Quem sou eu

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Alguém que ama a vida e odeia as injustiças

29 dezembro, 2007

"Os anos ensinam muitas coisas que os dias desconhecem."
(Autor desconhecido)





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27 dezembro, 2007

Sarah Brightman - Time to Say Goodbye feat. Andrea Bocelli

Faz precisamente, hoje, um ano, que iniciei este pequeno canto azul. A todos vós que por aqui passaram,deixo o meu sincero obrigada. Que o novo ano seja benemérito em saúde, paz, amor e boa vontade. Eis os meus votos para vós meus amigos.
Feliz 2008!

20 dezembro, 2007

. Desejo-vos um Feliz Natal.


Natal

Na memória dos tempos ignotos,

Esconde-se a amarga verdade dos dias.

A crua luz dos sentidos escondidos,

Da indiferença mascarada.

No amor criado de um breve dia,

Onde são penduradas as imagens felizes

De uns tantos, porém outros mais,

Jazem descalços, feridos, tiritados

Nas ruas geladas de portas fechadas.

Esquecidos, será? Não! Talvez! Sim!

Apenas arrumados nos esconsos e frios cantos,

Dos túneis acasos de paredes côncavas

Convexos os olhares deitados na míngua

Dos passos fugidios,

Em corrida para a fátua chama de um momento.

Dorme a Fé, Soa o Cântico,

Algures na Boa Vontade entre os Homens,

A lembrança fugaz acena e despede-se rápida

No aceno aflorado de um olhar,

Que perpassa, a memória do sentir.

A luz findou, o frio já chegou.

O Natal é ali, mais além…

Onde a Gente vive também.


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14 dezembro, 2007



Um Presente de Natal

Agachada em novelo triste de cor de inverno, Miquinhas, corta as couves verdes e viçosas. As mãos vermelhas de frio, gretadas de trabalho e quentes em afagos, deslizam pelo caule até se quedarem mesmo em baixo junto á terra gelada que veste as raízes. A tarde caiu já. O cinzento encolhido de luz envolve o ar, qual casaco puído que tapa mas não aconchega, a geada já se faz sentir nos ossos, nas faces e nos lábios, estremecendo as carnes no tiritar do movimento, para cima para baixo, no cortar das couves para a ceia. Foram estremecidas desde que plantadas lá pelos finais de Setembro, regadas, cuidadas, mondadas. Estão altivas, verdes e tronchudas, esperam pelo calor da panela que as tornará macias e ainda mais verdes, verdes não, mais brilhantes.

Miquinhas, levanta o rosto fresco de setenta e tal invernos, os cabelos cinzentos dançam no ar gélido do fim de tarde, um arabesco de anos e vida, os olhos negros, doces e líquidos olham ainda o amanhã com vigor, o corpo é robusto mas ágil, forte de seis maternidades, seco de trabalhos, lesto de gestos. As botas de borracha amortecem-lhe os passos, estufando-se na terra macia do rego das couves. A sua horta, a menina dos seus desvelos. Levanta o avental de riscado azul em viés, coloca as suas flores-couves no antebraço, e com a outra mão livre ajeita os cabelos que lhe enevoam a vista. Olha em redor, a terra já puxa o cobertor da noite. Em breve as estrelas darão a luz para os passos de quem procura o caminho Assobia o vento no gelar do ar, Miquinhas aperta mais o seu ramo de couves e segue em frente até à luz quente que bruxuleia da janela, laranja-amarela a dançar com chispas vermelhas que se desfazem no ar. É a sua lareira que crepita no ventre da cozinha, aquecendo-a. Não é a luz amarela parada do candeeiro, não, é o lume vivo, da lenha, que arde lá dentro. Estuga o passo, apetece-lhe o calor, que pressente, ao corpo gelado.

Abre a porta despedindo-se do gelo, descalça as botas, enfia os pés vestidos de meias de lã nos chinelos e poisa o seu ramo na banca. Olha o lume, precisa de ser espevitado e de mais umas achas. Acende a luz. A escuridão despe-se. Olha em redor, está tudo nos conformes, a sua gente deve estar a chegar. Já são seis e meia, mais umas horinhas e a casa começará a viver. Hoje é dia de consoar. Todo o ano á espera, todo o santo ano! E agora a minutos de vê-los de novo sente-se triste, muito. Não sabe explicar. Talvez a lembrança dos ausentes, do seu Manel, da sua Alice…talvez …

A alma dos que partiram senta-se à mesa do seu coração. Sente-os, hoje mais, ainda. A mesa que o serve transborda de saudade, de dor de ausência, de pena carpida mas escondida no sorriso de vida de cada dia. Há que aligeirar o sentir no crescer do tempo. Há que sorrir na dobra de cada ruga nascida, há que amar o resto do tempo esperado. Suspira, e uma lágrima redonda, translúcida de amor recordado, rola macia no rosto morno de mulher-saudade. Sem saber bem como, outra lágrima junta-se à primeira e depois outra e mais outra. Um chorar de recordar, um pranto manso de amor perdido no tempo. Logo hoje, o dia de todos os dias, o estremecer do seu sentir torna-a assim de frágil. Abana a cabeça de fios de prata, as lágrimas redondas de saudade e puras de sentir tornam-se pequenos sulcos brilhantes de luz. Miquinhas sente um arrepio percorrer-lhe o corpo. Coloca a capa sobre os ombros, entrelaça os dedos gastos em prece, gesto mais de oferenda do que de súplica e sorri para o alto, como se enviasse um beijo àqueles outros que também presidem à mesa do seu coração nesta ceia de amor sentido.

Ouve o buzinar dos carros, as portas que batem depois o tilintar do badalo, o anúncio da vida que vibra do outro lado. Ajeita um sorriso, esfrega os olhos, humedece os lábios, alonga os dedos pela prata da cabeça, cruza a capa sobre o peito e deita a mão à maçaneta da porta. Ali mesmo, a da cozinha.

-Mãe, Avó, Mãe….está boa! Há um ano…Dê-me outro beijo. Ai que quentinho!

-Entrem entrem. Filho! Isabel! Ah os meninos que grandes!

-Ó Vó, já tenho dez anos!

- A tua irmã, meu filho? Diz Miquinhas, dirigindo-se a João.

-Deve estar a chegar…olhe é ela…

-Amélia, minha filha! Já não te via, sei lá, até já perdi o conto. Tás tão magrinha. Vens sozinha, ainda?

-Oh Mãe! Tá boa? Sempre a mesma. Sim, estou sozinha. A mãe está na mesma.

Deitadas as saudações, os abraços, beijos e sorrisos, a família reúne-se à volta do lume. O frio enrola lá fora. A geada cai segura na noite estrelada. Cheira a doce de Amor-Natal. É uma massa de afectos da alma batidos no açúcar do coração. E eles são tão fofos por esta altura. Depois endurecem com o tempo, é o ar, o deixar rolar pelos pratos esquecidos do sem tempo do dia-a-dia. Mas nesta noite está tudo morno de ternura e fofo de alma. É noite de todas as noites, sempre o pensou e sentiu a Miquinhas. Já desde bem ganapinha que a Consoada era sentida de mágica e calor. O tempo correu, os invernos da vida arrefeceram, mas o calor da noite, deste dia, ficou sempre latente, tal como as brasas da lareira que são espevitadas para não apagarem. Estão já sentados à mesa vestida de linho alvo que esconde o carvalho grosso já roído dos tempos. As travessas deslizam por entre as mãos. O bacalhau senta-se nos pratos de braço dado com as batatas, as cebolinhas, as meias de ovos e as couves. Oh, as couves que brilham verdes, húmidas, apetitosas, quentes, escorridas e chamam pela vontade de cear. É noite de consoada, imemorável de tempo aquecido e semeado entre as vontades dos Homens na Terra e dos Anjos no Céu. Daqueles que partiram mas que sentam nos corações dos entes queridos por entre o calor e o mel vertido de uma breve noite de Boa Vontade. Somos assim, por isso somos tão humanos nos nossos dias de horas sentidas. Bruxuleia a chama do Amor na mesa de pratos cheios e faces felizes. Entre o bacalhau com couves macias, o arroz doce, aletria e filhós, o Amor vestiu o casaco e sentou-se à mesa bem quentinho e rosou as faces, deu brilho á luz dos olhos, doçura às palavras e sobretudo Boa Vontade.

Voa o tempo, nas asas da alegria, desta noite embalada pelo doce vinho rubro, doirado de lágrima espessa. Em breve chega a meia-noite, a hora mágica dos mais pequeninos e porque não, dos maiores também. Junto do presépio de musgo verde pontilhado de caruma e trevo, onde na sua cabana o menino Eterno olha o mundo que acorda para um novo Amanhã ora de Luz ora de Trevas, perfilam-se as prendas de laços voluptuosos e papéis garridos. João entrega a cada um o seu presente. Lembranças de mais uma noite. Miquinhas recebe o seu quinhão. Fica assim de queda e sem jeito

-Oh, tanta coisa!

- Ora Mãe é só um casaco que estava a precisar, mais umas pantufas para ter sempre os pés quentinhos.

- Obrigada, meus filhos, mas não precisava de nada. Estou tão feliz de estarem aqui. E leva a mão ao peito.

-Ó vó já viu?! Ganhei dois livros e um jogo, o que eu queria.

- Eu tenho as Princesas, olha, olha Vó, exclama a mais pequena.

Miquinhas levanta-se e caminha em direcção ao seu João e á sua Amélia, junta-os. Dá-lhes as mãos, depois solta-se ela. Dirige-se ao armário da cozinha. De lá tira uma travessa, branca, usada, mas perene. Cruza o espaço que os separa. Pára em frente, estende-lhes a travessa e diz-lhes:

- Meus filhos, o meu presente.

Ambos olham de forma interrogativa, mas ela diz-lhes simplesmente.

-É a minha travessa do Amor, está cheia, de Saudades do vosso Pai e da vossa irmã, de Doçuras da vida, de algumas Tristezas, de Solidão, de Desejos, de Boa Vontade, de muita Esperança, de Fé, de Sorrisos, de Sonhos, de Vida e de muito, muito Amor. É vossa. Guardem-na e passem-na aos vossos filhos. É tudo o que tenho. Desculpem.

Lá no alto, no azul estrelado, creio que uma estrela sorriu Feliz e entoou:

Noite Feliz!


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11 dezembro, 2007

Enya - Natal 2006 - Amarantine Special Christmas Edition


Poema de Natal

Vinicius de Moraes


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas

Nascemos, imensamente.



04 dezembro, 2007

"A Essência do Ser "escolheu aArtmus para mais um desafio. Escrever dez frases que me caracterizem.Não é fácil ,porque as palavras são, por estas bandas, o meu rosto, a minha pessoa. Pois então, continuemos com elas ,e aqui vão.

1- Senhora de humores merencóricos a par de genialidades coléricas.
2-Pouco amante da piada fácil e devota do bom e subtil humor.
3- Impaciente com os subterfúgios tolos e descartáveis.
4-Crente que ainda um dia seremos mais Humanos
5- Dorida perante a cupidez e egoísmo grassante.
6-Amante incondicional do belo e da harmonia.

7- Egoísta q.b. no que respeita o seu Eu.
8- Ainda suficientemente crédula no seu Próximo.
9-Ordenada, e de cabeça arrumada.
10- Essência de uma vida.

É de bom tom passar o desafio,assim o faço ,a quem ,o desejar continuar. Um obrigada, pois.

01 dezembro, 2007







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Viúva rica, solteira não fica…


Dobrada, recolhida, arreada em meada de negro vestida, Sãozinha carpe a sua dor de viúva recente. O seu finado ainda há uma semana recolheu ao rectângulo de terra certa, ainda estão quentes as lembranças do homem, mais os trejeitos mastigados do marido, e as saudades já apertam no lembrar do cavalheiro obsequioso, gratificante e galante. O seu Orlando, entradote nos anos, mas de figura enxuta, palavreia fluente, presença marcante e carteira falante. Uma preciosidade!

Sãozinha Bastos, seu nome de menina, trabalhara muitos anos no seu aperfeiçoamento visual, físico e temperamental. A sua mente tão ocupada no seu aplainar de curvas, olhares, pestanejar e muitos mais ares, entrara em curto-circuito ainda em tenros anos, embotando-lhe os neurónios restantes. Porém nada visível, pois que o exterior por demais apelativo fazia esquecer quaisquer outros percalços.

Figura de encher o olho, a idade não vai para além dos trinta e picos, muito cuidados alinhados. Bem, talvez quase quarenta, mas tal pertence ao segredo dos deuses mais do cartão amarelo. A nossa viuvinha, enfiada numas calças justinhas que lhe delineiam todos os possíveis, mais um camisolão que faz sonhar pelo que está escondido, afunda-se no seu enorme leito redondo, lugar ainda à bem pouco, de brincadeiras loucas e excitantes. Agora sente-se murcha. Murcha mas não morta, o que sempre é bem diferente. Depois, o viço pode recuperar-se neste caso. Um pouco de chuva e tudo remoça, é a natureza, assim pensa Sãozinha Carpida. Afundada naquele desgosto, não dorido mas antes posto, a viuvinha começa a entediar-se da sua vidinha. Uma semana fechada na gaiola sem esvoaçar por outros beirais que não os seus, fazem-na piar qual cotovia abandonada. Levanta-se, vai até ao enorme espelho que preside ao quarto. Gosta do que vê. Não está mal, não, pensa com os seus botões, e depois sabe que o seu Orlando como zeloso que fora, deixara-a bem fadada de tostões e outros dobrões, pensa a nossa Sãozinha Forrada.

Senta-se de novo na borda da cama e mentalmente faz as contas. Ora o seu Orlando finou-se, vai para doze dias, abrindo a mão conta dedo a dedo, num esforço que a leva a enrugar a testa e a morder o lábio inferior. Bem já está. É isso, doze, será? É, é, responde-lhe a consciência. Mais uma semanita e, pensa ela, vai-se do buraco para fora. Está na altura de mudar de ares. Aqui não pode fazer grande coisa, pois que toda a gente a conhece. Meios pequenos são uma pasmaceira. A sua utilidade advém de se conhecer as pessoas e haver mesuras quando se pressente os bolsos forrados ou então se a gente vem daquelas famílias de nome comprido mas tesas que nem um carapau seco. O seu dinheirinho, bem morninho, espera-a, não que ela tenha falta de imaginação, não, nada disso, é apenas uma questão de ocasião.

Ao vigésimo dia Sãozinha Viajante, tira Mercedes preto da garagem, pensa mentalmente em trocá-lo por um descapotável, carrega-o de malas, maletas, necéssaires e toda ataviada que não de preto, lança-se à estrada. Como desculpa, uma mudança de ares e visitar o santuário de Lourdes como prometera ao seu Orlando. E palavra dada a moribundo é para se cumprir. Estão dadas as explicações, Clara a fiel e devota empregada, fará o favor de espalhar a notícia. Ela conhece o meio, se conhece.

Já longe da terrinha que lhe serviu de tecto, Sãozinha para o carro, suspira, solta uma gargalhada, esfrega as mãos, pega no estojo de maquilhagem, retoca-se e, entre dentes cantarola. Está livre, rica, apetecível, sensível e sobretudo disponível. Também ela é um achado! Mas, alto lá, vai escolher mas bem escolhido, porque dinheirinho tem ela, precisa agora de um rapazão bem folgazão e bonacheirão com muita submissão e nenhuma capitulação. Encontrá-lo vai ser obra, no entanto, tem tempo. É assim a Sãozinha Caçadora.

Já de arma em riste, isto é, de corpo dobrável, sorriso flexível e olhar maleável, Sãozinha Caçadora bate os lugares na busca da presa desejada e suspirada. Eis senão quando, ao cruzar da esquina depara com o espécime sonhado. Um macho alto, de músculos apurados, tisnado de sol, cabelos negros puxados para trás como se fora estrela de Hollywood. Não pensa mais, porque não está na sua natureza. E simplesmente vai de encontro à estátua em movimento. Zás, catrapus. A mala de mão cai obedientemente no chão e o seu recheio solta-se alegremente. Pobre alma! Que desolada fica a nossa Sãozinha. Um rubor, um ah, um ai, um ui, soltam-se ritmicamente da sua boca de lábios bem humedecidos. Submisso, estonteado, o jeitosão baixa-se murmurando um perdão e apanha as traquitanas espalhadas.

Daí ao jantar, a dois, foi coisa de estalar de dedos. Seguiu-se um passeio, rapidamente uma noitada, e ao fim de três dias, pasme-se, estavam noivos. Um tiro certeiro de caçadora experiente!

Ora, esta coisa de noivar em quartos separados, é assunto do passado, e a nossa noivinha é pessoa moderna e gulosa, logo a um invólucro daqueles há que rapidamente tirar o laço, mais a fita-cola e ver bem, experimentar a peça, para se ter a certeza que está conforme e fica bem. E assim foi, assim se provou e serviu, e oh Deus meu, como serviu!

Sãozinha Noivinha ficou de tal modo deslumbrada, que aparvalhada nem deu que estava a ser burlada pelo Gastão, o tal jeitosão. O magano, que de parvo nada tinha, pelo contrário o interior em tudo fazia jus ao exterior, pensou rapidamente: estava ali o seu futuro, sem muito trabalho. E se pensou, melhor o fez. Carinhoso, atencioso, falacioso cercou a pequena a jeito, e com a mesma rapidez enfiou-lhe o anel redondo no dedo direito. Tudo isto, um mês depois do pobre Orlando ter recolhido o espírito, e subido ou descido ao tal Sítio conforme o Suplício.

De fresco casada Sãozinha Esposa esforça-se por satisfazer os caprichos do seu torrãozinho. Um derriço de homem que a sabe fazer feliz, satisfeita e saciada. Não precisa de inventar artes nem de ter cama redonda. O seu Gastão machão é um portento. Ela que o diga. Até já anda a ficar um pouco cansada, mas será talvez devido ao desuso dos últimos tempos. E depois o seu Gastão é um homem culto, ele até tem um curso de gestão, a herança nas suas mãos vai governar. Está encantada, deleitada, sente-se apetecida e estremecida. Uma sonhadora é Sãozinha!

Gastão já não usa gel no cabelo, nem calças de ganga, nada de coisas sem manga. Tudo do bom e do melhor. Elegante, casual e factual. Um homem de fazer o olho estremecer e, o coração derreter. O dinheirinho rebola que rola, que foge nas mãos de Gastão bonitão. Um garanhão de luxo, forte, desenvolto e solto. Diz ser perito em gestão e logo de supetão a fortuna tem na mão. É esperto, o bonitão sabe levar a água ao seu moinho e que bem que ele mói e leveda os sonhos, tão bem que Sãozinha Estonteada nada vê, nada percebe, que o figurão do seu Gastão lhe está comendo as papas, não na cabeça, mas no dinheirão. Pobre Sãozinha-Viuvinha-Carpida-Forrada-Viajante-Caçadora-Noivinha, o que esta alminha passou até chegar a Sãozinha-Casada-Enganada! Que trabalho, congeminações, traições e perdões teve que suportar, elaborar, granjear. Uma vida de verbo, mais de substantivo, de frase rimada, e ideia rodada em estribilho sopesado. Rodam os tempos, rodam as vidas. Gastão, figurão, conduz o seu Mercedes. Sãozinha, coitadinha, meia tontinha arrasta o cesto das compras…viúva rica, solteira não fica, mas a vida sacrifica…

E ainda dizem que há pessoas com sorte!

30 novembro, 2007

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Gi de "Os meus Pequenos Nadas" lembrou-se deste cantinho azul e de mim como "Uma Mulher que faz Pensar", passando -me a corrente. Ora, minhas queridas, não fazemos ,nós todas ,pensar? Claro, que sim... e porque é uma verdade indiscutível, solicito a todas que me visitam ,e não só ,que passem a mensagem, que passem...passem..
Obrigada, GI!
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."Os homens cultivam cinco mil rosas num mesmo jardim e não encontram o que procuram. E, no entanto, o que eles buscam, poderia se encontrado numa só rosa"

Saint Exupéry

26 novembro, 2007

Sífiso

Recomeça…
Se puderes,
Sem angústia e sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro,
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo
Ilusões sucessivas no pomar
E vendo
Acordado,
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças.


Miguel Torga

25 novembro, 2007

Prémio da Amizade.

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Este prémio da amizade que gentilmente me foi oferecido pela amigo: C Valente, que agradeço desde já ,e porque as estradas deste espaço virtual nos unem , em redes de amizade, a vós, que a minha rede vêm visitar, deixo-vos este pequeno laço, com um obrigada..

21 novembro, 2007


Os Novos Imigrantes (II)


-Márcinho vem cá, meu bem.

Mulata quente, de formas redondas e firmes, sorriso de sol amarelo no rosto de trigo maduro, Josira balanceia a sua bundinha no compasso dos passos apressados. Há que levar Márcinho à escolinha e depois ir numa corridinha tomar o cafezinho da manhã. Hoje tem muitos pés e mãos para fazer. Lesta veste o rapazinho. Três anos de sorrisos num rostinho redondo de olhos negros cheios de estrelas. Já pronto puxa-o a si e aperta-o. Sente aquela quentura suave de criança, o morno do corpito ainda lhe escorre nos dedos. Suspira. Márcinho, o seu homem, a sua vida.

Josira fecha a porta do pequeno apartamento. Chama o elevador. As mãos estão cheias, de bibe, casaco, mochilinha. Tudo do seu menino. São horas de o entregar no jardim-escola. Tem ainda que andar um bocadinho, a manhã acordou fria de nevoeiro, o ar gela as narinas, enruga os dedos e corta o bafo quente. Veste o anoraque ao pequeno, põe-lhe o capuz na cabeça, aperta o seu casaco, sente um tremor pelo corpo nem as formas cheias a aquecem, tem que comprar um casacão, mas Márcinho precisa de botas e calças. Terá que esperar. Talvez com um pouco mais de gorjeta, o Natal vem aí, e as clientes são mais mãos largas. Talvez, mas o tempo está preto. Ela que o diga. Pagar a apartamento, a escolinha do seu menino, vestir calçar e comer. Uma doidura. Sempre a fazer conta, sempre. Tem dias que dá vontade mesmo é de chorar, sente-se sozinha quando o seu menino não está. Ter sempre que lutar pelo amanhã, que é cinzento e frio. Tem memória ainda quente do seu Brasil nordestino, da mornura que enche o ar e alaga a pessoa. Aqui é diferente. O português é mais formal, mais frio. É boa pessoa, mas não ajeita o calor que tem, nas gentes em redor, é como tempo. Ora quente de brasio, ora de chuvadas ora gelado de cacimbo e cinzentão, sempre cortado em si, não estende a mão no calor ou no frio dos dias, porém tem coração mole quando se lhe toca a alma. Gente diferente da sua gente. Mas gente do futuro do seu Márcinho.

Está cá já vai para cinco anos, ainda lembra dos primeiros tempos, muito duros, muito magoados, muito cheios de engano. Não conseguira trabalho como sonhara, tivera que deitar mão ao que aparecera. Márcio, o seu marido não arranjara nada. Ele tinha sempre um jeitinho calado, descansado quase molengão. Gostava mesmo era dormir, pegar uma cerveja mais o violão e sentar no cadeirão cantando as modinhas. Um dia partira sem nada dizer e Josira esperara, esperara, em vão, ele não dera mais notícia. Fora cruel, mas Márcinho vinha a caminho tivera que ser forte. Seu menino já era gente, ía dar-lhe futuro, mais do que um violão e feijão, como outros meninos, que ela sabia. Josira chega à escolinha, troca os bons dias com a educadora e entrega-lhe o pequeno.

-Dá um beijão em Mãmãe, dá, meu bem.

-Sim, Mamãe.

O pequeno ergue-se na ponta dos pés beija-a e corre para junto dos seus amiguinhos. O bibe azul balança no corpito à medida dos passitos em corrida. Voa para a sua salinha e entra feliz, com aquele sorriso gaiato que lhe pinta os olhos e arrenha as bochechas. Cá fora, Josira enfrenta o frio que desce do alto para o corpo. Sorri, vai enfrentar mais um dia, rápida dirige-se para o gabinete de estética. É ali o seu trabalho, depois, nas horas mortas ainda vai a casa das senhoras fazer umas mãos, pés ou simplesmente uma maquilhagem. Ela sabe da sua arte, gosta do que faz. Tem dois trabalhos mas dá para sobreviver, e depois sempre foi muito poupada. O seu sonho é abrir uma academia, mas até lá… se acaso algum dia acontecer, tem que labutar o dia-a-dia. Não é fácil mas é melhor do que no seu nordeste onde o desemprego rondava como bicho na toca, a fome era quase um estado e o futuro, o que era isso? Emigrar foi a solução. Deixou a família para trás, e eles são tantos. A sua gente tem filhos como as sementes do maracujá. Muitos e gostosos. O pior mesmo é quando as sementes começam a brotar, aí, não dá ,para o maracujá ficar quietinho na árvore, não dá, não. E depois o fruto cai no chão, fica bichado de podre. É assim a vida, lá na sua terra. Gente que nasce e cai sem nunca se levantar, doente e pobre. O seu Brasil, oh como a saudade rói ,abana a cabeça como que a despedir os pensamentos.

-Bom dia, Dona Isabel, tudo bem?

-Bom dia, Josira, está frio, hem?

-Oi meninas, tudo numa boa?

-Oi, Josira!

Veste a bata, prende os cabelos, pega no cestinho de verga com os vernizes coloridos e respectiva parafernália, no banquinho e na tina de hidromassagem. A primeira senhora está à sua espera.

-Bom dia, Dona Maria Graça. O que vamos fazer hoje, pé ou mão?

-Bom dia Josira, os dois.

Coloca a toalha no cimo da perna quase junto à coxa, dobra com suavidade a perna de D. Maria da Graça, o pé assenta na toalha. Uma olhadela e vê o estado do pé e unhas, o que precisa de fazer. Não estão lá muito cuidados. No Brasil, dona que é dona cuida mais de si. A mulher portuguesa só começa agora, brasileira gosta mesmo de si, de estar gostosinha, de ser mais mulher e menos mãe. O instinto de fêmea prevalece, maternal é consequência. Um pé está pronto, rosado, fino, o outro segue-se-lhe. No final, a cor invade as unhas ,tornando-os apelativos. Não importa ficarem escondidos, haverá tempo de mostrarem assim de nus. Depois é tempo de mãos, Dona Graça tem dedos esguios e bem articulados, e o seu trabalho fica mais bonito, ainda. Vezes há, em que as donas têm mão áspera, de lida, de descuido ou de falta de carinho. Tem visto tanta mão e pé que quase podia contar vidas, mas só pode pensar para ela. Tem sempre que ser simpática, humilde, é o seu ganha-pão que está em jogo e Márcinho vale por todo o pé e mão gretado, inchado ou áspero. Se mamãe e papai tivessem labutado como ela, não teria precisado de emigrar. Mas mamãe e papai não sabiam ler, viviam na casinha que vôvô construíra, fazia tanto, lá no mangues junto à foz do Gurupi, no Maranhão. Eram cinco, ela e mais quatro, tiveram que fazer pela vida, se virar. Estudara o ginásio com bolsa, claro está. Depois trabalhara na Academia, e assim custeara o seu cursinho de esteticista. Voltar ao sítio, só no Natal, já não se acostumava aquela pobreza. Mamãe sem dentes toda descaída, e papai feito pau de goiabão de torcido e enrugado. Sobrava apenas a ternura arrastada das suas gentes, o cheiro de terra húmida quando chovia, o chinelo no pé, o pentear na soleira da casa, a conversa morna de mamãe, o cheirinho do bacuri, do jenipapo, do tamarindo e do jaca, frutas que ainda a fazem salivar de saudade. Lembra-se, quando se sentavam na mesa comprida de pau-d’óleo depois de uma juçara bem molhadinha. Sem se aperceber trinca os lábios cheios, a tez respira o mate, os olhos são castanhos ouro, vestidos de cílios longos que lhe sombreiam o olhar. É bonita, Josira. Mulata vistosa, redonda, gostosa. Ainda tem anos verdes pela frente, sabe-o. Chorou assim de poucochinho o seu Márcio, mas também encolheu logo o coração, e só abriu de mansinho ao seu pequenino. A manhã correu depressa, Josira arruma as coisas, conta as gorjetas e sorri para si. Mais uns dinheirinhos e já pode comprar as botas que viu para o seu menino. Tem duas horinhas e vai correndo para casa de duas clientes. Vai lá fazer-lhe as mãos. Pagam bem, precisa de tudo. O Natal vem aí e quer comprar uma coisa bonita para o filhote e se puder, para ela, também. Tem sido assim, sempre, desde que estão os dois. Márcinho fica tão feliz, as covinhas das suas bochechas riem sempre com a boquinha. É um regalo vê-lo assim. Só ela sabe a tremura quente que sente quando o vê rindo. As lágrimas aquecem-lhe os olhos e mergulham no coração aberto de mãe. Sabe que o amanhã é do seu menino e dela, mesmo com o amanhecer frio, gelado e cinzentão dos dias, mesmo com a luta do seu dia-a-dia, mesmo com a sua solidão de mulher, sabe que um dia vai vencer.

O entardecer vai vestindo o seu capote, no portão do jardim-escola, o sorriso mais lindo do mundo, abre-lhe os bracitos.

-Oi, mamãe querida!



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18 novembro, 2007


Nascer

Grito lançado em espanto

Punhos cerrados em luta,

Esticar e encolher de pernas,

Piscar de olhos inchados,

Pálpebras enrugadas e vermelhas,

Cabelos colados,

Nu em si mas vestido de vida,

Nascer.

Sémen frutificado de um momento,

Fruto macio a madurar,

Em matriz quente e doce de fêmea,

Suspiro prolongado de prazer contente,

Ai de ternura escapado,

Sorriso de gente a espreitar.

Ser.

Nascer e ser …

Maçã verde de labuta trincada,

Romã de bagas doces em beijo dado

Talismã de um amor sonhado

Fruto maduro no ramo já dobrado,

Meu filho, meu ventre, meu amor

14 novembro, 2007



"A arte é um meio, o homem a finalidade"

Almada Negreiros






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11 novembro, 2007

Ázimos…


Na ponta dos dedos gretados, sangrados

A vida.

Rói, magoa, aperta, criva

O pulso latente.

De lutas, desejos, crenças, revoltas

O coração.

Parte, rasga, sangra, cura.

O amor

Da vida, da gente, do ir, do vir

A terra, o metal, o fogo, a água,

Os elementos

Em luta, em desespero, em gritos, em soluços

Unem, acrisolam, rasgam, apagam

O sentir

O mundo renasce, cresce, floresce, adormece

No olhar

Húmido, luzidio, revoltado, magoado

Do lutar.

Em ventres vazios, rasgados, frios,

Já prenhes de sonhos desfeitos,

Já ázimos de futuro,

Túberes do nada!

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09 novembro, 2007

Tarantela II?









Solicita-me Luis de Portocroft que abra o livro que tenha mais à mão, e reproduza a quinta linha da página 161. Abro "Ontem não te vi em Babilónia" deAntónio Lobo Antunes-Publicações D.Quixote.

"-Como diz como diz?
não se lembrava do automóvel, do meu pai, da herdade
-Uma herdade?
nem cálices de cristal nem pratas amolgadas, um candeeiro de borlas que não iluminava o fosse que fosse a não ser a si mesmo, o egoísta, há quase cinco anos que não vejo chover e duas da manhã porque qualquer coisa mudou, os estranhos recuaram a discutir entre si preferindo o esconso dos arrumos a que falta a portada, julguei que a das cataratas se interessasse pela família, a casa, a sua imagem no espelho e mentira, qual família, qual imagem, qual casa..."

É suposto dar continuidade, assim, peço a Arion ,Gabriela Martins, Miosotis e Vida de Vidro que peguem no livro mais próximo e...

08 novembro, 2007

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Os novos Imigrantes. (I)

Vêem de longe, figuras dobradas, olhares esquivos, corpos quebrados de almas perdidas. São de longe das terras do frio e do gelo. Chamam-se Yuri, Ludmila., Boris, Stevelana, Khanda…

Khanda Utsanova é figurinha gentil e apelativa na sua diferença. Eslava por nascimento mas mongol na origem e nos traços que lhe vestem a pele. Grácil no mover, ainda titubeante no expressar, de sorriso no olhar oblíquo e nos lábios cheios. O rosto é espalmado mas aberto. Chegou, vai para cinco anos, veio do frio mesmo perto de Minsk, hoje, vive numa cidadezinha deste país pequenino, quase canteiro, na imensidão da sua Rússia natal. Mas Khanda é menina a crescer na terra onde o sol se põe. Educada, culta, muito pertinente nas apreciações que faz, destaca-se dos demais, não só pelo seu facies, mas sobretudo, pelo seu saber e postura. Não possui os atavios e marcas das suas colegas nem outros sinónimos, é simples por natureza. A mãe, figura de porcelana chinesa exprime-se de forma encantadora pelo hiato de alguns sons mas que no todo perfazem um discurso muito europeu. Tornou-se cabeleireira. Primeiro foi, empregada de limpeza, depois ajudante até que finalmente se balançou no aluguer do andar, e com ajudas conseguiu montar o seu salão de cabeleireiro. Demorou a angariar a clientela, mas ultrapassada a situação, é hoje um lugar de referência na pasmaceira provinciana da cidadezinha. Porque isto de ter a cabeça lavada e penteada por uma russa que sabe de violino, fala três idiomas e serve chá, não é para todos, e até dá um certo status. A vaidade comezinha, tão nacional, transpira sempre pelos poros, sejam eles quais forem. A senhora Utsanova sempre gentil, lava, sorri, esclarece e conta episódios da sua terra branca, onde as dificuldades do quotidiano são relegadas para as traseiras da memória, e apenas o jardim de entrada é recordado. Coisas do coração! Afinal as gentes não são assim tão diferentes.

Ora, num destes dias, Khanda adolescente de primícias intelectuais incomuns, decidiu juntamente com a sua melhor amiga, uma Margarida bem portuguesa, e com a ajuda do seu pai, violinista feito trolha, dar aulas de música aos amigos tão excluídos do saber. Lá conseguiram a cedência de uma sala nas instalações velhas e bolorentas de um edifício corroído de osteoporose granítica. Os sábados à tarde passaram a ter sabores de mazurcas, valsas, minuetes, um sem fim de notas em crescendo, ora agudas, graves ora estridentes ou doces. Os alunos, aliás as alunas, porque nestas coisas o feminino é mais aberto, não chegavam à meia dúzia, as”piquenas-da-mãmã” cujo faz-de-conta -social atraca sempre no cais da importância anafada, as desejosas, mais as que-vieram-só-ver-se-era-giro, e lá se foram sentando. Mas a notícia tem asas, e em breve, o número de candidatos a músicos aumentou e muito, por diga-se, é de bom-tom tocar violino ou então ter um instrumento na sala, em repouso, dá um ar tão, tão de “família”. As pequenas, agora de violino em punho, digo antes, ao ombro, percorriam as cordas do instrumento em harpejos de dó. O Sr. Yuri, como era chamado, o apelido caíra com o cimento dos baldes, penava a bom penar nas tardes de sábado, logo a seguir á catequese, para incutir sentido e amor musical a este bando de gente jovem cujos ouvidos pareciam funis de folha-de-flandres de pernas para o ar. Os sons pareciam esvair-se por outros orifícios que não os ouvidos. Pobre Yuri!

Persistentemente, com a paciência de quem tem que vencer noutras terras, o Sr. Yuri conseguiu, não só criar um bom quarteto de violinos, como ainda despertar o interesse musical à comunidade, que rapidamente se apercebeu dos benefícios, que daí lhe poderia advir., porque incultos poderemos ser, mas parvos, é que não! As autoridades, em tempo de campanha eleitoral, acharam por bem, dar-lhe uma mãozinha a jeito de promessa cumprida, o que afinal é bem raro neste jardim, e providenciaram as instalações condignas bem como alguns meios. Pasmem as almas do burgo, nas noites estreladas, quando as flores se recolhem deixando no ar morno, o aroma doce de boas noites, irrompem então pelo ar pizzicatos e vibratos quase primorosos que amaciam a rudeza da paisagem envolvente. A ignorância musical sente-se apaziguada pela generosidade das gentes da terra. A família Utsanova, de imigrantes de leste passou a ser considerada gente boa e culta, muito trabalhadora e que se adaptou facilmente aos usos portugueses, comendo já alheiras e rancho, deixando para lá as comidas esquisitas deles.

Sentados na saleta singela de móveis mas rica em recordações, os Utsanova como qualquer outra família desta aldeia global, conversam sobre o seu dia-a-dia. Yuri, agora estucador de tectos, obra delicada que só mão de artista sabe executar, anseia por se dedicar á sua música, que lhe brota livre e solta da alma. As aulas de violino acalmam-no um pouco do espatulado diário, mas não o suficiente.Latente está sempre o vibratto que lhe percorre o corpo, e eleva o espírito. Pensa em pauta mas vive nas cordas que a vida lhe teceu. As cordas repuxadas de uma vida sem som, onde fome tantas vezes foi eco de adágios tocados, onde o cinzento da pobreza deslizava no arco plangente do seu violino, onde o futuro era melodia interrompida em sol na pauta da vida. Lentamente, a bruma do sonho materializou-se em desejo premente de melhor dias. Irina, sua mulher, sempre calada e activa deu-lhe a força. Mais do que nunca fizeram sacrifícios, os possíveis e os impossíveis, dias e dias a chá quente e pequenos blinis. Khanda apercebia-se, a sua menina, mas diziam-lhe que estavam a economizar para a sua educação. A pequena aparentemente aceitava. A verdade era outra, precisavam de uma boa quantia para poderem “sair” pois que as passagens não eram nada baratas e, os”grupos” pediam muito. Ele, Yuri, tinha conhecidos em Portugal. Diziam que era uma boa terra, os portugueses boa gente, acolhedores e amigáveis, com as suas manias, mas no fundo ainda eram os menos sectários da Europa. De grão em grão forraram minimamente a carteira. Primeiro veio ele. Chegou via Frankfurt, num dia de sol. Sentiu-se quente ao descer do avião. Uma espécie de calor envolvente que o descansou dos receios guardados no peito. As boas vindas chegaram assim feitas de luz e azul. Yuri respirou fundo e tomou alento. Mais tarde encontrou os amigos que o levaram para a obra. O Encarregado aceitou-o e ele aceitou o trabalho, uma empatia feita necessidade. O primeiro salário foi uma vitória! Sentiu-se um herói, nunca tivera tanto! O ombro feriu-se, as mãos engrossaram e criam calos. A macieza e suavidade dos dedos perderam-se durante meses. Quanto mais duros e calosos, mais baldes eram carregados. As horas não corriam correndo na mira de tempo gasto. Tinha que conseguir!

O Outono, o Inverno e a Primavera passaram, chegou o verão e a família também, uma alegria! Alugara um apartamento, para ele, uma mansão, quase. Dois quartos e uma sala! Irina e Khanda maravilharam-se De maravilha em maravilha a família foi criando raízinhas aqui e ali, e ao mesmo tempo mostrando o seu caule eslavo erecto e firme. A língua, barreira primeira, foi ultrapassada com dicionários, colegas, trabalho, clientes e escola. Saber falar é integrar-se. Conviver é ser conhecido. Mostrar cultura é dar presentes a quem só tem as caixas. E eles encheram-nas, de encanto e cor. Artistas ou apenas sobreviventes? O que importa? Afinal vieram e vieram por bem.

Volvidos cinco anos, afinal já não são objecto de interesse. A Khanda é uma prometedora adolescente, uma excepcional aluna, uma boa violinista, campeã de ténis de mesa e amiga das “piquenas-da-mãmã”. O salão é frequentado por clientes assíduas, endinheiradas e socialmente consideradas. O que era uma novidade tornou-se rotineiro. Ir arranjar o cabelo ao Chez Irina faz parte do quotidiano das senhoras de proa do burgo.” Tem mãos de seda e dá um toque ao cabelo como se faz lá fora. E depois tem bom gosto, sabe falar e o chá? O chá é divino., sempre servido naquele aparelho, o samovar. Um toque fabuloso. Ainda bem que vieram para cá, gente assim é sempre um regalo.”

O Sr. Yuri, já não continua na dança do estuque. Presentemente tem emprego nos serviços municipais no pelouro da cultura. A novel casa da música tem as suas directrizes. Nos entremeios, sentado na sua sala já bem mais recheada vai compondo obras, que um dia quem sabe, serão executadas.

Mas tudo estaria bem se acaso, o velho espírito tão nacional, não guilhotinasse tão de vez em quando. Murmura-se já à boca cheia que o Sr. Yuri, está na Câmara porque uma cliente da mulher, a Sra. Dra. Fulana tal, cujo marido é o não sei que mais, essa digníssima senhora, meteu a cunha, e o marido arranjou-lhe o emprego e vejam só, que o filho do compadre Altino que até estudou no Conservatório, anda aos caídos por Lisboa, e vêem estes fulanos de fora, com uma mão à frente e outra a atrás, e zás, ficam com tudo.

Não há pachorra, não há, não!

03 novembro, 2007





A noite na Ilha

Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha.
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono,
entre o fogo e a água.
Talvez bem tarde nossos
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam.
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado
e teus olhos buscavam o que agora - pão,
vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos,
porque tu és a taça que só esperava
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira,
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos,
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura.
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida,
e recebi teu beijo molhado pela aurora
como se me chegasse do mar que nos rodeia.

Pablo Neruda

01 novembro, 2007

OUT OF AFRICA




Yet, love, mere love, is beautiful indeed

And worthy of acceptation. Fire is bright,

Let temple burn, or flax; an equal light

Leaps in the flame from cedar-plank or weed:

And love is fire. And when I say at need

I love thee . . . mark! . . . I love thee--in thy sight

I stand transfigured, glorified aright,

With conscience of the new rays that proceed

Out of my face toward thine. There's nothing low

In love, when love the lowest: meanest creatures

Who love God, God accepts while loving so.

And what I feel, across the inferior features

Of what I am, doth flash itself, and show

How that great work of Love enhances Nature's.

- Elizabeth Browning

From: Sonnets from The Portuguese

26 outubro, 2007

AVerdade

Eu sou assim Eu… eu sou…Ik ben zo I… I ik ben…

-Johann, - De liefde van I u

- I ook, Joost.

Deixa descair os braços do amplexo que abrigava Joost. Olha-o, e sente o chão fugir-lhe, sente que o mundo parou, sente que chegou finalmente à sua porta. Afasta-se levemente, olhando para dentro de si, para as suas entranhas, para a sua alma. Tem que o fazer antes de entrar, o passo tem que ser dado firme e largo. Suspira e cruza-a. A entrada é nebulosa, esparsa, há calma dentro de si, uma espécie de força interior que nunca julgou possuir, e também sente doçura, o que é esquisito. Afonso João, trinta e oito anos, não é belo, não é forte, não é alto, não é personagem de romance. É apenas mais uma figura sentada, num banco de um bar demasiado barulhento, onde as pessoas se perdem no néon das cores vivas, e os esgares dão conta do mundo escondido da noite. É homem, em descoberta, junto da sua revelação que dá pelo nome de Joost. Ainda há bem pouco, era igual, sabendo que algures era diferente, agora, e neste momento, é diferente, sendo igual à sua verdade. O som do bar rebenta-lhe no peito revolto de ruídos de certeza. Olha a mesa, os copos de whiskey bebidos, embaciados de gelo e de mãos suadas. O ar viciado de cinzento de fumo, o cheiro adocicado da cannabis que invade as narinas e amacia devagar devagarinho a mente tornando os sentidos extáticos. Sente rodopiar em si a verdade. Precisa de sair, de apanhar ar, de tragar a verdade, de aquilatar a condição, de assumir a escolha. Simplesmente, ama Joost, o homem.

Cá fora o ar da noite de Amesterdão envolve-o na sua humidade cuspida de chuva. É a nortada trazida pelo Atlântico, ergue a gola do casaco e suspira. Toma alento, endireitando-se olhando-o, Joost devolve-lho, em azul, mudo de aguado, luzidio de promessa e calmo de feliz. Caminham lado a lado, ao longo do Amstel que marulha sob os cascos dos barcos cantando dolentes nos seus rangido presos. Descem Prisengracht, não falam, não precisam. O silêncio comunga-lhes o sentir, a aceitação deixa-os humedecidos, perdidos em pensamentos. São ambos colegas, amigos, casados e pais. O mundo gira-lhe nos pés, na alma, e na razão. Não, aí não gira, dói como corte de bisturi, separando-lhe o ser em carnes latentes de vida, de veias pulsantes e de músculos. O cérebro pulsa, lateja e cospe-lhe a verdade que sempre sentiu e que não assumiu. É diferente no quadro vigente do normal, todavia simplesmente ama, mas ama um homem. Lembra-se dos seus tempos de adolescente e como se sentia diferente, lembra-se do tempo de namoro, do casamento, dos filhos, do encontro com Joost, do querer e não querer, da voz, dos silêncios, das angústias, de tudo. Chega! Acabou! A revelação está aí!

No relicário das memórias, Afonso João recorda a infância junto da mãe e dos irmãos. Do pai, vagamente, pois morrera de acidente, ainda era ele muito pequeno. Não tivera sobressaltos, apenas serenidade mas sempre acompanhada de um estremecer de alma, de uma sensibilidade vibrante e de um amor ao próximo extremoso. Sempre acudira aos tristes e doentes. Estava-lhe no sangue, daí a escolha, ser médico. Já na Faculdade conhecera Ana, também ela estudante de medicina .Fora uma atracção de expectativas, de sonhos e dádivas .Conheceram um pouco do mundo ,e das suas dores ao fazerem voluntariado em S. Tomé. A malária, a disenteria, o dengue, a sida, tinham-lhes mostrado a precariedade do ser humano, unindo-os num casamento de dádivas. Ana era a sua companheira, o outro lado do seu intelecto, a lutadora serena, o pilar da estrutura familiar. Descansava nela demitindo-se das escolhas, das labutas exteriores. Detestava os pequenos nadas da vidinha de todos os dias, quase cinzenta de repetida. Nunca sentira êxtase, nem acrisolamento. Tudo fluíra como se fosse um simples rio de águas ,ora pardacentas ora de um brilho breve. Sabia que era insatisfeito, sabia-o ,quando acordava de manhã ao lado da sua Ana. Sabia-o, quando a tomava para si e se amavam, sentia que era um acto, não havia fulgor, nem brilho. Simplesmente ternura, muita ternura. Carolina e Afonso tinha chegado. Hoje eram quase adolescentes. Uma guilhotinada invade-lhe o corpo, como lhes vai dizer? Como? Ele não pode adiar. Não pode, não vai. Chegou à foz do seu rio, a entrada no mar tem que ser livre, livre! Tem que chegar a casa, tem que cruzar rápido aquelas águas paradas, aquele suave entorpecimento que tem sido a sua existência. Soube hoje, o que era sentir o redemoinho, a vibração, o poder dilatado em espasmos de prazer. Soube a sua verdade, toda e não quer perdê-la. Já foram tantos os anos dormidos. Tantos enganos feitos verdades. É tempo de si. É tempo de amar a vida, de amar Joost, de se amar. Para trás fica o que não perdeu, mas também não achou, um cinzento erguido vida, amedrontado de vontade e dormido de si. Poucas vezes sentira o riso brotar-lhe nas veias vermelhas de sangue quente e pulsante, poucas ou nenhumas sentira o ímpeto do riso catapultado das suas entranhas. Vivera, porque respirara ,mas a anestesia do sentir não lhe tinha permitido, até então, dilatar as narinas, e aspirar o hálito do mundo em tempo de escolha, e de revelação, era altura de partir correntes ,moldando novos elos. Estivera preso, olhando sempre a liberdade do outro lado, porém ,o tempo chegara , a chave girara e a porta se abrira. O corredor era ulcerado de comentários, hemorrágico de desdéns e aleivado de escaras, porém era a sua artéria sistémica de saída.

Despede-se de Joost e caminha até Statenjachststraat. Ana esteve de banco esta noite, certamente que estará a sair, à sua frente surge-lhe o Academisch Medisch Centrum onde há quase dez anos ambos trabalham. As suas especialidades são diferentes mas as dúvidas, e angústias são semelhantes. Tinham chegado com bolsas e agora faziam parte do corpo clínico. Era gratificante e apelativo o trabalho desenvolvido. Sentia-se realizado como médico quer em termos científicos quer humanos. A escolha fora boa.

Assim ,divagando ,não se apercebeu da figura que calmamente se colocou a seu lado. E em bicos de pés se ergueu e o beijou na face.

-Viva, boa noite!

-Olá, Ana.

Deu-lhe o braço e dirigiram-se para o outro lado. Perto havia um barzito que tantas vezes os acolhera. Já sentados e casacos tirados, pernas cruzadas em cadeiras macias de encosto cómodo, segurando copos de Amstel Bier, olham-se. Ana poisa o copo perlado de gotículas e diz-lhe:

-Desabafa Afonso João. Vá lá…foi para isso que vieste, não foi?

Olha-a, Figura gentil de rosto suave, olhos cinzentos grandes, perscrutadores plenos de centelhas de inteligência, boca túrgida, cabelos loiros, fartos, penteados simplesmente para trás, escapam-se ao movimento do pescoço, acompanham o bater dos cílios. Veste uma saia de lã justa e uma camisola do mesmo tom . As pernas, cartão-de-visita, cruzam-se elegantemente, revelando perfeição de linhas vestidas em meias de tom beringela transparente de acordo com o conjunto. Como sempre irrepreensível. É uma figurinha ,a mãe de seus filhos. Uma mulher muito interessante, bonita ,loquaz, inteligente e muito sensível. Uma criatura para ser amada e amar devotamente. Conhece-a bem. Engole em seco, olha-a ,e instintivamente põe a mãos na mesa como se precisasse de amparo. Ana aprisiona-lhe os dedos e mergulha o olhar de cílios longos naquele outro dorido de palavras. Pigarreia.

- Ana, tenho… algo muito sério para te dizer.

- Sim, Afonso, estou à espera… diz.

- Ana. Amo outra pessoa… eu…

Ela entreabre os lábios num sorriso, o olhar é cansado muito, dorido, como se finalmente a verdade, há tanto tempo esperada… as lágrimas humedecem-lhe o brilho do olhar, o rosto está amarrotado de dor.

- Afonso…creio saber. Espera… um soluço escapa-se-lhe da garanta, mas sorri…acrescenta olhando-o profundamente - É o Joost, não é?

Afonso responde sem voz em murmúrio: - Sim…

Olha-o uma e outra vez, abana a cabeça, recolhe as mãos, ergue-se lenta, lentamente como se aquele acto tivesse terminado e a plateia ansiasse pelo clamor. Já de pé recua, olha-o e atabalhoadamente pega no casaco e sai porta fora. Afonso fica sentado. Mudo, quedo, partido. Depois, depois sai. Cá fora, a noite prende-o de novo mas não de forma leve, a raiva propala-se da mente para o corpo, engalfinha os dedos, e desfere dois valentíssimos murros na parede do bar, bate com a testa, e urra, sim urra guturalmente. Todo o seu ser é agonia e raiva. A sua condição revela-se-lhe pústula aberta no pulsar do seu ser. Desesperado no sentir magoado de Ana. Não, ela não!

Caem-lhe abundantes lágrimas que se aquecem na gola de lã. As mãos cobrem tensas a cabeça como se suplicassem a resposta. A noite gira no amarelo da lua. Amanhece. O negro é cinzento e depois azul desmaiado. É dia. Um outro dia de muitos que chegarão.

Joost entra na sala. Olham-se e dão as mãos.