaraços e dissabores. Aquele que verdadeiramente causava espanto a todos os que tinham a sorte de poder entrar no seu refúgio mais valioso, era o vizinho da frente, um rapaz calmo que tinha o nome singelo de João e um sobrenome polaco, que as pessoas pronunciavam de três maneiras, todas elas muito distantes da pronúncia dos seus antepassados, bisavós dos seus avós, em Varsóvia.

Aqueles que tinham mais receio de mostrar alguma ponta de ignorância, mesmo tratando-se de um sobrenome polaco quase impossível de pronunciar por não-polacos, optavam por chamar-lhe apenas João, revelando uma falsa familiaridade. João era um rapaz de óculos e borbulhas muito vivas que só por si não espantava ninguém. Aquilo que realmente surpreendia e emocionava alguns dos poucos privilegiados era a sua colecção de selos. As paredes do quarto do João estavam cobertas, desde o chão ao tecto, por álbuns de selos. Sob a cama, havia álbuns de selos. Na gaveta e em todo o interior da mesinha-de-cabeceira, uma pilha de álbuns de selos. Mais do que uma simples arrumação por países, valores e datas, João passava tardes, passava a sua vida inteira, a encontrar formas de organização, absolutas e precisas, que não se baseavam em números, mas em elementos muito concretos, como a intuição ou a beleza. “

(…)

José Luís Peixoto; Contos que Contam, O rapaz que tinha medo do mar

7 comentários:

Andrea disse...

A very good image for the text,indeed.And Chopin of course...

Bye

carteiro disse...

Com a diferença que, em miúdo, tinha quatro singelos álbuns de selos, muito vejo aqui que eu também tinha. por gosto e na saudade.

carteiro disse...

Ah, em relação a Arvo Pärt. Adoro o álbum Alina, com as suas três versões de "Spiegel im Spiegel".

Já ouviste o "Orient Occident", o da imagem que tenho lá pelo blog?

as velas ardem ate ao fim disse...

Sou fã do Peixoto.Adorei.

bjo

Mar Arável disse...

Também a vida devia começar

pelo chão concreto

e só depois subir

Miosotis disse...

Até à data [retirando a adaptação de 'Os Maias' contados às crianças, editado há muito pouco tempo], este é o único livro de José Luís Peixoto de literatura juvenil...

Gosto muito de o ler...

Sensibilizada pelo olhar afectuoso em 'fragmentos'!

Beijo de fim-de-semana doce e luminoso

gabriela r martins disse...

era mais uma vez


mas conta.me os contos de en contar os contos nossos - [ os teus ]

re conta os muitos meninos e menos meninos e ainda menos meninos ou velhos que têm medo de todos os mares em terra......


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um beijo